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ARTIGO: DE OLHOS BEM FECHADOS – Análise da ultima obra de Kubrick!

Se você já fez algum curso de filmagem ou de cinema, sabe muito bem que um filme nunca é SÓ um filme e que cada aspecto é cuidadosamente selecionado e colocado em cada quadro por um motivo específico. Sem duvida “De Olhos Bem Fechados” é uns dos meus filmes favoritos, mas não cheguei a essa conclusão tão rapidamente assim. Precisei assistir 2 vezes antes de amar essa obra de Stanley Kubrick.

Talvez pela minha idade quando assisti pela primeira vez e pela tentativa inútil de ver pela segunda sem entender muito bem a grandeza do diretor, mas finalmente na terceira vez  e com conhecimento, vi uma obra deixada como herança para os fãs da sétima arte. Quase 20 anos depois da sua estreia, resolvi maratonar as obras de Stanley Kubrick, um dos melhores diretores que já existiram, e lá estava o bendito filme que aos meus onze anos de idade considerei chato. Mas, se era para maratonar, precisei assisti-lo novamente e como eu mesma amadureci, minha visão do filme foi outra, e hoje considero a hora mais perfeita de Kubrick. Poderia ser criada uma coletânea literária de como Kubrick aborda seus filmes, com os sentimentos que ele tenta passar através deles. 

A partir de agora irei conversar sobre a história e terá spoiler, não contarei passo a passo do filme, mas se você ainda não viu, veja o filme primeiro e depois leia. A visado então, la vamos nós: 

Stanley Kubrick pensou nesse filme por 30 longos anos, em 1971 ele comprou o direitos da obra de Arthur Schnitzler, publicada em 1929 “Traumnovelle” (Dream Story), falando sobre sonhos eróticos de um casal feliz que tenta igualar a importância dos sonhos sexuais com a realidade. E foi com essa base que ele começou a fazer a sua ultima obra-prima. Nada nessa obra é apresentada por acaso, ate um simples brinquedo na loja tem o seu significado, as luzes, o arco-iris representado no cenário, a iluminação azul quando Bill parece estar prestes a nota que tudo é um sonho, tudo se encaixa perfeitamente.

Em 1996 começaram as gravações e só em 1999 foi para telonas, Stanley Kubrick conhecido por sua atenção meticulosa aos detalhes, construiu uma Nova York em Londres, ele construiu um bairro inteiro para que pudesse filmar quantas vezes quisesse, ate mesmo uma porta se abrindo, ganhou o record de 400 dias de filmagens, enviou um designer para Nova York para medir a largura exata das ruas e a distância entre as bancas de jornais, esse era o quão meticuloso ele era. 

O CASAL

O diretor mostrou mas uma vez que, se você não presta atenção aos detalhes, você não vai conseguir dar a importância para esse tom relevante que o filme carrega. Colocar Tom Cruise e Nicole Kidman, que na época formavam o casal mais badalado na vida real, só fez distrair atenção dos menos atentos deixando a beleza do filme de fora. Quando todos esperavam cenas quentes do casal, o filme lhe deu um casal frio, sem amor, insatisfeitos um com o outro, que estão juntos somente por conveniência e aparências.

O personagem de Cruise, Dr. Bill – uma referencia de notas dólar, já que “bill“, significa “conta” –  demostra o seu poder em dinheiro e na sua profissão de medico. Em vários momentos Bill exagera em sua extravagancia, pagando mais do que deveria em tudo, como a prostituta que ele nem chegou a fazer o programa, o taxista que ele paga mais do que deveria, o dono da loja de fantasias. Com a sua carteira de medico sendo exibida como se fosse um distintivo policial, é um modo de Bill descontar toda sua impotência sexual fora do casamento. É a vantagem de usar sua posição social e financeira aos que são de classe baixa que lhe dá o poder e prazer. 

Já a personagem de Kidman é Alice – uma referencia a “Alice no País das Maravilhas” de Lewis Carrol, uma historia de conto de fadas, que fala sobre uma garota privilegiada que está entediada com sua vida e que, “atravessa o espelho“,  indo parar no País das Maravilhas. A Alice de Stanley Kubrick está igualmente entediada em seu casamento, que tem uma fantasia de trair o seu marido. Alice na maior parte do filme e mostrada se olhando no espelho, admirando sua própria a sua beleza e sempre com um olhar distante, como se esperasse ou estivesse querendo algo a mais de sua vida. Ela sempre é elogiada pela sua aparência no início do filme. Sua filha Helena (talvez em homenagem a Helena de Tróia, a mulher mais bonita do mundo) segue seus passos.

A FESTA

A historia se passa na época do Natal, luzes e enfeites preenchem a tela, mas os enfeites são os mesmos justamente para reforçar o ponto de que já conhecemos esses elementos de outros lugares. Não por acaso, Kubrick queria que tudo fosse transportando como um sonho, onde não prestamos atenção, justamente por já conhecermos esse ambiente. 

Teremos essa primeira atenção na festa onde Alice e Bill sofrem as suas primeiras tentações para a traição. A festa dada por Victor Ziegler, um dos pacientes ricos de Bill. Não é simplesmente uma festa de rico, Victor também faz parte da elite e você pensa que algo sujo está por trás, pequenos detalhes inseridos por Kubrick sugerem uma ligação entre a festa e o ritual oculto que ocorre logo adiante no filme. A inclusão da Estrela de Ishtar nesta festa não é um acidente. Ishtar é a deusa babilônica da fertilidade, amor, guerra e principalmente da sexualidade. Seu culto envolvia orgias sagradas e atos rituais. Ishtar era considerada a “cortesã dos deuses” e tinha muitos amantes. Ela também era cruel com os homens que se apegavam a ela. Esses conceitos vão reaparecer constantemente no filme, especialmente com Alice.

E enquanto Bill e Alice socializam na festa, separados, Alice conhece Sandor Szavost que pergunta sobre a ARTE DE AMAR, de Ovídio um livro escrito na Roma Antiga como um guia de “como enganar o seu parceiro”. O primeiro conto deste guia é sobre Vênus, o planeta associado à luxúria (feminilidade, o feminino). Curiosamente, Ishtar foi considerada a personificação de Vênus em sua cultura. Enquanto isso, Bill se distraia com duas lindas mulheres que paqueravam ele durante a festa. É quando Bill pergunta, onde elas querem o levar, umas delas responde “onde o arco-íris termina.”

Sandor bebe do copo de Alice. Este truque é tirado da arte de amor de Ovídio . “Eu quero trocar fluidos com você

O Sonho de buscar o fim do arco-iris.

Em época de Natal é normal vermos enfeites e luzes, mas em De Olhos Bem Fechados é estranho que sempre são os mesmo enfeites e cores ? Não é coincidência ou falta de orçamento, vamos prestar atenção. Se o filme fala sobre sonho e realidade, ou uma realidade de sonho, e o sonhador é o Bill, qual é o desejo e frustração de Bill no filme? Frustração e a esposa insatisfeita, ao ponto de ela desejar fantasias com outros homens; e tempo todo ela parecer buscar isso no filme.

Quando Alice conta-lhe que desejou outro homem, vemos ao fundo uma iluminação de azul, com essa conversa que deixa ele perturbado com a revelação. Quando Bill começa imaginar de como seria entre Alice e o Oficial da Marinha a cena fica toda em tons azuis, então podemos supor que o imaginário de Bill é azul ? Azul seria como uma nevoa dizendo que é um sonho ou pesadelo de Bill. Nos momentos mais calmos e descontraídos, o azul é mais claro bem mais sutil como fosse luz do lua, como a primeira cena do casal onde Bill ignora a esposa respondendo-a no automático, ou na cena onde Bill se encontra com Victor e ele se sente ameaçado por saber demais. Esse mesmo azul, bem mais intenso o preenche por completo, como se sua mente o avisasse que “nada está bem”.

O Azul está praticamente em tudo que cerca o personagem Bill, seja na iluminação, na parede, nos objetos, nos carros, quase tudo tem o azul. E o arco- íris ? Na crença irlandesa, no fim de um arco-íris há sempre um pote de ouro, já para o cristianismo é uma esperança, então qual seria o pote de ouro e a esperança de Bill ? No ato sexual Bill nunca vai até a mulheres, elas que vão ate ele, elas fazem tudo que Alice não faz, que é procura-lo. Bill se sente desejável com as mulheres dando em cima dele, mas apesar disso tudo, sempre acontece alguma coisa que o impede de concluir o ato.

É são essas cenas que aparecem mais as cores do arco-íris, toda vez que Bill está prestes a começar ou concluir o seu ato sexual, as luzes coloridas aparecem. Como na cena das meninas da festa, a prostituta, no bar onde o seu amigo ensina como chegar a festa da orgia, na loja que tem o nome de Rainbow (arco-íris) onde ele compra a fantasia, como a amiga da prostituta. Como se o consciente dele dissesse onde ele devia ir na busca da sua felicidade ou da sua fantasia sexual.

O CULTO

Aqui assistimos o contraste do filme, não exite o colorido, não temos o Bill falante, só ficamos perante de um silencio tomado por um mistério sombrio, de iluminação baixa e azulada com o vermelho e o preto, isso acontece no momento mais esperado do filme, a cena em que Bill consegue entrar na festa secreta. Para que Bill entre, seu amigo Nick Nightingale ( Nightingale – Rouxinol -pássaro que sempre canta durante a madrugada, algumas horas antes do amanhecer) passa um senha que se chama “Fidelio“, que significa “fidelidade”, uns dos temas principais do filme.

Mais importante, “Fidelio” é o nome de uma ópera a por Beethoven, sobre uma esposa que se sacrifica para libertar seu marido da morte. Essa senha, na verdade, indica o que acontecerá durante esse ritual. A trilha do filme também muda drasticamente, ouvimos “Backwards Priests” reproduzida de trás para a frente. Objetos sagrados típicos de magia negra e rituais satânicos. Por apresentar um culto não cristão antes da fornicação generalizada, essa é a maneira de Kubrick afirmar (especular) que, a elite é nada menos que, satânica. O ritual começa com o Sacerdote, vestido de vermelho, realizando um cerimonial. Ele está no centro de um “círculo mágico” formado somente por mulheres jovens que provavelmente são escravas. 

Mais tarde, quando Bill é desmascarado, outro círculo mágico é formado. Kubrick usa movimentos de câmera circulares na intenção de hipnotizar o espectador, ele usa esse truque só em outra ocasião no filme, que é na festa que Bill e Alice são convidados, justo na festa em que Alice é hipnotizada pelo sedutor Sandor Szavost, o nome de Sandor pode ser uma referência ao fundador da Igreja de Satanás: Anton Szandor Lavey. Esse é o modo de Kubrick dizer que esse homem, que hipnotiza Alice pra trair o marido, faz parte da elite ocultista? Já na seita é o Bill que é hipnotizado pelo ritual, seria coincidência ele usar justamente esse truque de câmera nessa parte, claro que não Kubrick usa tudo no seu devido lugar.

Na festa secreta vemos Bill e o seu amigo pianista Nick. Bill é descoberto e como a obra de Beethoven ele tem sua vida salva por uma mulher, ate então desconhecida, que se sacrifica para salva-lo da morte. Depois da “festa secreta da Elite” Bill fica paranoico, mas com razão, ele tem sua família ameaçada, a prostituta é encontra morta por overdose, um jeito de Kubrick demostrar como são feita as mortes nesses cultos e o seu amigo Victor Ziegler que também estava na festa, faz uma serie de ameaças.

 

 

Movimento circular de hipnotizar é sendo o mesmo. Nas duas cenas.
As cores vermelha e preta com a iluminação azul também usadas justamente das cenas que estão ligadas ao ritual de orgias.

O DESPERTAR

Bill volta para casa, perturbado pelas suas experiencia da noite. E assistimos um ótima atuação de Cruise com seu olhar pensativo, encarando o vazio. Chegando na sala ele faz algo simbólico, apaga as luzes da sua arvore de natal, como se ali ele desistisse da sua aventura sexual, justamente pelas cores do Natal carregarem as cores primárias do arco-iris. Encontrando Alice deitada na cama, Bill se derrama em lagrimas e na cena seguinte assistimos Alice e Bill tendo uma conversa como se os dois tivessem acabado de acordar de um sonho ou pesadelo. Fazendo o final épico com um dialogo que resume praticamente tudo que os dois viveram e tentaram realizar, tudo o que eles mais desejavam. 

Com certeza Kubrick queria dizer muito mais. O diretor faleceu 5 dias depois de ter entregado o filme pronto para Warner, isso fez que toda uma teoria da conspiração surgisse. Ele fala da Alta Elite deixando símbolos e referencias sobre os iluminatis, maçonaria e ate sobre o experimento MK deixou um grande mistério envolvendo a sua morte. Acho que mesmo se estivesse vivo, Kubrick iria deixar a duvida e os segredos para a interpretação de cada um.

Não é sua intenção explicar, mas do próprio espectador estar de olhos fechados para os sonhos e aberto a realidade. A busca de Bill, segue o princípio de ensinar em como unir duas forças opostas em uma. Como sugerido pelas últimas linhas do filme, Bill acabou optando por ser um e ficar com sua esposa. Depois disso, o processo e o ritual sendo completos. No entanto, Kubrick de alguma forma expõe a questão na cena final, mesmo que essas duas pessoas egocêntricas e superficiais acreditem ter alcançado algum tipo de ritual, o que isso realmente muda? O espectador como um todo, ainda se mantem de os olhos bem fechados… E essas foram as últimas palavras cinematográficas de Kubrick.

Fonte:
http://mentalfloss.com/article/60365/20-eye-opening-facts-about-eyes-wide-shut.com 

O fim do Arco-Iris

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