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CRÍTICA: Corpo e Alma e os sentidos

O ambiente está sufocado pela neve, dois cervos, um macho e uma fêmea, estão à caça de comida na floresta. Eles vão até à beira de um riacho e seus focinhos se tocam: esse é o  prelúdio do romance de Corpo e Alma.

Corpo e Alma, filme húngaro de 2017 dirigido por Ildikó Enyedi, é um desses filmes que trazem esperança aqueles que curtem um cinema original e, antes de tudo, autoral. Não estou colocando abaixo outros filmes com premissas originais, muito pelo contrário, estou apenas reconhecendo o que Corpo e Alma tem de melhor que é o fato de contar um romance como nunca antes ninguém contou.

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Aqui a história é a seguinte: Mária é uma inspetora de qualidade que chega a um matadouro em substituição a um outro funcionário. Essa mulher, que todos mais tarde passam a odiar ou a sentir medo, é muito introspectiva, focada no trabalho e difícil de lidar. Ela é quase um robô em suas atitudes. Há várias tentativas de aproximação dos outros para com essa mulher, mas ela é uma figura tão cortante que os outros desistem antes mesmo de tentar estabelecer algum tipo de relação; ela é repulsiva. O gerente financeiro desse matadouro, Endre, vai ser o sujeito a se relacionar de alguma forma com essa mulher, não sem antes sofrer cortadas bem diretas e nada singelas. Eles evoluem então de uma espécie de curiosidade que um tem sobre o outro, eles possuem uma conexão muito atípica entre si e que envolve os cervos que destaquei mais acima (o que gera essa curiosidade), para um romance.

O cenário aqui é tão assustador quanto a personalidade de Mária: um matadouro bovino nada convidativo para se acontecer um romance. O cinema húngaro tem dessas particularidades de retratar matadouros, basta-se lembrar de Deus Branco (2014). O gado é dilacerado, o sangue corre como a vazão de uma correnteza, vísceras bovinas desabam sob o chão. Tudo isso não está em projeção com o intuito de torturar o espectador, essas cenas são sobretudo contemplativas. Corpo e Alma é filme contemplativo e sensitivo.

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Endre e Mária são protagonistas solitários e que parecem recusar relações apenas para satisfazer alguma necessidade. Esse filme cumpre seu objetivo contemplativo transmitindo essa solidão ao espectador através de um ritmo muito próprio com a pretensão de estudar os sentidos humanos. Os toques e os sons são aqui atores primários. Cada objeto tocado, cada contato sensitivo entre pessoas é colocado no centro da projeção. As músicas são apontadas como solucionadoras de males. Os dois protagonistas têm problemas relacionados a esses sentidos: uma vez que recusam as relações, abdicam também de determinados sentidos.

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Esse é um filme que recomendo sem ressalvas. É para assistir e sentir o mesmo que os protagonistas. É um filme para tornar pessoal, é um estudo humano de suas relações, é um estudo do acaso e da coincidência.

Corpo e Alma ganhou o Urso de Ouro no Festival de Berlim de 2017 e foi indicado como o representante da Hungria ao Oscar 2018 como Melhor Filme Estrangeiro.

CRÍTICA DO NOSSO COLABORADOR: PATRICK

Sobre o Autor

Dandara Aryadne
Pseudo escritora, artista plástica nas horas vagas. Criadora e colunista principal do site Cinema ATM.

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