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A Ciambra: Crítica exclusiva do Festival do Rio!

Até onde o lugar de onde viemos pode influenciar em nossa perspectiva de vida?

Pio é um jovem garoto que cresceu em uma favela italiana, cercado por familiares e semelhantes. Ciganos. Tudo o que ele quer é crescer, se tornar um homem assim como seu irmão, alguém que ele admira e segue para todo canto. Sua família vive uma rotina agitada de uma vida criminosa, comandada por uma família italiana de criminosos. A pobreza é evidente, mas isso não impede Pio de aproveitar as primeiras fases de sua adolescência. O problema se dá, quando seu irmão mais velho e pai são presos e agora, ele como único “homem” da família se sente na obrigação de prover o sustento.

Orquestrar, roubar e mentir é algo que lhe vem fácil. A relação com seus irmãos e primos é forte, mas isso não o impede de olhar os adultos com inveja pelos “privilégios” falsos da vida adulta que ele tanto quer ter. Sua mãe é uma figura forte. Ao mesmo que ela é exigente e rígida, ela não quer que Pio cresça depressa ou seja obrigado a fazer escolhas que trarão consequências permanentes em sua vida tão jovem. Mas quando Pio se coloca na posição de seu irmão, ele recebe as glórias e então o tratamento que ele esperou tanto para ter, mas as consequências de seus atos era algo com o qual ele não estava pronto para lidar.

O roteiro de Jonas Carpignano é sutil. Ser adulto é algo do qual podemos falar com propriedade. Nossas lembranças de nossos quinze anos se tornam perdidas quando atingimos nossos vinte e poucos e descobrimos o gosto agridoce das responsabilidades na ponta de nossa língua. Quando chegamos a adolescência, tudo o que mais buscamos é a aprovação adulta, ser visto como um igual, ter sobre nós a visão de um adulto que compreenda nossas lutas interiores. Aos vinte, tudo o que queremos é voltar aos tempos doces de uma vida sem consequências. Pio é ingênuo. E o engraçado desse roteiro é que quanto mais ingênua suas atitudes são, mas fácil fica de esquecer aquela antiga compreensão que exista dentro de nós. Assistimos sua ingenuidade com desprezo. Colocamos toda a culpa em cima dele, esquecemos que as condições de onde e como ele foi criado afeta imensamente sua capacidade de julgar o certo ou errado. Essa não é a vida que ele escolheu, mas é a que ele vive e não conhece mais nada além daquela favela escura e miserável. Quando Pio percebe que seus erros acarretam consequências, ele então descobre a verdadeira face da vida adulta e é apresentado a uma escolha.

A produção de Martin Scorsese deu o pontapé para que a história de Jonas fosse às telas e sua influência está por toda parte. A cinematografia de Tim Curtin é pesada. Apesar de seus cortes serem simples, seu trabalho é colocado em tela de forma bruta, para esquecermos o roteiro e termos uma experiência mais sensorial com suas texturas e sujeira. Não estamos ligados a Pio por suas falas, mas por seu ambiente, graças a fotografia de Curtin.

É um filme simples, mas pesado. Dentro do circuito europeu alcança o gosto para muitos expectadores, mas não diria ser um blockbusters para todos os tipos de plateia. Mas vale a pena conferir dentro dos festivais e mais tarde em streaming!

Sobre o Autor

Dandara Aryadne
Pseudo escritora, artista plástica nas horas vagas. Criadora e colunista principal do site Cinema ATM.

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