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ARTIGO: A FILOSOFIA PRESENTE EM “A VIDA SECRETA DE WALTER MITTY”

Eu nunca tive grande simpatia com a maioria arrasadora dos papéis do ator de comédia Ben Stiller, com a exceção de pouquíssimo papéis pelos quais eu realmente gosto e consigo achar graça de verdade. Porém, minha experiência com o filme “A Vida Secreta De Walter Mitty” foi inesperadamente positiva, me surpreendendo em quanta profundidade pôde ser colocada em uma história que a princípio me parecia “simples e boba”.
Supervisor do setor de revelação de negativos de uma famosa revista chamada Life, Walter Mitty sempre viveu uma vida simples e tediosa, sem nunca ter viajado para fora ou tido grandes experiências pelas quais ele possa conversar. Acostumando-se com sua rotina constante e monótona, Walter Mitty desenvolveu o hábito de sonhar acordado, muitas vezes prejudicando-se socialmente e emocionalmente devido suas constantes aventuras imaginárias que acontecem diariamente por estímulos externos. Inesperadamente, Walter entra em uma aventura real para manter seu emprego, tendo que entrar em uma busca para encontrar o negativo de número 25, solicitado pelo fotógrafo Sean O’ Connell (Sean Penn) para ser foto de capa da próxima edição da revista após a transição para a plataforma virtual.
 
Iniciando a análise do filme por seus erros, é muito importante para a audiência manter em sua mente que o filme possui diversos aspectos diferentes que precisam ser filtrados pelo próprio público. Aqueles que, assim como eu, não sentem grande atração pelo formato de comédia presente nos trabalhos de Ben Stiller, não sentirão interesse algum de assistir esse filme a princípio, sendo o acaso a única forma de se encontrarem assistindo, apesar de ainda termos poucos momentos que conseguem causar um efeito positivo de humor.
O filme possui um início sem sal, esbanjando ao máximo sua qualidade de produção nas fantasias de Walter enquanto dá um valor menor ao roteiro, preocupando-se apenas em apresentar a situação que nosso protagonista se encontra e se encontrará, enquanto situa o público à história de forma mais lenta do que a necessária. Porém, com o passar do filme, o roteiro de fato começa a se movimentar e mostrar a profundidade por trás de Walter Mitty, trazendo reflexões sobre a vida que são complementadas por frases marcantes e belas transições de fotografia, além da trilha sonora que conversa constantemente com o filme, aquecendo e estimulando o público a se indagar sobre qual realmente é a definição de: sucesso, beleza e bravura; além de levantar pautas existencialistas que questionam qual o real sentido da vida e o que define um homem a estar satisfeito com a sua vida e liberdade de viver. Essas reflexões são aspectos totalmente imprevisíveis em relação à um filme dirigido por Ben Stiller (embora possua inspiração em uma obra anterior com o nome O Homem de 8 Vidas) e tornaram inevitável para mim a comparação com o filme Click, com Adam Sandler.
 
O roteiro sempre esclarece para o telespectador como Walter Mitty é prejudicado por suas visões, porém, é justamente à partir dessa ferramenta que ele começa a se tornar o protagonista em um personagem bem mais interessante e cativante, do que simplesmente um homem que não gosta de sua vida e por isso tem visões do que considera uma vida extraordinária. Em determinado ponto do filme, Walter passa a se encontrar em perigos reais, tornando subjetivo para nós, o que é real, até finalmente ser revelado o quão perto Walter realmente esteve da morte, aproveitando para mostrar também como ele se vê realizado por ter sobrevivido algo que ele nunca imaginou que teria que passar em toda a sua vida, mostrando o crescimento do personagem e como ele cria confiança em sua jornada para poder superar seus próprios limites, se afastando da zona de conforto em um passo de cada vez, depois do grande salto que ele deu para fora dela embarcando nessa jornada. 
 
Nas muitas reflexões que esse filme me mergulhou, pude notar como algumas lições que esse filme passou vão muito além de um filme ordinário de comédia. Posso dizer que esse filme me emocionou bastante e aqueceu minha mente com lições que são de real importância para minha pessoa, portanto, considero justo citar algumas lições que o filme passou, lições essas, que servem apenas como exemplo de quão vasta pode ser a influência presente nessa história e na sétima arte em si.
 

Sean O’ Connell e a visão estoicista:

 
1. Uma das linhas filosóficas que mais me chamou a atenção é a que eu descobri através de pesquisas após o filme, chamar-se estoicismo, que está ligada à uma frase em latim que sempre me encantou:
“Respice post te. Hominem te esse memento. Memento mori.” Que pode ser traduzida como: “Olhe ao seu redor. Não se esqueça de que você é apenas um homem. Lembre-se de que vai morrer um dia”
 
Essa ligação é notada à partir do diálogo que Walter tem com Sean após encontrá-lo, indicando a visão de que Sean considera a vida como mais importante de ser vivida do que registrada.

 -Walter Mitty: Quando você irá tirar a foto?

-Sean O’ Connell: Às vezes eu não tiro a foto. Se eu gostar de um momento, para mim, particularmente, eu não gosto de ter a distração da câmera. Eu apenas gosto de estar nele.

-Walter Mitty: Estar nele

-Sean O’ Connell:  Sim. Bem ali, Bem aqui.

 
Logo após esse diálogo, Sean avista um grupo de amigos jogando bola e diz: “Aquilo parece divertido, acho que vou participar!”
 
2. O Existencialismo presente na jornada de Walter Mitty:
 
Além da carga filosófica presente na relação de Sean O’ Connell com o estoicismo e o conceito da frase “Memento Mori“, temos o pilar principal do filme, que pode ser ligado (sendo essa ligação escrita propositalmente ou não pelo roteirista) ao existencialismo segundo a visão de diferentes filósofos, onde citarei as visões mais presentes, que são a de Soren Kierkegaard e a de Martin Heidegger.
 
Comparando primeiramente o filme com o Existencialismo de Martin Heidegger, o filósofo possui a visão de que a atitude e escolhas de um homem diante da morte, determinam sua existência em autêntica e inautêntica. No filme presenciamos isso na cena onde Walter tem a visão de Cheryl, a mulher pela qual ele é apaixonado, cantando Space Oddity de David Bowie em um bar, motivando-o a tomar uma atitude extremamente perigosa, mas que futuramente se mostrou vital para o êxito de Walter em sua missão.
 
A segunda relação que o filme tem com o existencialismo é a mais importante e está ligado à linha de pensamento de Kierkegaard, conhecido como “o pai do existencialismo“. Nela, temos a frase “Ousar é perder o equilíbrio momentaneamente. Não ousar é perder-se“. Esse conceito é explorado durante toda a execução do filme, onde Walter, conforme o andar de sua jornada, percebe que ao mesmo tempo que ele não seria satisfeito e de fato feliz com a vida monótona que levava, não considera digno passar a vida buscando suas aventuras apenas para preencher buracos vazios em sua auto-estima e em seu status social, percebendo no final, que as pessoas que realmente fazem a diferença são pessoas simples que dão seu valor para cumprir suas metas e perseguir seus objetivos pelo puro prazer de vivenciar algo extraordinário.
 
Em conclusão, podemos dizer que “A Vida Secreta De Walter Mitty” é um filme que possui muito mais conteúdo do que é proposto, mas muito desse conteúdo também se vê desvalorizado uma vez que o filme aparenta abordar um gênero diferente do que realmente podemos analisar ao entrar de cabeça em seus conceitos. Em geral, eu enxergo que esse filme entra muito bem em uma citação do personagem Sean O’ Connel no mesmo, onde ele diz para Walter: “Coisas belas não necessitam pedir por atenção
 

“Ver o mundo e os perigos que virão, ver por trás dos muros, chegar mais perto, encontrar o outro e sentir. Esse é o propósito da vida.” – Lema da Life Magazine

Sobre o Autor

Bruno Lucena
Fã de Pink Floyd e pizza. Leitor ávido e nas horas vagas gosto de conversar sobre os filmes que assisto.

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