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CRÍTICA: DESOBEDIÊNCIA – A transformação empática do amor!

Aquela incômoda sensação que transpassa o seu corpo enquanto você está sentada na mesa de jantar com a família e toda a inquietude sua vida passa diante de seus olhos. Um suporte silencioso com olhares, toques e ternura. Desobediência é um filme poderoso, que esmaga a alma e, em última instância, mostra a força empática do amor real em face da repressão e da exclusão pública que eu eu esperava dessa adaptação. Se alguma coisa precisava ser consistente, era o tom. E nas frias realidades e momentos em tela, Rachel Weisz e McAdams se transformam completamente.
Rachel McAdams entrega outra interpretação digna de premiação com Esti Kuperman, uma esposa e professora em conflito entre as expectativas da comunidade judaica ortodoxa em que vive e sua paixão reinante por uma amiga de infância, que voltou para casa para o funeral de seu pai. Sebastián Lelio, cujo mais recente trabalho foi com Uma Mulher Fantástica, apresentou a McAdams a oportunidade de mostrar novamente o talento que Hollywood não considera. 
Para ser justa, McAdams não faz todo o trabalho pesado, não podemos nos esquecer da sempre impecável Rachel Weisz e do talentosissímo, porém subestimado Alessandro Nivola, que são excelentes em suas performances e acima de tudo, conseguem transparecer de forma convincente o conflito da restrição de sistemas tradicionais de crença que estão enraizados em entendimentos arcaicos e muito estreitos de sexualidade e identidade sexual.
Após o retorno de Ronit, os desejos de Esti são floresce e as duas mulheres encontram-se envolvidas em um romance intenso. Como produtora, Weisz contribuiu consideravelmente para a edição da cena de sexo entre Ronit e Esti, que é tão erótica e empoderadora, sem nunca ser excessivamente explícita. Essa cena é fundamental para que Esti encontre a liberação da repressão que ela sofreu no dia-a-dia por tanto tempo. O orgasmo de Esti é provavelmente o primeiro que ela experimentou desde a partida de Ronit, há muitos anos, e serve como catalisador para reavaliar as escolhas que ela fez. Curiosamente, apesar do óbvio afeto e desejo que as duas mulheres compartilham, Lelio – que co-escreveu o roteiro com Rebecca Lenkiewicz – evita cair na armadilha do clichê, de lhes dar um final ao pôr do sol. A vida e o amor são muito mais complexos que isso.
Este é o terceiro longa-metragem de Lelio sobre as maneiras pelas quais as mulheres se encontram reprimidas dentro de suas comunidades e ele parece genuinamente empático com os personagens e com o que eles representam. Com Desobediência, ele reluta apresentar qualquer um como vilão, equilibrando seu retrato do judaísmo ortodoxo para mostrar que, embora os sistemas de crenças sejam rígidos, a comunidade é muito unida e oferece muitos benefícios sociais que, em certa medida, preencheram o vazio para o judaísmo ortodoxo. Lelio nunca se propõe a demonizar a Igreja ou suas crenças e o fato de que Ronit é bem recebida de volta, embora que por pouco tempo, apenas para participar do ritual do funeral de seu pai, sugere uma maior tolerância da comunidade. 
Ronit e Esti se sentem reais. Seu amor parece real. A maneira como eles agem em torno um do outro e as más decisões que tomam parecem reais. Você pode reclamar sobre o final que você quer, mas isso nunca foi feito para ser uma fantasia. É grandiosamente comovente e derradeiramente real.

Sobre o Autor

Dandara Aryadne
Editora, Artista plástica, ilustradora. Criadora e web influencer do site Cinema ATM onde escrevo algumas coisinhas sobre os filmes que assisto.

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