SEAMS ( 1993 ) – CRÍTICA :

Seams é um curta metragem de 28 minutos dirigido por Karim Aïnouz no início de sua carreira em 1993. O curta mostra relatos das suas tias-avôs Ilca, Pinoca, Juju, Deidei e Banban no Ceará. E a relação delas com amor, casamento, gênero, trabalho e família.

Seams é uma produção documental autobiográfica. Produzido entre Fortaleza e Nova Yorque enquanto o diretor fazia pós-graduação em cinema na New York University. Ele se propõe a discutir o machismo no Brasil através da experiência da avó, que pouco aparece, e das tias-avós do diretor. 

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Mulheres que conseguiram negociar um lugar de resistência em um momento histórico duro de um país conservador e machista. Em muitos momentos é relatado por elas as ideias projetadas sobre a figura da mulher no Ceará dos anos 60. Onde uma mulher  trabalhar era considerado uma blasfêmia.

Durante as entrevista de suas tias, Karim expõe muitos aspectos pessoais delas, assim como, questões sócio-culturais da região onde nasceu. O diretor traz de forma didática em Seams aspectos em que a sexualidade contorna um debate sem fôlego. Sobre a criação em um ambiente machista, em dados momentos do curta ele traduz para o inglês (que é o idioma da narrativa) termos que são culturalmente usados no Brasil para definir de forma pejorativa direcionamentos sexuais como puta, sapatão, bicha, viado e macho.

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Macho é o termo mais ressonante em Seams. Quando até mesmo o país é descrito como “… um país muito agressivo, muito machista, muito masculino, muito duro.” Karim de forma tímida nos conta sua própria história. Sobre ser criado em um ambiente patriarcal mesmo sem a figura de um patriarca presente.

Em resumo, Seams combina uma variedade de recursos visuais e narrativos. Misturando imagens de arquivo, cartas, ensaio e entrevistas em VHS. Ele timidamente conta a história de pessoas ordinárias. Gente como a gente. De uma perspectiva suplementar narra a relação dessas pessoas com problemáticas da sociedade.

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Problemáticas que permeiam a juventude das tias-avós de Karim e ainda nos assombram, é um diário tímido de um cineasta encontrando seu lugar. Que nos reafirma o que todo mundo descobre em algum momento da vida que: life is so complicated.

COLABORADORA SAMANTA

YONLU ( 2017 ) – DICA ATM:

Yonlu é um filme nacional dirigido por Hique Montanari. Que conta a história do músico Vinícius Gageiro Marques, também conhecido pelo pseudônimo “Yonlu”. A vítima do primeiro caso de suicídio assistido pela internet do Brasil. Em março de 2019 a película ganhou o prêmio Humanidade e de melhor ator, no festival de cinema New Renaissance em Amsterdam.

Yonlu crítica cinema nacional

Vinícius Gageiro Marques, também conhecido como Yonlu, foi um jovem porto alegrense filho de uma psicanalista e um professor universitário. Devido ao trabalho da mãe ele se mudou para França com 3 anos de idade, onde foi alfabetizado em francês. Também se tornara fluente em inglês, espanhol e galês antes dos 9 anos de idade.

Vinicius também tinha uma grande aptidão musical. Começou a tocar bateria aos 4 anos e posteriormente piano e guitarra. Devido a essas mesmas destrezas seu pai dizia que ele tinha um tipo de “desvio químico”. O que o fez ter acompanhamento terapêutico desde muito cedo.

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Vinicius produziu muitas músicas sozinho, em seu quarto e as compartilhava em fóruns e blogs online. Posteriormente a sua morte, a Allegro Discos lançou sua obra e Yonlu foi considerado um gênio musical internacional. Foi online também que Vinícius encontrou espaço para expor sua depressão e deslocamento.

No filme, Hique Montanari trás uma visão contemplativa do artista que foi Yonlu. O diretor trata desse tema delicado, que é o suicídio, de forma delicada e ao mesmo tempo brutal. O longa usa de uma narrativa bem fluída, poética e extremamente contemplativa. Se apoiando nas músicas compostas por Yonlu e nos desenhos deixados por ele. Mas passa longe de romantizar o caso ou vitimizar a figura de Yonlu.

Yonlu crítica cinema nacional

Ele aparentemente busca descascar o personagem e mostrar todas as camadas do seu psicológico, até chegar na inquietação que o levou ao suicídio. Sem justificar ou romantizar o ato, mas respeitando o legado artístico de Yonlu. É esteticamente lindo, a atuação de Thalles Cabral, que quase beira um monólogo existencialista, não tem erros. E no final o longa nos deixa com nó na garganta e coração apertado.

COLABORADORA SAMANTA