BRANCA COMO A NEVE – CRÍTICA:

Branca como a Neve – Uma reinvenção do conto de fadas que deu errado

Ao longo dos anos muitas adaptações de contos de fadas clássicos já foram trazidos ao cinema. Seja na forma de live action ou de animações, como as clássicas da Disney. Os filmes tentam trazer à realidade as histórias que ficaram durante anos apenas no imaginário de muitas gerações. E em seu novo filme, Anne Fontaine tenta fazer uma reinvenção de A Branca de Neve, mas acaba caindo em clichês e mesmices que não empolgam e nem encantam o espectador com “Branca Como A Neve“. 

Branca Como A Neve

Branca Como A Neve, dividido em três partes, segue Claire. Uma jovem que trabalha no hotel de seu recém-falecido pai e gerido por sua madrasta Maud. Quando Maud descobre que seu amante está apaixonado por Claire, é tomada pelo ciúmes e decide se livrar da enteada de uma vez por todas. Por um acaso do destino, Claire consegue sair viva e é resgatada por um homem e levada à sua fazenda em um pequeno vilarejo francês. Lá conhece outros 6 homens que ao longo do filme agem como seus “príncipes” e com cada um deles ela cria uma história diferente.

A premissa em si não é inovadora. Contudo funcionaria se munida de um roteiro que prendesse a atenção. Porém, não há uma evolução de personagem, não há um ator que se destaque mais do que outro e que possa carregar a atuação nas costas – para além de Isabelle Huppert (Amour), que interpreta magnificamente bem o papel da rainha má.

Branca Como A Neve

Com nuances incríveis em seus gestos corporais, ela dança entre a vilania, e a mentira de mulher preocupada com a enteada com maestria. É perceptível por sua atuação os dilemas internos que está enfrentando ao tomar a decisão de se livrar de uma pessoa próxima. Uma pena que seus momentos em cena não são muitos se comparados a todos os outros atores presentes.

A personagem de Claire, interpretada por Lou de Laâge (The Innocents), não é cativadora. Pensada como uma personagem que vem de uma criação rígida e depois da experiência de quase morte ganha uma nova liberdade sexual e descobre o desejo que antes era inexistente, não tem um crescimento. Não é divertida, não é sexual, como propõe. De longe a libertação que Anne Fontaine deseja criar, na tela, não nos passa por uma mera versão de erotismo barato do conto. Aliás aproxima-se mais à teoria da Branca De Neve apresentada pela cantora brasileira Mc Mayara do que ao conto ao qual é baseado.

Branca Como A Neve

Enquanto isso, os 7 homens que são apresentados na história vivem repetindo que “não estão dando em cima” de Claire. O que torna o envolvimento dela com eles muito mais forçado. Além disso, não há química entre os atores, nem entre os personagens. O envolvimento acaba acontecendo de maneiras que não são orgânicas. E que não passam a quem assiste, uma veracidade. Cada um deles têm as características dos anões bem marcadas, mas aqui acaba quase caindo em um estereótipo de personalidades.

Apesar dos problemas, Branca Como A Neve tem seus momentos. A cena em que Maud e Claire dançam juntas, quase já no final, é linda. As duas se mexem como se o tempo e o mundo ao seu redor tivesse parado. Não há como tirar os olhos da tela ou se focar em outro ponto, que não o que está acontecendo entre as duas. Mais uma vez Isabelle Huppert trás sua maestria ao momento, tornando essa a única cena memorável do filme.

Branca Como A Neve

A cinematografia, assinada por Yves Angelo, e a sonoplastia são bem pensadas. A fazenda para onde Claire é resgatada é um lugar fechado, opressor e vazio. E o contraste entre o cinza, o verde e o azul complementam a sensação de nostalgia para a cena. O vermelho em grande destaque nas horas corretas, principalmente na personagem de Maud, criando um paralelo muito bonito de assistir. Alguns elementos de contos de fadas são encontrados também, como o reflexo dos anões de jardim na janela da livraria, os animais curiosos e que dão um tom cômico às cenas, a representação da maçã envenenada. Tudo é presente de forma mais ou menos sutil.

Escrito e dirigido por Anne Fontaine, Branca como a Neve estréia nos cinemas brasileiros dia 19 de setembro.

PRAIA DO FUTURO (2014) – CRÍTICA:

Praia do Futuro – Ou o mar de nostalgia criado por Karim Aïnouz

Um salva-vidas cearense, seu irmão e um caso de amor com um turista alemão. Na superfície esses são os protagonistas de Praia do Futuro, o filme dirigido por Karim Aïnouz e escrito por Felipe Bragança, Karim Aïnouz e Marco Dutra. Conforme assistimos, percebemos que os protagonistas na verdade são as relações humanas e os sentimentos que nutrimos.

Praia do Futuro

Admito que escrever essa crítica foi duro. Assistir também foi. E não acredito que esta tenha sido uma obra para ser fácil de ver. Há alguma coisa, tanto nas performances, quanto na narrativa e no visual, que pesam. O azul é uma cor muito presente, o tempo todo. E a escolha não é em vão. O azul é a cor que simboliza a frieza, a monotonia, a depressão. Sentimentos difíceis de carregar que ficam palpáveis na narrativa de  Praia do Futuro.

Enquanto conhecemos a vida de Donato (Wagner Moura), um salva-vidas que enfrenta sua primeira perda no mar. Conhecemos também Konrad (Clemens Schick), um alemão amigo da vítima. Os dois se envolvem em um momento particularmente difícil. As emoções apresentadas a partir dessa perda, do medo da morte, da dificuldade em continuar, são o que levam o filme adiante. 

Praia do Futuro

Donato resolve então seguir para Berlin com Konrado, em meio a tentativa de se entender. A dualidade entre seguir por aquele caminho, ou voltar à sua antiga vida. As incertezas sobre seus sentimentos, e suas escolhas. O espectador fica preso em meio à um misto de perguntas sem respostas que segue até o final do filme. Mas a vida precisa de respostas? Não há uma correta.

A passagem do tempo trás de volta Ayrton, divinamente interpretado por Jesuíta Barbosa. Irmão de Donato, vai atrás do irmão que some e se isola da família. Há muita dor no personagem. Um luto por perdas que não foram possíveis de superar. Um jovem que carrega em si a busca por entender porquê do abandono. O reencontro pesa no peito da gente. 

Praia do Futuro

De certa maneira me senti presa na narrativa de Praia do Futuro. Mas não de uma forma agradável, como um filme que não conseguimos parar de assistir. Senti um peso, um desconforto, um desagrado. É sem dúvidas um filme de emoções. Não sei se foi a intenção do diretor Karim Aïnouz, mas foi o que me passou. E talvez isso não seja ruim. Talvez esteja justamente no fato de criar um ambiente tão rico emocionalmente que esteja o melhor de A Praia do Futuro. Criar uma obra que atinja de maneira tão direta quem assiste não é a tarefa mais fácil do mundo, mas ele consegue de forma primorosa.

A edição de Isabela Monteiro de Castro é um ponto a ser exaltado. Os cortes secos, as escolhas visuais, montam e enriquecem o filme. Peca um pouco na sonoplastia, senti que era um filme muito silencioso, quieto. Talvez esse tenha sido o objetivo, mas me incomodou. Saber então que Heroes do David Bowie era a música tema, me desagradou ainda mais. A obra passa longe do clima geral da música. 

Praia do Futuro teve sua estreia no prestigiado Festival de Berlim em 2014, onde concorreu ao Urso de Ouro, perdendo para o chinês Bai Ri Yan Huo, do diretor Diau Yinan.