CRÍTICA: A PROFESSORA DE PIANO (2001)

O cineasta austríaco Michael Haneke faz um cinema como nenhum outro cineasta é capaz de fazer. Ele adora retratar relações que indicam flacidez, indulgência, frieza, vícios e incomunicabilidade entre as pessoas em suas interações sociais. Ele pega esses defeitos todos e constrói um mosaico em seus filmes; um recorte de uma culpa muito algo acusatória. Ele trata dessa culpa sob uma perspectiva nada sutil, falamos de filmes onde a provocação e o incômodo são as peças-chave em seu cinema. Em todos os seus filmes, embora muito diferentes entre si, ele disserta sobre uma sociedade que não é ingênua, muito menos passiva, ela é agressiva com uma ponta de consciência que se manifesta na sua capacidade de se auto mutilar sem muito esforço; de atear fogo a si mesma.

Voltando a 2001, decidi trazer à tona uma das grandes obras-primas do Michael Haneke e que está disponível no Telecine Play (leia a crítica : trata-se de A Professora de Piano. Um filme francês muito bem adaptado de um livro no mínimo extravagante escrito por uma austríaca. Feito sob uma perspectiva seca e de estilo muito fugidio, arrisco dizer, sem nenhum receio, que esta adaptação é genial.

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Aqui, a trama segue uma rigorosa professora de piano, é a grande Isabelle Huppert em uma interpretação superlativa vivendo Érika Kohut, em Viena. Ela é quarentona, mas ainda vive com a mãe que, diga-se de passagem, é uma mulher controladora e sem meias verdades: ela é a primeira a falar para a filha o quanto ela é um fracasso (Erika, na verdade, almejava ser uma grande compositora e instrumentista, assim como Schubert, Mozart e outros grandes, mas não chegou aonde queria e teve de se contentar com a carreira de professora em uma renomada escola de música vienense). A relação entre mãe e filha aqui é compulsiva: Erika recebe tratos infantilizados por parte da mãe, que controla todos os aspectos de sua vida. O filme, entretanto, chega ao seu clímax com a introdução de um jovem rapaz vindo de uma família aristocrática, estudante de engenharia, mas amante de música clássica, que se apaixona por Érika à primeira vista. Érika, no entanto, é dura e só responde às investidas do rapaz (muito mais novo que ela) depois de muitas tentativas da parte dele: primeiro, ele se matricula na escola em que ela leciona e, daí, tenta manter alguma proximidade, contato com a professora que continua a evitá-lo. Ela cede, depois de algum tempo, mas determina os limites entre os dois; ela dita as regras do romance. Ela sugere que o garoto leia uma carta e siga o que está escrito para que o relacionamento entre os dois siga adiante. O conteúdo da carta trata de regras fetichistas e sadomasoquistas das quais Érika se coloca como submissa; essas regras anunciam um jogo erótico e doentio no qual o garoto deve ou não decidir agir em condescendência para assim tomar a frente do relacionamento.
O que o Michael Haneke quer mostrar com essa adaptação é como a criação pode interferir no desenvolvimento dos hábitos, até qual ponto um relacionamento entre um pai e um filho, ou como no caso do filme, entre mãe e filha, pode configurar a psiqué humana. Erika Kohut é uma personagem submissa e destratada pela mãe, ela é uma prisioneira de sua condição. Não por acaso, ela escreve uma carta para seu amante onde procura manter esta sua condição: de tão acostumada ao maltrato, ela quer que suas futuras relações estejam abarcadas sob este mesmo prisma.

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Ela vive sob constante vigilância da mãe, que controla desde os seus horários até os seus gastos: ela fica, de fato, desprovida da vida social externa ao lar; ela desconhece sensações. Acontece que por estar à parte da vivência em sociedade, ela desenvolve estranhos desejos que satisfaz sempre quando possível: ela frequenta cabines de filme eróticos, vira voyeur em cines drive in e frequentemente mutila a própria genitália. O relacionamento entre Érika e seu aluno se pauta sobre estes seus hábitos excêntricos. O que se tem aqui é uma prisioneira em busca de uma liberdade, a liberdade tanto almejada aqui é o fim da repressão sexual; é a independência sobre o próprio corpo.
A Professora de Piano é um filme composto, no mínimo audacioso e, sobretudo, de provocação. “Érikas” existem fora da ficção e o Michael Haneke faz questão de mostrar essas pessoas que são oprimidas e que integram um lado, muita das vezes, obscuros de acordo com uma classificação social.
Esse é daqueles filmes em que você assiste e fica anestesiado sob um efeito etílico ainda mais potente que o químico propriamente dito. Não é um filme feito pra assistir e gostar, é um filme feito pra sentir a mesma angústia de sua personagem e que, assim como o livro, trazem uma problemática complexa e ignorada.

 

CRÍTICA DO NOSSO COLABORADOR: PATRICK


Sobre o Autor

Dandara Aryadne
Editora, Artista plástica, ilustradora. Criadora e web influencer do site Cinema ATM onde escrevo algumas coisinhas sobre os filmes que assisto.

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