ARTIGO: ESPECIAL TERROR COM VINCENT PRICE!

Há vários elementos que fazem um bom filme de terror hoje em dia.  Maquiagem, timing, elenco, trilha sonora, locação, história – para muitos um filme de terror sem um background bom, não é um filme de terror – Mas ainda assim é o terror uma das áreas mais difíceis de atuar e dirigir.

Mas Vincent Price era fácil. Sua ideia de terror, seu talento como ator ultrapassou limites de uma geração e influenciou desde o cinema até a música como o Mestre do Macabro.

Aqueles que veem seus filmes percebem que toda a ideia de construção gira em torno dele, não há nada de misterioso em suas técnicas, ele não usa grandes produções de maquiagem ou figurino, mas há algo em seu olhar, em sua maneira de gesticular e em principalmente sua voz que o consagrou como o nome principal no mundo do terror.

Antes dele já havia o terror, George Mélies , com o seu “O Castelo do Demônio” de 1896 mostrou o que cinema poderia ser representando com o medo. Mas foi no cinema alemão que aconteceu o expressionismo do terror mais marcante com Robert Wienne, responsável por dois clássicos que mais tarde viriam a influenciar todo o cinema de horror, graças a sua atmosfera sobrenatural e fotografia gótica, “O Gabinete do Dr.Caligari” (1919) e “Nosferatu” (1922) marcaram o cinema alemão e o terror.

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Ainda tinha muito o que se contar para o horror no cinema e muitos ainda não queriam apostar suas fortunas em um gênero que tinha poucas chances no começo. Mesmo os estúdios de Hollywood ainda tendo receio de produzir certos filmes com essas características específicas de terror, resolveram arriscar com o incrível talento de Lon Channey, O Homem Das Mil Faces, que serviu de inspiração para Vincent Price e seu olhar macabro. Lon foi a certeza que todos precisavam para assim arriscar a investir. 

Vincent Price começou a carreira como uma brincadeira entre amigos. Sua vida já estava encaminhada para que terminasse a faculdade de direito e fosse bem sucedido seguindo a profissão que sua família conservadora considerava digna de um homem, mas ainda não sabiam de seu potencial.  

Em uma festa com alguns amigos de faculdade, Vincent começou a imitar um de seus mestres e assim foi convidado para fazer uma pequena participação em uma das peças da universidade. Seu talento natural chamou tanta atenção que mais tarde peças na universidade estavam sendo produzidas diretamente só pra ele. Trocou de curso e se formou em Artes, depois seguiu e fez mestrado em Ciências Cênicas chegando a lecionar por quase dois anos, mas com o chamado do cinema ficou impossível ficar preso em uma sala de aula.  Vincent então sabia o que tinha que fazer com a sua vida e passou a viver no mundo dos holofotes, recebendo prestígio e admiração daqueles que se deparava com seu talento.  

Sua chance para o cinema chegou em 1939 com “The Private Lives of Elizabeth and Essex”, drama histórico que conta a história da Rainha Elizabeth e seu amor por Robert Devereux, Conde de Essex. O filme é poderoso e deu a Vincent Price o prazer de conhecer Bete Davis, a rainha do gelo no cinema, que simpatizou com Vincent e o colocou sobre sua asa, grande honra para um novato. Em 1940 fez uma pequena participação em um filme biográfico chamado “Brigham Young”, o filme foi um fracasso total, não fez sucesso nem no estado de onde o filme contava a história e a 20th Century-Fox errou feio, estando até hoje na lista da vergonha,  “Hollywood hall of shame” como um dos piores filmes já feitos. 

Isso quase desanimou Vincent, mas com o incentivo de sua mãe que passou a ver o potencial do filho, ele arriscou em 1943 com “The Song of Bernadette” que conta a história da Santa Bernadette, novamente com um papel considerado mediano no mundo do cinema, Vincent arrasou e o filme estrelado por Jennifer Jones foi um sucesso, ganhando muitos Oscar e globos de ouro, dando a oportunidade que Vincent precisava para aparecer no grande tapete vermelho.

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Então sua carreira para grandes papéis começou. Em 1946 com sua carreira começando a chamar atenção protagonizou seu  primeiro suspense/terror,  “O Solar de Dragonwyck” no qual interpreta um homem perdido em sua própria vaidade. Vincent está perfeito no papel de Nicholas Van Ryn e mesmo o filme apresentando certos probleminhas de consistência no roteiro, a direção Joseph L. Mankiewic está impecável e o clima preto em branco de Arthur Miller nos leva para uma atmosfera de mistério e tragédia, dignas do filme.

       

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Ainda em 1946 protagoniza o suspense que para muitos pode ser considerado um thriller, “Shock”. O filme que mais sofreu críticas tanto positivas quanto negativas em sua carreira. Na sinopse, conta a história de uma mulher psicologicamente perturbada que está internada em um sanatório pelo homem a quem ela testemunhou cometer um assassinato. Vincent Price interpreta o Dr. Richard Cross, médico e assassino. Por ser um filme produzido logo o final da Segunda Guerra Mundial e por envolver questões de tortura psicológica, o filme foi criticado severamente nessa parte, fazendo com que muitas pessoas pensassem mais a fundo sobre a questão da influencia que a psicologia poderia ter na vida das pessoas. Mas ainda assim o filme foi bem recebido e mais tarde o crítico de cinema Dennis Schwartz aplaudiu Vincent considerando ele um dos maiores atores no terror e suspense. 

images (9)Porém nem só de sucessos uma carreira é feita. Vincent também protagonizou filmes que não foram muito bem recebidos pelo publico, como “The Long Nigth” de 1947, “Os Três Mosqueteiros” de 1948 e “Champagne for Caesar” de 1950.

Não querendo arriscar ainda, em 1951 trabalhou como coadjuvante em “His Kind Of Woman” de John Farrow que apesar de certas controvérsias na hora da produção e edição se deu como um sucesso nas bilheterias e foi bem visto pela crítica.

 Mas seu sucesso no terror veio mesmo em 1953 com o eterno “House of Wax” remake do filme “Mistery of the Wax Museum” de 1933 dirigido por Michael Curtiz. Em 2005 também sofreu um remake estrelado por Chad Michael Murray( One Tree Hill). Foi um dos primeiros filmes coloridos de Vincent e também o principal filme do ano de 53, eleito em 1960 como o melhor filme de terror de todos os tempos.  Vincent Price teve sua carreira deslanchada e aplaudida de pé, abandonando seus papéis de coadjuvantes.

O filme não revelou apenas Vincent como também Carolyn Jones que mais tarde apareceria como Mortícia Addams no famoso programa de tv The Addams Family.

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Aproveitando o momento Vincent quis curtir sua carreira e ainda continuar explorando papéis grandes, mas coadjuvantes, como em “Os Dez Mandamentos” de 1956 com Charlton Heston (Ben-Hur) e “While the City Sleeps” do mesmo ano. 

 

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Mas em 1957 ele volta com tudo em “The Fly” onde vive um cientista que inventa uma maquina de teletransporte, mas não percebe que uma mosca entra na maquina com ele, quando se materializam do outro lado ele está com a cabeça e uma pata da mosca no lugar do braço direto e a mosca fica com sua cabeça. O filme teve um remake muito bem vindo em 1986 estrelado por Jeff Goldblum (Independence Day).

O filme foi indicado ao Hugo Awards como melhor dramatização daquele mesmo ano.

Em 1959 foi ano em que Vincent mais trabalhou em sua vida, ele foi o responsável pelos sucessos “O Monstro de Mil Olhos”, “Força Diabólica”, “Bat”, e mais um sucesso maravilhoso, “A Casa dos Maus Espíritos”.

O filme conta a história de cinco pessoas convidadas para passar a noite em uma casa assombrada pelo excêntrico milionário Frederick Loren e sua esposa Annabelle, a condição seria que os convidados teriam que ficar sem eletricidade e sem opção de fuga após a meia noite, quem conseguisse encarar a casa e sobreviver receberia um prêmio.  O filme se transformou em um sucesso sem precedentes, fazendo com que fosse, até hoje um dos maiores sucessos do terror clássico. O filme, infelizmente, recebeu como sofrimento um remake em 1999 e depois a continuação deste remake, como se já não bastasse um, temos ainda o retorno.

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Em 1963 realizou “The Haunted Palace” onde conta a história do fantasma de um fidalgo que possui o corpo de seu tataraneto para se vingar do vilarejo que o queimou vivo por praticar arte das trevas com as mulheres do vilarejo. O filme colorido é de um suspense maravilhoso. Vincent Price se mostra versátil de todas as maneiras. 

Geralmente quando escrevo algo para este blog não gosto de mostrar o aspecto pessoal incluindo o “eu” na maneira em que escrevo, mas em particular esse filme tem espaço no meu coração. A atuação de Vincent Price nos momentos em que ele se vê possuído é um marco, a expressão que vai além do sinistro para realmente o incomodo do medo é espetacular. The Haunted Palace é sem duvida, em minha opinião, um dos melhores filmes de Vincent Price.

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Vincent era grande admirador de Edgar Alan Poe e fez ao total de sete filmes no qual interpretou personagens diretamente ligados com as obras do grande poeta. O “House Of Usher” de 1960, “Mansão do Terror” de 1961, “Muralhas do Pavor” de 1962, O “Corvo” de 1963, “A Máscara da Morte Vermelha” de 1964, “O Túmulo Sinistro” de 1964.

O Corvo foi uma produção mágica em sua carreira. Ele teve a chance de trabalhar com Boris Karloff, o rei do terror (Frankenstein) e com Peter Lorre um respeitado e talentoso ator de suspense. Foi uma das produções mais importantes do segmento de Edgar Alan Poe e foi filmado em apenas e incríveis 15 dias. Em uma entrevista de Price tempos depois, ele revelou que foi o terror mais engraçado que já filmou isso garantido pelos seus colegas de elenco, Boris e Peter, este, responsável pelo maior número de improvisações no roteiro, fazendo com que Vincent e Boris tivessem que lidar com o desafio da atuação. Foi um dos filmes mais desafiantes na carreira do ator.

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Infelizmente muitos trabalhos do ator foram se perdendo ao longo dos anos. Ele trabalhou em 124 produções, incluindo dublagens em animações da Disney como “O Ratinho Detetive” de 1986 e uma participação especial de treze episódios de Scooby Doo. Também trabalhou em contribuições no mundo da música com Alice Cooper em seu disco “Welcome to my nigthmare” de 1975 e também com Michael Jackson na música que consagrou a vida do Rei do Pop, Thriller.

Um tempo atrás se foram descobertos alguns de seus filmes perdidos incrementando ainda mais sua filmografia cheia de qualidade. Trabalhos como “O Uivo da Bruxa” de 1970, “Grite, Grite outra vez!”, “O Abominável Dr.Phibes” 1971, “A Câmara de Horrores do Abominável Dr.Phibes” 1972, “As sete máscaras da morte” 1973 e a “Casa do Terror” de 1974, no qual aparece ao lado de Peter Cushing.

Em 1982 trabalhou ao lado de um grande fã, Tim Burton, que o convidou para dublar o curta de animação “Vincent” que narra à história de um menino que quer ser exatamente como Vincent Price, foi uma colaboração e ao mesmo uma homenagem ao grande ator do terror e o macabro.

A dupla se repetiria mais uma vez em 1990 com Edward Mãos de Tesoura, no qual faz sua ultima participação no cinema como o inventor responsável por Edward interpretado por Johnny Depp.

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Três anos depois, aos 83 anos de idade ele falece por conta de câncer no pulmão. O ator deixou um vasto conhecimento, uma incrível carreira, uma grande personalidade e um bom senso de humanidade como herança para todos aqueles que procuram saber de sua história e filmes. Vincent Price, O Mestre do Macabro, o grande ator, o grande homem. 


Sobre o Autor

Dandara Aryadne
Editora, Artista plástica, ilustradora. Criadora e web influencer do site Cinema ATM onde escrevo algumas coisinhas sobre os filmes que assisto.

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