JULIE DASH, FILHAS DO PÓ – ARTIGO:

Juie Dash – L.A. Rebellion e a importância do cinema negro

É perceptível que estamos acostumados com narrativas raciais dentro do cinema construídas por pessoas brancas. Dos últimos anos pra cá temos visto o “boom” na internet sobre filmes produzidos pelos próprios cineastas negros que tem ganhado bastante destaque atualmente. “Moonlight”, “Get Out”, “Blackkklansman” e “Black Panther”, são alguns desses exemplos. O que mal sabemos é que cineastas negros têm produzidos filmes contando sobre a história da comunidade negra já tem décadas e é sobre isso que irei abordar hoje.

Julie Dash é uma cineasta estadunidense, que fez parte do movimento L.A. Rebellion da década de 70. Movimento que tinha como intuito manifestar os anseios de cineastas negros formados na UCLA. Sobre suas perspectivas do que seria o cinema negro abordado pelas próprias pessoas pretas. A partir desse manifesto surgiram inúmeras obras marcantes de diretores negros que conta a trajetória da população negra.

Julie Dash, como uma das pioneiras do L.A. Rebellion, nos apreciou com um dos filmes no qual posso dizer que é umas das melhores obras de artes que já assisti nos últimos tempos. Filhas do Pó traz um debate sobre ancestralidade negra. O protagonismo de mulheres negras e a maturidade de compreender o que é manter uma tradição viva mesmo diante de uma colonização que ocorreu nos EUA.

Julie Dash Filhas do Pó

Um longa metragem de um ponto fora de curva do que é proposto dentro de produções cinematográficas. Totalmente independente, com uma narrativa construída da abordagem sobre famílias de linhagem Gullah. Em que uma parte tenta manter ainda viva sua ancestralidade em uma ilha marítima na Carolina do Sul. E a outra entra no embate sobre viver novas experiências fora da ilha. Filhas do Pó se passa em 1902, no qual se mantem três gerações de famílias construídas por mulheres e que um bebê que ainda estar para nascer, começa a narrar essa história da família que lhe foi contada, dentro do ventre de sua mãe.

O que esse drama de Julie Dash propõe, são os diálogos alimentados por Nana Peazant (Cora Lee Day), Yellow Mary (Barbara O. Jones) e Eula Peazan (Alva Rogers). Que acabam sendo as principais protagonistas dentro de Filhas do Pó. O filme já se inicia com Yellow Mary voltando para a ilha depois de passar um período longe de sua família e é julgada justamente por ter abandonado seus antepassados para seguir rumos diferentes durante um tempo.

Julie Dash Filhas do Pó

Só que Yellow Mary após um diálogo com Nana Peazant se demonstra em querer viver novamente sua ancestralidade fazendo parte daquela família. Um dos pontos importante nesse diálogo é a questão de Yellow Mary usar um amuleto de um santo católico e Nana Peazant a questiona pelo fato de estar usando algo que não condiz sua cultura.

Outro ponto importante neste filme de Julie Dash, é é os nuances que Nana Peazant traz sobre como a história dos negros é apagada através da escravidão. Ela sempre aborda como a colonização fez perder um histórico de tradições e culturas que foram mortas através desse processo. Ela que é a mais velha e se torna mãe/avó de todos daquelas ilhas, contribui para compreensão proposta dentro do filme. Em que mostra de uma forma sutil e delicada como a história de negros pode ser abordada sobre uma sabedoria em respeito aos que viveram para trilhar uma nova história pós abolição.

Julie Dash Filhas do Pó

Filhas do Pó, se torna importante, porque é uma trama que segue uma diretriz que comove o espectador.. Pelo entendimento da importância que é estar ligado com sua tradição. Infelizmente, quando se tem corpos retirados de diversos países do Continente Africano, no qual são trazidos para América de uma forma que desrespeita toda uma humanidade do sujeito, sua cultura acaba se perdendo ali. E tentar resgata-la, é todo um processo de décadas até mesmo séculos de recuperação de tanta dor que foram construídas sobre esses corpos.

O longo metragem é simples. Mas que se introduz de uma trilha sonora ligada ao uma ritualística que se encontra em religiões africanas e matriz africanas. Uma indumentária que os personagens utilizam, no qual entra o questionamento se é para mostrar já o processo de colonização. Ou se é ligada essa mística pela maioria das mulheres utilizarem vestimentas brancas. Além da natureza que expande o cenário de uma ilha com uma praia paradisíaca. E a alimentação de uma forma bem natural feita por essa família.

Julie Dash Filhas do Pó

Julie Dash, sendo uma mulher negra com o seu primeiro filme produzido e distribuído de forma comercial para os Estados Unidos, torna isso um marco dentro da indústria. E ainda por cima alimenta uma narrativa de 1991. Que atende uma demanda da população negra que pode ter uma abordagem cinematográfica de uma história que vai além de dor que estamos acostumados assistir sempre. Não que filmes sobre escravidão devam ser parados de ser produzidos. Mas isso também corrobora para que corpos negros sintam-se vulneráveis de sempre serem contados de uma forma caótica de um sentimento de dor. 

A partir disso, assistam Filhas do Pó que esta disponível no catálogo da netflix com o nome original “Daughters of the Dust” e apreciem filmes propostos por cineastas negros.

BORDER (FRONTEIRA – 2018) CRÍTICA:

Border – o louvor da obra sueca 

Em Border, Tina (Eva Melander) é uma mulher que tem certas deformidades em seu rosto. Apesar de ter uma vida tranquila, ela trabalha como policial de fronteira em um porto na Suécia. O motivo para a qual foi escolhida a este cargo, é devido a habilidade sobrenatural de farejar as emoções das pessoas. Neste mesmo trabalho ela encontra Vore (Ereo Milonoff) que aparentemente tem uma deformidade parecida com a dela.

Border é um Filme sueco, dirigido por Ali Abbasi. Um diretor sueco/iraniano que já havia feito um certo burburinho após sua direção no filme de terror Shelly. Como roteirista temos o notável John Ajvide Lindqvist. Conhecido por escrever o livro e o roteiro de Deixe Ela Entrar (2008). A grande curiosidade desta vez é que o roteiro de Border, escrito por John é baseado em um conto dele mesmo.

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Apesar desta equipe de produção ter bastante referencias e até mesmo experiencias em filmes do gênero de terror, Border não se enquadra a está categoria. O filme tem elementos de suspense, drama, romance, dark fantasy e acaba se tornando difícil categorizar este filme devido a todas as generalidades inclusas.

Dentro da trama é construído uma grande problemática que enfatiza à busca de identidade da protagonista. Close ups, que deixam em evidente a dor através do olhar da personagem que ofusca todo o cenário por trás. Embora a sua barreira de lidar com outras pessoas, junto ao seu deslocamento no ambiente urbano; essa fobia social é bem discutida nos diálogos. Deixando em evidência a profunda carência emocional. Esse foi um ponto positivo do roteiro e fundamental para toda narrativa.

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Border é um filme bizarro! O longa consegue fugir muito bem de diálogos triviais, deixando com que o espectador descubra cada fundamento nas grandes reviravoltas junto a personagem.E justamente pela trama obter muitos elementos, é difícil de comentar toda a obra sem fazer as devidas considerações sem entrar em spoliers.

Desta forma, o longa tem a genialidade de trazer um debate além do aspecto de áudio visual. O diretor consegue conduzir o panorama em criticas a sociedade bem como a questões imigratórias. Aonde cada personagem com seus valores e ideais diversificados buscam seu lugar além da fronteira que a civilização impõe sob cada um.

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Como o próprio titulo refere-se, Fronteira, em português, Border aborda não apenas os limites emocionais por trás de uma maquiagem exagerada, comenta também os espaçamentos geográficos marcados entre o humano e selvagem. O masculino e o feminino. A inquietação junto a reconciliação consigo mesmo. Essa dádiva concedida através da cinematografia. Este é efeito mais valioso do cinema.