A VOZ DO CINEMA NEGRO – ARTIGO:

Cinema negro passa além de entretenimento

Em meio a uma pandemia viral mundial iniciada há menos de 1 ano, nós vivemos também as consequências de uma pandemia social, de cunho racista, cujo o caráter epidêmico se alastra desde muito tempo em nossa sociedade. E como deixa claro escuro Kenya Barris no título de um dos episódios de BlackAF da Netflix: “Adivinhem? É por causa da escravidão…

cinema negro

Mas, no que diz respeito ao cinema ou a produções audiovisuais, BlackAF vem pra divertir, desmistificar e desconstruir esteriótipos sobre nós, pessoas negras! É um papo que, infelizmente, teremos que deixar para depois, porque o assunto hoje é sério e muito urgente. As mortes brutais de pessoas negras por forças estatais, seja com George Floyd nos Estado Unidos, ou com João, Ágatha e Miguel no Brasil, vem trazendo a tona debates de extrema importância, que acompanham a existência de toda e qualquer pessoa preta que habita esses territórios: Porque somos a todo tempo desumanizados?

Porque somos tratados de modo diferente pelo Estado, pela maior parte das instituições e por diversos grupos sociais? Porque minha vida não é valorizada como a de qualquer outro ser humano ou pessoa branca que nesses territórios também habita?

Fonte: IstoÉ

Diversas são as produções disponíveis pela indústria cinematográfica que tratam sobre temas raciais e sobre as consequências desse modelo discriminatório na vida de pessoas negras. A pedido do Cinema ATM, separei aqui alguns dos filmes e séries que mais me tocam e cuja necessidade de se assistir é imprescindível para quem queira ter um panorama mais vasto do que nós, pessoas negras, enfrentamos, enquanto população historicamente marginalizada e segregada:

12 Anos De Escravidão:

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Sempre muito forte e impactante de assistir. Entender as práticas de desumanização e mercantilização do corpo negro em uma sociedade escravocrata é um exercício diário e constante, para se começar a entender a origem de todas as questões relacionadas à desigualdade racial e às práticas racistas contemporâneas.

13ª Emenda:

Um documentário que admiro pela forma como é construído e o modo como aborda a questão do encarceramento em massa nos Estados Unidos.

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Mas não só isso. Além de haver a possibilidade de estabelecer diversos paralelos com a situação carcerária brasileira, somos apresentados a um vasto panorama geral sobre a construção da visão do negro, enquanto um inimigo social, desde o período escravocrata, seja por meio de dispositivos culturais ou políticos; vemos também aspectos do movimento, lutas pela igualdade e pela valorização da vida de pessoas pretas. Uma aula de história, política e sociedade com base na dinâmica racial norteamericana.

When they see us:

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O início da sequência de produções que me chocam por tratarem sobre questões ligadas à atuação policial com relação a pessoas negras, sobretudo, jovens. Um dos casos mais emblemáticos de preconceito e racismo nas ações policias; ainda mais tocante por se tratar de um caso verídico, apesar de pontos negativos apontados pela crítica.

The hate u give:

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Trata sobre diversos pontos, desde a abordagem e atuação policial perpetrada contra pessoas negras, até o despertar de nossa comunidade sobre a importância do nosso papel na luta em busca da igualdade racial. Este filme, coloca no cinema a perspectiva e a dinâmica da relação interracial entre negros e brancos em diversos aspectos.

American Son:

Ainda sobre a atuação discriminatória da polícia em relação a pessoas negras. O filme aborda pontos relevantes também das consequências do racismo estrutural nas relações de poder entre as pessoas e as autoridades. Ainda traz um clima angustiante que, muitas vezes, já foi experienciado até mesmo por muitos de nossos próprios familiares, em maior ou menor grau.

Queen And Slim:

Há quem diga que é um Bonnie and Clyde remasterizado e racializado, mas eu acho isso um insulto. Um filme sensível, necessário e, ao mesmo tempo, impactante, por trazer como ponto central as consequências da discriminação racial nas abordagens policiais contra pessoas negras.

Histórias Cruzadas:

Exemplo cinematografado de como usar do seu privilégio branco para ajudar pessoas negras e dar voz e vez às suas denúncias. (Guardadas as devidas proporções territoriais e temporais, obviamente). É um retrato também da sociedade norteamericana durante um importante período de segregação racial. Abordando também pontos importantes ligados a manutenção das relações escravocratas nas relações de trabalho.

Que horas ela volta?

Embora pouco racializado e mais regionalizado, é um ótimo filme para se entender a relação serviçal e escravocrata contemporânea a partir da lógica brasileira. Permite também que possamos enxergar, dentro do cinema brasileiro, o modelo da Casa Grande e da Senzala se que se alastra até os dias atuais e a falta de importância dada a vida e às vontades dos que servem e dos seus.

Dear White People:

É aquela série para você maratonar em um final de semana e que vai te ajudar a entender muita coisa sobre as relações inter-raciais. Sobretudo em espaços classistas, academicistas e nos quais as dinâmicas de poder dão o tom.

Bem Vindo a Marly-Gomont:

Fugindo um pouco das Américas e indo para a Europa, esse filme me toca por tratar do racismo a partir de uma perspectiva também xenófoba. Característica que marca muito o racismo europeu. Apesar dessa regionalização, é um tipo de realidade ligada à busca pelo crescimento profissional que muitas pessoas negras enfrentam ao longo da vida.

Tropa de Elite:

Mesmo este não sendo o tema central, é um filme que destaca escancaradamente a atuação das forças especiais da policia do Rio de Janeiro no combate ao tráfico de drogas e a transformação do território periférico e favelado em zona de guerra.

Apesar de apelar para um convencimento sobre essas ações policiais, deixa em aberto também a possibilidade de realizar uma condenação moral sobre essas ações e sobre a política do Estado para esses territórios, realidade que vivenciamos até os dias atuais.

Artigo realizado pelo colaborador Pedro Máximo

RAFIKI E PARIAH – ARTIGO ESPECIAL

Rafiki e Pariah – A representação de mulheres lésbicas negras dentro da cinematografia

De vez enquanto queremos assistir filmes em temática LGBT pelas quais os personagens aparecem sendo felizes e vivendo uma vida de amor. Pois enredos em que pauta o sofrimento como um tema central dentro desta categoria cinematográfica se tornou desgastante.

Mesmo fazendo esses apontamentos, entendo que esse enredo ainda é necessário dentro do nosso cenário social, pois a opressão infelizmente faz parte do processo de aceitação do ser LGBT na sociedade. Já que a mesma sociedade não o aceita devido sua orientação sexual ou de gênero.

Por isso reforço que, esse tipo de discussão mesmo que por um momento possa se tornar cansativo, de fato é uma realidade social. E que deve ser bastante debatida dentre os meios de comunicação, em que abrange em si o cinema. E é aqui que entra Rafiki e Pariah

Rafiki Pariah

Apesar de sofrermos um pouco com esses filmes, também encontramos os alívios como Rafiki e Pariah Nas quais podemos observar como o amor se manifesta na forma de compreensão e empatia. E que podemos encontrar apoio dentro de amizade ou aquela pessoa que faz você tomar decisões para estar junto com ela. Dessa forma, Rafiki e Pariah se manifestam assim, mas em contextos diferentes.

Pariah (2011) contém um enredo rico que demonstra um longo debate sobre aceitação de uma lesbianidade, pelas quais Alike (Adepero Oduye) sendo protagonista do filme quer se relacionar e ser amada. A personagem também esconde da família sua orientação sexual e lógico, nesse aspecto da família a religião tem um papel fundamental sendo demonstrado de forma minuciosa no filme, em que você entende melhor essa questão no final do longa.

Alike demonstra como é ser uma jovem que muita das vezes age na inocência (até mesmo por falta de experiência e tá vivenciando um pouco da sua orientação no presente) para lidar com a própria orientação sexual. Você já se depara com a inocência e introversão da personagem no início do filme no momento em que a jovem se encontra em uma boate lésbica e sua amiga Laura (Pernell Walker) que já tem mais experiências que ela, tenta ajudar a personagem a ficar com alguém na boate. 

Falando na figura de Laura, ela é a que mais apoia Alike, pelas quais acaba desenvolvendo um amor além da amizade que tem com a protagonista. Na obra cinematográfica, do início ao fim encontra-se como as duas tem uma relação fiel de amizade. Mesmo que em um dado momento o amor de Laura por Alike acaba levando em algumas atitudes um pouco problemáticas, pelo fato da protagonista errar com sua amiga ao desenvolver um romance por uma outra pessoa que é a personagem Bina (Aasha Davis).

Outra cena que é mostrada nos primeiros minutos do filme acaba sendo a volta de Alike para casa após a boate. A personagem sentada dentro de um ônibus começa a feminizar a sua imagem pelo fato de não ser assumida para família que é conservadora.

Ela que não performa feminilidade, acaba tendo que se obrigar a tentar ser o mais próximo de uma imagem padrão do que seria o feminino. Para que sua família não desconfie. Além disso, o filme aborda aspectos sobre sua relação familiar de uma forma bem precisa. Mostrando como é a vida daquele que se encontra dentro de uma “caixa”. Que por sinal essa caixa se abre no final da obra em uma cena extremamente marcante e repleta de dor.

Rafiki Pariah

Contudo, além desses pontos apresentados no longa metragem, também encontramos Alike escrevendo poemas. Nas quais a mesma expressa toda sua vivência na escrita, tornando assim um filme que vai de início ao fim tomando sua figuração poética com o real. Enfim, eu poderia escrever mais sobre Pariah, mas é aquilo, só assistindo para entender o tamanho e dimensão do que essa obra representa.

Rafiki nos apresenta outras questões. Pontos mais específicos do que o longa dirigido por Dee Rees. A linguagem que Wanuri Kahiu desenvolve é inspirado no conto “Jambula Tree”. Rafiki acaba sendo um pouco mais diferenciado. Logo nos seis primeiro minutos da obra somos surpreendidos com a troca de olhares entre Kena (Samantha Mugatsia) e Ziki (Sheila Munyiva).

Rafiki Pariah

Em um jogo de tons entre o laranja e o rosa na direção de arte e fotografia, encontramos o fascínio e o romantismo, crescendo em suas primeiras cenas. Além disso, a obra é impecável também nesse quesito das tonalidades vivas e estampas que representam a cultura local.

Outro aspecto importante é que o filme vai apresentando a relação que Kena tem com a mãe e o pai, que são divorciados. Kena mora sozinha com a mãe, e o pai é dono de um mercado local, além de concorrer às eleições para um cargo político, além de morar com outra mulher. Sobre o pai de Kena fazer parte da política, isso acaba baseando um pouco o percurso do filme. Pois o pai de Ziki também está concorrendo às eleições para esse mesmo cargo, e as duas famílias acabam sendo “rivais”.

Rafiki Pariah

Mesmo diante dessa rivalidade, as duas protagonistas do filme acabam se aproximando, e se aproximam de uma maneira profunda ao ponto de desafiarem o meio no qual fazem parte. Por mais que elas não assumam de forma exposta a relação, ambas fazem de tudo para viver aquilo, viver uma amizade e um romance que só cresce em cada cena. Mas é claro, o medo também é presente e ainda é mais presente para Kenia que acaba sendo mais racional do que Ziki na questão sobre não darem brecha para que as pessoas descubram o que elas vivem.

De uma maneira delicada, Rafiki debruça-se sobre esse ponto, pois para além das duas terem uma família conservadora e não assumirem sua orientação sexual, a sociedade como um todo é preconceituosa. No Quênia é crime ter relações homossexuais, então o filme acaba sendo um desafio para criticar abertamente o país. Mostrando cenas que só vendo para entender o porquê precisamos debater sobre um mundo que ainda rejeita pessoas LGBTs, em que torna-se mais complexo quando se trata de pessoas negras.

Rafiki Pariah

A partir disso, obras como Pariah e Rafiki, são importantes para nos fazer lembrar que a arte tem seu papel fundamental para criticar uma sociedade. Um sociedade que precisa refletir sobre os erros nas quais a mesma comete durante séculos, através de uma perseguição moralista, preconceituosa e conservadora sobre pessoas que vão de contra ao que é definido como cis, hétero, normativo, padrão e branco por exemplo.

É através do cinema feito por mulheres negras que produzem esses tipos de filmes que essa temática tem tido relevância. E é ai que precisamos parar para dar mais visibilidade a potência que elas apresentam.

CRÍTICA REALIZADA PELA NOSSA COLABORADORA ISABEL