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ARTIGO: HOMEM ARANHA 3 – Uma obra incompreendida!

Recentemente resolvi assistir novamente todos os filmes do Homem Aranha dirigidos pelo Sam Raimi e quando cheguei no último filme eu fiquei me perguntando: qual o motivo das pessoas odiarem tanto esse filme? Evidente que o filme tem problemas, mas será mesmo que ele merece toda essa fama e ser considerado um dos piores filmes de super heróis já feitos?

Tudo que a gente sabia de super-heróis no cinema era com os filmes góticos do Batman dirigido pelo Tim Burton e em 2000 tínhamos uma nova onda de filmes surgindo e que redefiniriam a forma de fazer filmes para esse gênero. O primeiro a dar esse passo foi o filme dos X-men dirigido pelo Bryan Singer e ele abriu muitas portas e fez Hollywood ver que esse gênero não estava morto e poderia sair coisas boas disso. Mas para a surpresa de todos nós tivemos a notícia que o Sam Raimi iria dirigir um filme do Aranha e também confirmaram Danny Elfman na trilha (compositor de trilhas como Batman e Edward Mãos de Tesouras, ambos filmes dirigidos por Tim Burton). A abertura do primeiro filme foi de US$ 174 milhões e vendo o sucesso comercial a Sony/Columbia já confirmou a sequência para o ano de 2004. O segundo filme foi um sucesso de crítica/público e foi indicado a três categorias ao Oscar e faturou uma estatueta. Era evidente que não iam largar o osso da franquia e resolveram confirmar sua sequência.

Tem duas coisas que as pessoas costumam a reclamar sobre o filme e vou dividir por tópicos.

1. VENOM

Sam Raimi assumiu que nunca curtiu o personagem, ele falou em uma entrevista que Venom não possui nenhum traço de humanidade e tendo em mente os filmes anteriores ele prezava muito pelo lado humano dos seus personagens e por consequência todos são bem construídos. No primeiro roteiro ele não estava incluso, foi quando o produtor Avi Arad decidiu colocar ele por conta de sua popularidade. Realmente ele é um vilão que tem um nome muito forte, mas dá pra ver nitidamente que o diretor teve que dar o jeito dele para introduzir um vilão que ele não gostava e que não se encaixava em seu roteiro que já estava pronto. Outro problema foi o ator escolhido para dar vida ao personagem, Topher Grace além de não ter uma carreira que não se destaque pela boa atuação ele era fisicamente diferente das características do personagem nos quadrinhos. Isso não é bem um problema quando você sabe como contornar esses problemas por vários modos possíveis e um deles era uma boa atuação e isso não é o forte do ator.

Sabendo da vontade de não colocar o personagem no filme dá para entender o que Raimi fez com o núcleo dele. Primeiramente ele deturpa completamente Peter Parker quando está com o uniforme preto e de um personagem com teor mais dramático com problemas familiares, sociais e financeiros ele se transforma em um cara arrogante, egocêntrico e eu diria até babaca. Inclusive Raimi faz questão de mostrar o quão galhofa a ideia do personagem Venom pode ser naquela cena da dança na rua ao som de James Brown, aquilo ali é uma cena ótima!

Além de ser galhofa a ideia de transformar o Peter em uma pessoa com atitudes condenáveis mostra o quão bem desenvolvido o personagem é. Você sente falta daquele personagem que foi demitido no filme anterior e que tentava ser uma pessoa correta e ver ele dessa maneira chega a ser cômico e um pouco inquietante. Quando tudo isso deixa de existir e quando o Aranha se livra do simbionte você sente um alívio e fica feliz daquilo ter terminado, afinal, ele não era o Aranha que nós vimos nos outros filmes. A cena que ele percebe o quão nocivo o simbionte pode ser e vai para igreja para arrancar é muito bem conduzida e guarda o significado de transição do personagem, coisa linda!

O conflito Parker/Brock é bem construído e nada daquilo ali soa forçado, até contra sua vontade o Raimi fez um trabalho competente. O conflito vai se desenrolando aos poucos até que chega no ápice quando Parker ‘destrói’ a carreira do Brock. Depois dessa cena o filme segue por um caminho sem muitas apostas e o fim do Venom é uma das coisas mais importantes desse filme. Por mais improvisado que seja (e isso sim é um ponto fraco) o desfecho do Brock e do simbionte é lindo. O simbionte é claramente um ser que desperta o que tem de pior no hospedeiro e obviamente o Brock ficou corrompido com o desejo da vingança.

Ao se entregar completamente ao simbionte, no final quando ele é derrotado e separado do simbionte, Peter joga uma bomba para desintegrar o simbionte e o Brock mesmo sabendo que seria suicídio, tenta salvar o simbionte e acaba morrendo. Perceba que poderia muito bem ser o Parker ali, mas o personagem tem sua transição mostrada lá na cena da igreja e dificilmente Raimi faria isso com o personagem. No final vemos o personagem do Brock perder sua humanidade aos poucos e Raimi provou o que ele falou: o Venom não tem traços de humanidade.

2. HOMEM AREIA E O RETCON DE TIO BEN

Retcon é a abreviação de Retroactive Continuity que em uma tradução livre fica como ‘Continuidade Retroativa’. Esse recurso consiste em algum personagem do presente alterar um evento muito importante no passado. Um exemplo é o Coringa do Jack Nicholson que o plot twist do filme é ele ter matado os pais do Bruce Wayne no filme do Batman de 1989. Sabemos que o Coringa não matou e nem existia na época que o Bruce era uma criança e esse retcon foi escolhido pelo Tim Burton para dar uma carga dramática para o confronto do filme.

No filme do Aranha descobrimos que o Flint Marko antes de ser tornar o homem areia mata sem querer o Tio Ben enquanto seu capanga que até então era o culpado da morte foge e acontece tudo aquilo que vimos no primeiro Homem Aranha. Fazer um retcon não é algo que o público costuma curtir muito, mas nesse caso eu acho que foi um retcon bem feito e que teve uma importância dentro da trama do próprio vilão e na do Peter e funcionou perfeitamente. Claro que isso não existe nos quadrinhos e os fãs podem ter desgostado, mas falar que é ruim e jogado acho bem exagerado.

Agora falando do filme como um todo, ele segue o desenvolvimento de todos os personagens e mais uma vez faz uma coisa incomum para uma sequência. Normalmente o primeiro filme de qualquer herói é introdutório, te apresenta a origem do personagem e traz um conflito para ter o ápice da trama e na sequência ele pega tudo que foi trabalhado no filme anterior e expande de uma maneira confortável e sem arriscar tanto. Já a franquia de Sam Raimi fez sempre o oposto disso se você parar para pensar.

No primeiro filme temos a apresentação do personagem e todo o conflito até ele virar um herói, no segundo filme ao invés de pegar o Parker/Aranha e expandir a trama do herói, ele faz um filme unicamente do Parker e deixa o Aranha em segundo plano. No terceiro ele pega e faz de novo a mesma ideia do segundo filme e desumaniza o personagem e trás uma porção de novas tramas e sub-tramas para este universo. Temos a apresentação da Gwen Stacy, temos o próprio Flint Marko, Eddie Brock e ainda temos os outros personagens que já estavam na franquia antes como o J. Jonah Jameson que é brilhantemente interpretado por J.K Simmons. Antes mesmo do cinema presenciar um ator que ‘seja’ o personagem com o Robert Downey Jr interpretando o Homem de Ferro, já tínhamos nosso J.Jonah e nesse filme em específico ele estava muito bem e na minha opinião é o ápice do personagem .

O Filme já começa mostrando o Aranha em um telão na rua, a câmera mostra o Peter e umas crianças assistindo, termina o comercial e as crianças saem dali dizendo: “A gente já viu isso, passa toda hora”. Essa cena mostra uma quebra de expectativa e o filme já apresenta para você que essa história vai ser diferente do habitual. O relacionamento do Peter com a Mary Jane é interessante, nada nele é romantizado e você vê como um relacionamento realmente funciona com momentos bons e momentos ruins. O homem areia é um dos vilões mais subestimados do cinema e a atuação do Thomas Haden Church é boa, nada de tão especial, mas ele entrega um bom vilão com motivações palpáveis. Ele tem uma das cenas mais emocionantes do cinema e a maioria das pessoas não percebem isso, sim estou falando da cena em que ele se transforma em homem areia e tenta pegar o cordão com a foto da filha, essa cena é de cortar o coração.

E por falar em emoção, um dos pontos altos do filme é o desenrolar da relação do Harry com Peter e o ápice dessa relação é último diálogo deles onde conseguimos enxergar que nada daquilo ali importa e que a amizade deles é mais forte que tudo isso. A cena tem uma fotografia linda em um pôr do sol, tudo orquestrado para destruir seu coração. Além de tudo isso, o CGI do filme é muito competente tanto que foi indicado ao BAFTA por melhor efeitos especiais. Se pegar a própria cena em que o Homem Areia se transforma é de impressionar e dá um banho em muito filme de hoje em dia.

Bom, já falei muito sobre esse filme e parece que um peso saiu das minhas costas. Claro que esse filme não é perfeito e está longe de ser, só acho que esse hate todo é muito cruel e ele tem muitas qualidades que são desconsideradas por conta de alguns erros que o diretor não tem culpa. O filme é exagerado e muito inchado de várias tramas e sub-tramas e quando isso acontece poucas coisas são bem desenvolvidas. Para finalizar, um dos traços marcantes do filme são as frases, tem uma melhor que a outra. Deixo a última frase do amigão da vizinhança:

“Whatever comes our way, whatever battle we have raging inside of us, we always have a choice. It is our choices that makes us who we are, and we always have a choice to do what’s right ~ Let love and forgiveness reign.”

Sobre o Autor

João Pedro Mendes
Escrevendo sobre tudo aquilo que o mundo precisa - ou não - saber.

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