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CRÍTICA: ASSASSINATO NO EXPRESSO DO ORIENTE – A arte de uma excelente adaptação!

Lembrar do clássico Assassinato no Expresso do Oriente de Sidney Lumet, estrelado por Robert Finney, é nossa maior obrigação perante a adaptação de uma das escritoras mais famosas do gênero suspense e policial da literatura.  Sob a direção de Kenneth Branag, Hercule Poirot ganhou uma nova visão, muito mais elétrica, séria e até mesmo beliveble. Enquanto a obra, nas mãos de Lumet se concentra na forma como o detetive apresenta o caso, a montagem do filme em si parece até preguiçosa quando comparamos com a nova adaptação. Apesar de ter um elenco de primeira, com atores e atrizes do alto escalão inglês e americano, Lumet se conecta com a história por ter representado antes um caso em referência ao nº 12, (12 Homens e Uma Sentença), a cinematografia de Geoffrey Unsworth e a trilha de Richard Bennet, apesar de excelentes e magnificas, destoam ao longa de 1974 um ar de fantasia que o separa da ideia do suspense escrito no material de origem, o roteiro de Paul Dehn passa rápido e confuso demais ao desenrolar a trama. 
Mas o trabalho de  Kenneth Branagh acaba de se tornar uma promissora adaptação que está para fechar muito bem o circuito de blocksbuster’s cult’s de 2017. 
Assassinato no Expresso do Oriente
Reunindo um elenco da nata escalada de Hollywood, o diretor, calçando ele mesmo os sapatos de Hercule Poirot fez crescer a obra de Agatha Christie com imaginação. O roteiro de Michael Green sobre a direção de Branagh, toma o seu tempo. São apenas 114 minutos, mas cada cena e personagem encontra o momento certo de tela sem parecer corrido, passado ou exagerado. O suspense se desenvolve com naturalidade e fora a teatralidade do material original, cada elemento carrega uma força que absorve o expectador em sua história aos seus porquês. 
O próprio Branagh como Poirot tem o momento de medida para o caráter do personagem. Seus maneirismos com sutileza, seu sotaque, observações, suas paixões… Um show de habilidades para mostrar o ritmo e o enredo do filme. Ele entrega a Poirot a mesma antecipação, seu ar Sherlock Holmes, mas com um controle e um sentimentalismo próprio e tipico de Poirot do qual estamos acostumados do material original, um adendo a construção do personagem, diferente da adaptação de Sidney Lumet. Ele é indelicado, mas doce, trabalha a sua ironia e ceticismo com leveza, o que nos faz gostar dele de primeira. Mas ao mesmo tempo, pela sua própria filmografia Branagh, apresenta a disciplina sobre o detetive que transparece em seu trabalho na direção. Seu olhar é gentil, mas feroz e controlado. Uma base de caracterização. Um excelente Hercule Poirot. 
Assassinato no Expresso do Oriente
O restante do elenco circula esse detetive do suspense ao acaso. Mais uma vez, tudo é feito com uma rapidez absurdamente calma. Vamos criando conexões emocionais ao redor de Poirot com tranquilidade, como um exemplo seu apego a Mary Debenham, maravilhosamente interpretada por Daisy Ridley. A arte está na forma como o roteiro e a direção nos guiam pelas brechas de Poirot, nos ensinando a observar cada minucioso detalhe.  
Seguindo pelo restante do elenco, Judi Dench é pose e compostura com a sua Princesa, Johnny Depp encaixa perfeitamente como infame Sr. Rachett, Josh Gad é uma deliciosa surpresa, realmente a sua desenvoltura em tela com um personagem tão tipicamente diferente de seus trabalhos anteriores traz um frescor a desenvoltura dessa história. Willem Dafoe, clássico, simples e objetivo. Penélope Cruz, ainda que como a sem graça religiosa, pontua seu talento. Manuel Garcia-Rulfo como Marquez e Leslie Odom Jr como Coronel Arbuthnot são a cereja deste roteiro com o subtexto exaltando o preconceito, acrescentando ao elenco motivos mais pertinentes para o suspense acontecer. Derek Jacobi na pele de Beddoes mostra, assim como Judi, que experiência em guiar uma cena é sempre bem vinda ao cinema.  
Mas a verdadeira portadora da ‘chama da atenção’ ao lado de Branagh, é Michelle Pfeiffer como Mrs. Hubbard. Interpretada antes na adaptação de Lumet por Lauren Bacall. A personagem se passava como uma mulher fútil, vaga e simples. Mas sob essa nova direção, Mrs. Hubbard, por Pfeiffer demonstra desde cedo que há muito mais do que aparenta ser. Ela é jovial e até se passa aparenta como um mulher tola, mas em um segundo olhar, é sombria e seu olhar carrega um segredo. A atriz perfeita para envolver o expectador em sua personagem, que assim como Bacall, habita a excelência em seus pequenos trejeitos. 
Assassinato no Expresso do Oriente
O plano sequência que segue o trem e seus personagens durante o embarque é mostrado como referência ao longa original, mas acrescenta a novidade, a liberdade com a câmera exprime uma tranquilidade de transição entre um corte ao outro. Deus está sempre presente no roteiro, indicando um senso de verdade e justiça, que é mostrado como referência na cena onde o elenco está reunido para a revelação de evidências do lado de fora do trem, em uma mesa, posicionados como em A Santa Missa de Leonardo Da Vinci
Assassinato no Expresso do Oriente
A cinematografia de Haris Zambarloukos afirma cores fortes e opacas que destoam com as landscapes de uma fotografia clara e brilhante, marcando bem cada ator em sua performance. Não posso deixar de mencionar a trilha de Patrick Doyle, mestre em nos levar da fantasia ao mais puro terror em pontuações sutis. A surpresa é que, assim como o longa de Lumet me levou a uma estranha sensação de “Willy Wonka And The Chocolate Factory” de 1971 como seu final estranhamente happly musical, o longa de Branagh me transmitiu um “The Polar Express” de 2005 com seu final na neve ao otimista pôr do sol e sua menção ao ‘Death On The Nile’
Assassinato no Expresso do Oriente
Claro que, para aqueles que conhecem a obra original, spoilers são livres, mas deixarei essa crítica livre para permitir ao expectador acompanhar o casamento certo da direção de Branagh com a obra de Christie e afirmar, com uma certeza veemente que, Assassinato no Expresso do Oriente de 2017 está cotado agora como uma das melhores adaptações para o cinema já realizadas. 

Sobre o Autor

Dandara Aryadne
Pseudo escritora, artista plástica nas horas vagas. Criadora e colunista principal do site Cinema ATM.

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