ARTIGO

CRÍTICA: EGON SCHIELE (2016) – A expressão romântica da beleza em tela.

Silêncio. 

Poucos sabem disso, mas fazer arte é um processo silencioso. Não importa o ritmo dos barulhos exteriores, vozes, produções musicais… Quando fazemos arte entramos nesse processo mutável onde tudo o que exite entre nosso processo criativo e a ideia formada é o grande e inevitável, nada. 
Então, desliguei o celular, retirei qualquer possibilidade de me distrair com notificações, vozes exteriores e até mesmo o som dos pássaros e dos ônibus passando pela minha janela não me distraiu, pois eu precisava me concentrar em ouvir o meu próprio silêncio para falar sobre essa obra cinematográfica de Dieter Berner, contando a história resumida da vida do pintor expressionista Egon Schiele. 
Eu sou uma artista plástica em falta com o meu próprio universo. Expressionismo Alemão não completa a minha coleção de conhecimento. É difícil o meu olhar encontrar beleza na falta de refinamento da construção artística europeia no final do século dezenove para o século vinte. Essa brutalidade que quebra os muros da revolução artística alemã fora da Academia, mesmo que bela em sua natureza, me distorce as ideias, então pouco sabia sobre esse pintor, Egon Schiele, que morreu aos vinte oito anos, deixando mais de 300 pinturas e mais 1.200 sketchs. É raro em meu papel de crítica deixar a caneta e o bloco de anotações de lado. Eu me vi presa nesse trabalho cinematográfico abundante do Carsten Thiele. Essa conexão interior artística. 
Sendo assim, em meu humilde papel como artista plástica e crítica de cinema, não irei dizer a vocês se o roteiro é bem adaptado, se o elenco é extraordinário ou se a trilha sonora se encaixa na edição. Não. Não de primeira. Mas em meu papel como artista plástica e crítica de cinema irei lhes contar sobre a doença febril e incurável causada pelo amor a nossa arte. 
Egon, para muitos no filme, se transformou nessa personificação misógina. Ele usa suas personagens femininas, não como um instrumento de ódio como a própria misoginia dita, até é possível acreditar que ele as ame por igual, como um todo, mas ele as usa como um instrumento de fazer a arte. Uma necessidade que está muito acima de qualquer controle emocional ou relações. Ao deixar Wally (Valerie Pachner), a mulher que sempre esteve ao seu lado, por todos os problemas, ele é o vilão, o egoísta, que não deu valor aos sacrifícios desta personagem importante em sua história principal como artista. 
Mas entendam. Ele a vê. Ele a ama. Ele sente sua perda e sua falta em sua cama, em sua vida. Em sua arte.
Mas… Cinebiografias sobre artistas plásticos sempre nos apresentam como seres egoístas, seres emocionalmente ineptos, distantes do senso comum de realidade. E sim, o somos. Não porque realmente buscamos ser assim, mas porque nossa arte engole qualquer possibilidade fora a ela mesma. Não amamos como qualquer outro, não sentimos, comemos ou respiramos como qualquer outro. Nossa arte é toda e qualquer fonte de prazer, alimento, diversão ou trabalho. Nossa mente vive nesse constante frenesi ligado ao barulho irreal de nosso processo criativo. Na voz de Egon “se eu não pintar, eu morro” – Ele não deixou Wally pela sua falta de dinheiro, pelo seu pouco amor ou por tédio. Ele a deixou por não poder ficar distante de uma fonte de inspiração. Isso é egoismo, sim. Mas explicar o conceito de egoísmo na arte nos torna, como críticos, seres subjetivamente arrogantes. Não é assim a ironia? 
O trabalho de Dieter Berner me cativou no primeiro segundo, seu movimento de câmera é tão puro e simples. Sua percepção dos espaços e elementos que compõem a cena envolve o expectador em ângulos abertos e centralizados, tal como uma pintura, a posição da câmara, bem na altura do rosto do expectador, nos dá essa dimensão pictural de que existe essa subjetividade silenciosa acontecendo a nossa frente. Isso, obviamente, casando com a fotografia de Carsten Thiele, que parece ter se alimentado de toda a obra plástica de Egon Schiele, acrescentando uma voz pintada em cores brutas e brilhantes. É surreal o empenho dessa filmografia. 
Mas, o que mais me levou foram dois elementos muito importantes – olha eu aqui, falando de termos técnicos -. A trilha sonora de André Dziezuk e a interpretação de nosso ator principal Noah Saavedra. Sua respiração servia de condutor a cada pontuação da trilha que te puxa, te agarra, te joga no ar e te assiste se auto destruir em prol dessa beleza. 
A beleza é o único termo existente no nosso dicionário pessoal que não existe definição. Sabemos explicar o que é dor, alegria, amor e até mesmo a morte. Mas a beleza existe de uma forma tão fundamental em nosso pensamento diário que como seres capacitados ou não, não conseguimos montar uma definição concreta para esse termo que rege toda a nossa vida. Passamos todos os nossos anos de existência procurando por aquela verdadeira faísca do que é realmente e verdadeiramente belo e como de alguma forma copiosa, representa-lo(a). Isso nos dá força para nascer, crescer, viver e até na hora da morte, nos da força para buscar a paz. 
Egon Schiele é um artista que até mesmo hoje não agrada muitos e está tudo bem. Egon Schiele, em sua cinebiografia é uma peça que merece ser apreciada, porque mesmo que você não goste no final, mesmo que o filme não fale com você, está tudo bem também, mas saiba, que ainda assim, acontecerá uma mudança, uma pequena faísca dentro do seu pensamento, que no final do dia, fará toda a diferença e isso alimenta a nossa busca pela beleza e faz desse filme uma obra de arte. 

Sobre o Autor

Dandara Aryadne
Editora, Artista plástica, ilustradora. Criadora e web influencer do site Cinema ATM onde escrevo algumas coisinhas sobre os filmes que assisto.

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