CRÍTICA: Cargo (2018) – #ORIGINALNETFLIX – In Martin Freeman we trust!

Em 2013 um dos finalistas do Tropfest foi o curta-metragem chamado Cargo. Dirigido por Ben Howling e Yolanda Ramke o curta mostra um apocalipse zumbi onde um pai infectado tenta arranjar um jeito da filha sobreviver em meio ao caos, caso você queira assistir clique aqui. Este não foi o primeiro curta a ser adaptado para um longa metragem, em 2016 tivemos o filme Lights Out e pessoalmente eu prefiro mais o curta do que o filme. Por conta do trauma em Lights Out eu fiquei com pé atrás com Cargo, pegar uma história curta e transformar ela em uma história longa não é algo simples e as chances de dar errado são grandes. Felizmente essa nova produção da Netflix não decepcionou tanto assim.

O roteiro não mudou muita coisa do curta e ele faz o que se espera, expande a trama, dá profundidade aos personagens já existentes e adiciona outros personagens. Aqui nós vemos o Andy (Martin Freeman) e Kay (Susie Porter) sobrevivendo a esse apocalipse zumbi, em um determinado momento, Kay vai procurar mantimentos e acaba sendo mordida. Quando alguém é contaminado automaticamente a pessoa tem 48 horas para se transformar por completo. Daí o filme se desenrola igual ao curta, Andy é mordido e só resta 48 horas para lidar com o futuro de sua filha. Daqui pra frente pode ser considerado spoiler então não falarei mais nada para não estragar sua experiência.

O roteiro é competente, mas não faz nada tão ousado nem para o gênero e muito menos para o cinema. Muitos momentos eu me peguei lembrando do filme ‘A Estrada’ de 2009 e lá tinha uma dinâmica muito boa entre pai e filho, não estou dizendo que é ruim, mas poderia ter mais momentos desse tipo. Entendo que focaram no conflito interno do personagem principal, mas poderiam dar um tempo maior de tela para a relação deles.

Eu gosto quando o roteiro não faz questão de explicar tudo para o expectador, simplesmente está lá e poucas coisas dão as pistas do que realmente aconteceu, mas nada é conclusivo. Caso perdessem tempo para dar uma explicação creio que o desenvolvimento dos personagens seria limado para dar tempo de tela a uma explicação que é desnecessária. Algumas passagens abusam da conveniência de eventos e chega ser anticlimático. Um exemplo, existe um personagem no filme que a história é contada em paralelo com a do personagem principal e é evidente que eles vão se encontrar em algum momento específico para fazer a trama andar. Isso é recorrente no cinema, mas quando isso é feito direito você não chega a perceber e aqui é bem perceptível tudo que vai acontecer.

Algumas resoluções também são estranhas e não conseguiram me me convencer de que a situação proposta fosse realmente possível, como é o caso onde dois personagens ficam confinados em uma jaula e a forma como eles conseguem escapar é muito estranha, claramente uma jaula não funciona da maneira como foi representada no filme.

Outro ponto que me incomodou bastante é a geografia do filme, tem momentos que um local parece muito longe e outros que o mesmo lugar parece perto demais, sei que isso é um artificio para a história não ficar tão arrastada, mas de qualquer forma deveriam ter feito de uma maneira mais orgânica e menos apressada.

A fotografia do filme é bem competente e eu gostei bastante do resultado, mesmo não entregando nada de novo tem umas cenas que são visualmente lindas e a paleta de cor opaca ajuda muito na composição delas. O que o filme tem de melhor são as atuações, Martin Freeman carrega esse filme nas costas e é impressionante a versatilidade dele, nunca imaginaria que ele poderia fazer um filme como esse, tendo em mente o histórico de atuações dele, felizmente ele tá ótimo e sem ele o filme não teria o mesmo resultado.

Ele consegue passar muito bem o papel de um pai angustiado por conta do futuro de sua filha e o seu conflito interno é excelente, você consegue compreender a dor dele. Quando o filme resolve mostrar a fundo a relação dele com a filha é muito emocionante, principalmente no final que é o melhor momento do filme. Susie Porter também entrega uma atuação muito boa mesmo tendo pouco tempo em tela. Simone Landers interpreta a Thoomi e faz um trabalho competente, não chega a ser do nível da Brooklynn Prince (The Florida Project) ou do Jacob Tremblay (Room, Wonder), mas as cenas em que ela aparece são boas e esse é o primeiro trabalho dela, ela tem bastante potencial fiquem de olho nesta menina.

Cargo é um filme mediano com uma porção de erros com uma proposta muito boa. Hollywood está abarrotada de filmes com essa temática e poucos são verdadeiramente bons. A decisão em focar no conflito interno é muito boa e no final se provou uma escolha eficiente. Primeiro trabalho grande do Ben Howling e da Yolanda Ramke, espero que o próximo mantenha o nível desse filme e que não caiam nos mesmos erros cometidos aqui. Este filme faz parte do catálogo de originais da Netflix e já está disponível. É facilmente uma das melhores produções dessa plataforma de streaming, vale a pena assistir.

ARTIGO ESCRITO PELO COLABORADOR JOÃO MENDES 


Sobre o Autor

Dandara Aryadne
Editora, Artista plástica, ilustradora. Criadora e web influencer do site Cinema ATM onde escrevo algumas coisinhas sobre os filmes que assisto.