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ARTIGO – CINEMA SURREALISTA: O Cinema do Esquisito!

O cinema, como já é sabido, é uma forma de arte: consta que é a 7ª arte de acordo com uma numeração usual que estabelece números para todas as formas de manifestações artísticas. Acontece que o cinema é muito mais do que apenas uma arte isolada, é, antes de tudo, um recorte de outras manifestações, é uma linguagem que dialoga diretamente com outras formas de arte.

Dentre as várias possíveis ligações que se poderiam supor haver entre cinema e as outras formas de arte, eu trouxe aqui a estabelecida entre cinema e artes plásticas.

As artes plásticas sempre estiveram se transformando em estilo ao longo do tempo, sempre existiram e existirão estilos que se caracterizam por trejeitos singulares e que tomam como inspiração fontes variadas. O surrealismo é um desses estilos muito originais e que traduzem um estado de espírito.

O surrealismo teve sua origem oficial em 1924 por meio dos trabalhos de André Breton, contudo seu grande expoente foi Salvador Dalí. A arte surrealista expressa-se através de imagens chocantes e provocativas do retrato do inconsciente, bebendo sobretudo da psicanálise freudiana, é uma manifestação que brinca com as sensações revelando em nós algo difícil de conceber; está aberta a interpretações.

O surgimento do surrealismo nas artes plásticas aconteceu quase que concomitantemente a sua associação à linguagem cinematográfica. Salvador Dalí emerge no cinema cravando um vínculo com o principal nome do cinema surrealista, o excelente realizador espanhol Luís Buñuel. Essa parceria gerou a primeira obra cinematográfica surrealista, Um Cão de Andaluz (Un Chien Andaluz) de 1929 (facilmente encontrado no Youtube). Assim como as pinturas surrealistas, os filmes surrealistas que se seguiram possuíam uma forma muito peculiar de transmitir sua mensagem, misturavam um estilo nonsense a um humor negro beirando o esquisito. O marco foi dado e, a partir daí, outros diretores foram realizando suas obras seguindo os moldes surrealistas ou introduzindo alguns de seus elementos. Cabe destacar os nomes de alguns diretores cujos trabalhos são surrealistas ou possuem alguns de seus elementos: Federico Felini, Jan Švankmajer, David Lynch (o principal diretor americano surrealista), Alejandro Jodorowsky, Fernando Arrabal, David Cronenberg, entre outros.

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(Un Chien Andaluz, 1929) (Divulgação)

Deixo aqui 5 indicações de filmes surrealistas ou semi-surrealistas para aqueles que, assim como eu, adoram explorar o cinema em seus diversos pilares. Trago alguns filmes dirigidos por diretores clássicos e contemporâneos.

  1. Dente Canino (2009)

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Primeiro filme do diretor grego Yorgos Lanthimus, aquele mesmo diretor de O Lagosta (2015) e do mais recente O Sacrifício do Cervo Sagrado (2017), Dente Canino já inicia o estilo de Lanthimus em tratar certos assuntos de uma forma muito estranha e muito autoral. A trama trata de uma família muito estranha de 5 pessoas em que os pais tratam os 3 filhos adolescentes como crianças. Esses três adolescentes vivem confinados em casa pelos pais que os educam sob seus próprias moldes. Os pais estabelecem um critério para a liberdade dos filhos: de acordo com eles, se um dos dentes canino deles caírem, então eles estarão preparados para o mundo exterior.

2. Videodrome –  A Síndrome do Vídeo (1983)

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Dirigido por David Cronenberg, Videodrome narra a história do dono de uma emissora B de televisão que transmite uma programação de caráter sexual e fetichista. Em um certo dia, o dono da emissora intercepta ilegalmente uma transmissão e fica intrigado quanto ao seu conteúdo. Ele desenvolve, então, um interesse, uma obsessão, pelo que vê, que mais tarde se transforma em delírio. Ele passa a procurar desesperadamente o autor da transmissão como forma de esclarecer determinadas dúvidas.

3. O Fantasma da Liberdade (1974)

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Filme do maior expoente do cinema surrealista, Luís Buñuel, O Fantasma da Liberdade é uma obra que não poderia deixar de ser citada entre os maiores filmes surrealistas já feitos, na verdade, toda a obra de Buñuel merece um destaque a mais (cito aqui também outros dois clássicos, O Discreto Charme da Burguesia e A Bela da Tarde). O Fantasma da Liberdade é uma narrativa que não segue um único personagem, nem uma única história, o que acontece aqui é uma pequena introdução de todos os personagens e seus problemas. A mudança de tom da narrativa se dá com a interação dos personagens. Todas as histórias contadas por Buñuel criticam a burguesia europeia, assim como seu filme anterior, com tons provocativos através do surrealismo. Destaco aqui duas cenas antológicas de um “sonho-delírio” de um dos personagens e a de um jantar de uma família burguesa. Filme genial.

4. O Pequeno Otik (2000)

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Dirigido pelo grande cineasta tcheco Jan Švankmajer, um grande especialista em animação em stop-motion surrealista (sim, isso existe). O Pequeno Otik é a adaptação de um história folclórica tcheca, onde um casal com dificuldades de engravidar tomam o pedaço da raiz de uma árvore como filho. A raiz de alguma forma adquire vida e passa a ter um apetite imenso, especialmente por carne.

5. Possessão (1981)

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Dirigido por Andrzej Żuławski, Possessão conta uma história de crise matrimonial e infidelidade de uma forma muito estranha. Aqui, a personagem da Isabelle Adjani tem um caso extraconjugal muito fora do comum e que a abala cognitivamente. Seu marido a segue para descobrir o sujeito que está envolvido com sua esposa, mas acaba descobrindo algo muito bizarro.

O estilo surrealista levanta em seus filmes muitos conceitos diegéticos importantes, levanta reflexões profundas num estilo muito fugidio e que pode parecer estranho à primeira vista. Celebra, antes de tudo, um vínculo da criatividade com as artes, onde histórias não estão mais inertes em um quadro, agora em estão em movimento em grandes telas de cinema.

 

CRÍTICA DO NOSSO COLABORADOR: PATRICK

Sobre o Autor

Dandara Aryadne
Editora, Artista plástica, ilustradora. Criadora e web influencer do site Cinema ATM onde escrevo algumas coisinhas sobre os filmes que assisto.

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