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CRÍTICA – A BATALHA DOS SEXOS: A força do feminismo!

O ano é 1973. Uma das maiores tenistas dos Estados Unidos luta pelo direito a igualdade no mundos dos esportes. Billie Jean King, uma das maiores tenistas dos Estados Unidos descobre que seu trabalho não vale nada diante da figura masculina. Ela, então, resolve lutar por conta própria, formando sua própria liga para ajudar a levantar a voz das mulheres no esporte. E A Batalha dos Sexos começa! 

A premissa não é atraente. Você irá pensar duas vezes se vale a pena ir aos cinemas assistir um filme sobre uma partida de tênis entre uma mulher e um homem. No final, é apenas isso. Um jogo, um esporte. Mas acontece mágica dentre os 121 minutos de filme, uma mágica criada pelo roteiro de Simon Beaufoy junto com a direção de Jonathan Dayton/Valorie Faris que, ao longo desse tempo, quando você levanta da cadeira, se dirige a saída e encara o céu, e assim percebe que, sua ideia sobre tudo o que você conhecia, já não é a mesma. Em 2017, em uma época onde mulheres estão se erguendo dentro da industria para receberem o mesmo valor que os homens, aqui, você encontra sua motivação para lutar.

Billie Jean é uma mulher forte. Suas inseguranças, medos e vontades são trabalhadas durante todo o filme. Ela não tem medo de cair e se reerguer, ela luta do começo ao fim para provar que ela também tem o direito, além do dever, de ser a melhor e ser reconhecida por isso. Sua transparência é notada por todos que a cercam. Cativante, enérgica, simples, poderosa. Essa Billie Jean que enxergamos na tela possui todo o poder do mundo em suas mãos.Bobby Rigs é seu então temível oposto. Confiança demais, pode ser o motivo de nossa tão inesperada derrota. Bobby é chamado de palhaço durante boa parte do filme e em suma, seu personagem vive dentro de um personagem. Nós não condenamos Bobby ou o escarniamos por suas decisões absurdas e impulsivas. Ao contrário. Reconhecemos um homem fraco, viciado, saudoso de seus tempos de glória que irá fazer de tudo para chamar a atenção de volta para sua vida. Ele recorre a métodos desesperados, pois ele conhece o jogo. Ele sabe que uma vez no topo, é necessário de tudo para se manter lá. Ele não tem vergonha, mas o medo está mascarado por uma confiança perdida em um jogo que ele sabe não poder ganhar. O verdadeiro “contra”, ou “vilão” dessa história moral se encontra dentro da cabeça do telespectador. Bobby foi o gatilho e o caminho que a bala percorreu, Billie Jean acertou o alvo.

Apesar da década de 70 ser considerada um dos momentos mais libertadores da história social, o conservadorismo agia por trás dos panos, revelando a verdadeira natureza do ser humano em seu ambiente social. As mulheres ainda eram representadas como donas de casa, amantes, mães, empregadas, enquanto o homem era o foguete em ascensão. Em todos os momentos de fala, Billie Jean prega a igualdade. Feminismo nunca foi e nunca será sobre Aser melhor ou pior do que B, mas sobre A ter o mesmo direito de ir e vir, assim como B. Feminismo não é uma luta onde mulheres brigam para serem o centro do universo, desmerecendo qualquer agitação masculina, pelo contrário. Feminismo é a escola que ensina onde as mulheres podem encontrar a força para lutar em um mundo onde nossos nomes são esquecidos por conta do nosso sexo. Billie Jean luta além das quadras de Tênis. 

Quando La La Land estreou e saiu recebendo diversos prêmios, incluindo Oscar, admito que torci o nariz e virei a cara. Emma Stone nunca pareceu uma atriz em calibre de Oscar para mim. Talvez eu ainda a estivesse enxergando como a adolescente dorky de seus filmes em começo de carreira. Mas como Billie Jean eu não me assustaria se a estatueta estivesse sendo gravada em seu nome, mais uma vez. De rosto limpo, a sutileza dentro de seu olhar é hipnotizante. Seu sorriso nos arrasta com violência por cada momento dramático, em cada cena. Ela nos carrega nas costas com maestria e ainda, seu andar torto, seus óculos aviador e olhar baixo transmitem a insegurança e o medo de ser o que sua personagem representa. O treinamento de quadra da atriz foi intenso. Seu jeito de andar, sua força em quadra, os cortes, as acentuações da personagem… Tudo isso realmente conta como um excelente trabalho em campo e estudo para Emma Stone e eu a colocaria na lista para o grande prêmio, mais uma vez.

Steve Carrell, ganhou minha atenção desde a primeira cena. Diferente do que muitos estão acostumados com seus personagens no âmbito da comédia, o ator consegue internalizar uma tristeza doce ao expressar uma piada. Um grito de socorro em cada risada. Você sente o desespero de Bobby, a energia de Bobby, a fome de Bobby por conquistar, ter, poder, ser. Você sente isso pulsar dentro de você, é o que faz você rir de suas piadas ou de seus momentos absurdos. É o que faz você esquecer que seu personagem é ofensivo. É o que faz você esquecer o machismo de cada dia. Bobby é o homem dos anos 70 que vive dentro do século XXI.

A ambientação do filme está extremamente pontual. O tratamento de cor e montagem cinematográfica de Linus Sandgren e a edição impecável de Pamela Martin, nos ambienta em 1973 com uma extrema delicadeza em ação. Somos transportados para uma outra década, com a câmera realizando cortes pesados, passagens em close up’s extremos e ofensivos, uma clara referência ao trabalho televisivo da década retratada. Uma pesquisa histórica impecável, sutileza no roteiro ao tratar da sexualidade das personagens femininas, suas escolhas e determinações pessoais são enaltecidas com uma direção emocional elevada. A trilha sonora de Nicholas Britell não te deixa respirar por um só segundo. Dos primeiros quinze segundos de abertura, até o angulo final, cada pontuação, cada nota, te acompanha, você se encoraja, se excita, se apaixona, se motiva, se cansa, luta, desbrava e quebra as regras e tabus com os personagens durante cada e todo segundo desse filme, graças a esse segmento incrível desse compositor novato.

 

Os personagens coadjuvantes fazem o acompanhamento em um tom certo. Sarah Silverman é a linha forte da motivação e humor de Billie Jean como Gladys Heldman ( uma referência muito clara ao personagem de Sarah Paulson em “Down With Love”). Andrea Riserborough representa bem o ponto de mudança de Billie Jean como Marilyn, Austin Stowell se deu um excelente Larry King. Mas é só Alan Cumming entrar em cena, que a câmera se transforma, as cores se tornam mais brilhantes e o roteiro ainda mais inteligente. Sua última entrada, no final do filme, com uma mensagem sobre amor, respeito e esperança, foi o melhor diálogo final que não via há tempos. Mestre, sempre será mestre.

De uma forma geral, “Batalha dos Sexos”, entrou para o meu top 10 de 2017, com direito a carteira certa na corrida de premiações, com excelentes performances, embrulhadas com um roteiro maravilhoso. Não pense duas vezes ao entrar no cinema, escolha de cara esse filme e se deixe contagiar pela mensagem que ele carrega.

Sobre o Autor

Dandara Aryadne
Pseudo escritora, artista plástica nas horas vagas. Criadora e colunista principal do site Cinema ATM.

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