Crítica: Quando as Luzes se Apagam (2016)

Inspirado em um curta-metragem (para assistir CLIQUE AQUI) homônimo que ganhou diversos festivais de cinema de terror ao redor do mundo, Quando As Luzes Se Apagam aposta em uma ideia clichê, mas com um sabor diferente e secreto, que contagia o público. 

Não sei ao certo se foi por conta do curta original ser tão bom, mas o filme, mesmo apresentando um enredo fraco, conseguiu conquistar os mais ávidos fãs de terror, e isso, por si só, é uma coisa muito boa, para uma indústria cinematográfica que anda apostando em quantidade e não qualidade. Mesmo que o publico esteja pronto para decifrar o final do filme nos primeiros cinco minutos, o jogo de câmera, luz e a atuação do elenco, conseguem cativar cada momento. 

Um dos pontos altos está na parceria entre David F. Sandberg e o trabalho de Marc Spicer, responsável pela fotografia impactante. O segredo está na nossa própria recepção para a luz, um trabalho bastante sutil, mas que conseguiu elevar a quantidade completa do longa. Enquanto Sandberg controla a câmera no alto, te tando a impressão de estar a mesma altura da própria entidade, Spicer consegue controlar os pontos de luz nas cenas marcantes do escuro, também igualando cada personagem, com o próprio espirito do mal.

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O que mais tem no gênero terror são espíritos obsessivos pelo passado, que retornam para assombrar suas vitimas. Aqui, como em Babadook (2014), Eric Heisserer e Sandberg montaram algo muito mais intimo; e trabalhar com o psicológico do personagem para o publico é uma tarefa muito complicada e não deu tão certo em Lights Out como deu certo em Babadook, eles se importaram demais com as cenas em jump scare e com todo o jogo de câmera ou luz, acabou por ficar previsível. 

Maria Bello consegue ter essa incrível capacidade de se transformar do chique ao desespero em uma distancia de dois filmes. Ela vai da comédia extrema, até o máximo da compulsão humana e isso é excelente para Sophie, que parece sempre estar a beira de seu precipício mental. Ponto altamente relevante para a história do filme. Não somos jogados dentro de uma família feliz que se muda para um lugar estranho, ao contrário, já somos apresentados para uma família problemática, aos pedaços, que precisa enfrentar esse ser demoníaco, obcecado pela mãe, que não está nada bem. 

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Claro que Sophie é a coadjuvante junto com Diana, a entidade, o foco principal do filme nem é também os filhos de Sophie, Rebecca e Martin, mas a relação deles como uma família e a força positiva que isso pode ser. Não sou lá muito fã de filmes de terror com crianças. Geralmente os diretores ou roteiristas tem uma péssima mania de colocar a criança como o centro da atenção da história ou não conseguem trabalhar o personagem de forma decente e tudo sai uma tremenda bagunça, mas como estamos falando de Sandberg, isso pode mudar um pouco. Gabriel Bateman foi a escolha certeira do diretor. É incrível o quanto o personagem não fica sobrecarregado com toda a história, não é um fardo, consegue acompanhar o ritmo de cena de um filme do gênero terror e dos atores veteranos, acrescenta lógica e ainda mantem a inocência que esperamos de um menino de sua idade.

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E como já passamos por Martin, tenho que revelar a minha surpresa com Teresa Palmer, que interpreta Rebecca. Sei que a atriz tem essa vibe whatever sempre que está trabalhando em algum filme ou personagem televisivo, foi assim como Meu Namorado É Um Zumbi (2013) e até com O Aprendiz de Feiticeiro (2010). Não que eu tenha algum problema com essa atitude de seus personagens, só seria agradável reconhecer a atriz em alguma forma diferente e com Rebecca, ela consegue quebrar isso nas cenas de desespero e acabei por ficar realmente impressionada em como o talento de Palmer ainda é um diamante bruto de frente para a Academia e por determinadas cenas de Lights Out, conseguimos ter uma ideia de seu potencial.

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Os personagens coadjuvantes não trabalham com tanta força quanto o restante do elenco, e eu aqui pensando que Bret, namorado de Rebeccca, morreria da metade para o final, outra surpresa. Quanto ao final, já que citei Babadook como uma referencia para o teor psicológico do enredo, o final de Lights Out foi uma surpresa, mesmo o filme sendo clichê, não esperava que Sophie fosse acabar com a própria vida, claro que alguém tinha que morrer, mas com certeza, o timing para o pico dessa montagem de cena foi bastante certeiro e a preparação do elenco, excelente. Agora, não sei se estou equivocada em pensar dessa forma, ou se poderia ser apenas as referências falando por mim nessa crítica, mas, esse filme pode ser mais um alerta para o recorrente problema da depressão, bipolaridade e as crises de ansiedade que estão cercando a nossa geração. Não sei se essa foi a intenção do curta original, nem se o roteiro de Heisserer veio a calhar por esse caminho, mas não consegui evitar essa sensação de compreensão quando sai da sala de cinema. Mais um ponto em mostrar que, a depressão é um medo sério e precisa ser tratado como tal.

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A luz da ambulância piscou, então é bem provável que não demorará para a Warner anunciar uma sequência, com certeza deverá ser sobre a história de Diana antes disso tudo ou sobre uma outra família que se muda para a casa, estamos falando sobre um filme produzido por James Wan, então, tudo é possível. Lights Out cumpre a promessa do trailer, com seus efeitos especiais práticos, tudo muito bem construído e montado a lá Del Toro, consegue fechar, em minha opinião, dentro do top 10 de terror de 2016. Vale cada centavo do ingresso.