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CRÍTICA: MADAME (2017) – A comédia também pode ser doce.

Cinderela é um conto tão atemporal quanto qualquer outro conto de fadas que usamos como exemplos para explicar os absurdos da vida. Não há nada de errado em imaginar esses contos em nossas vidas reais, ou esperar por um final feliz, mesmo que no final seja a mocinha, sozinha, caminhando contra uma brisa suave encontrando a si mesma. E Madame, tem tudo isso. 
Não dá pra se cansar desse tipo de história. Mesmo que sejam as vezes terrivelmente clichês existe algo reconfortante em assistir alguém descobrindo amor próprio e potencial. É esperançoso, digamos assim. 
A trama é simples. Os Frederick estão dando um jantar para continuar fingindo que a família tem dinheiro, status social e felicidade. Sr.Fredericks quer vender um quadro de origem duvidosa e Anne quer continuar sendo a mais bela de todas. Mas Anne não esperava que o filho do primeiro casamento de seu marido aparecesse, fazendo com que ficasse 13 convidados, seu numero do azar. Ela então convence Maria, a governanta da casa, a assumir como uma convidada desconhecida e toda a trama é feita. Maria é um sucesso ao jantar com seu jeito inocente e extrovertido, acaba ofuscando a atenção de Anne, fazendo com que uma rixa entre Madame e empregada comecem. 
Maria trabalha na casa dos Fredericks desde muito tempo, desde antes mesmo que o Sr. Fredericks assumisse sua amante Anne como sua legítima esposa. Ela conhece essa família, seus segredos e seus pecados. Mas isso não transforma seu caráter. Ela é boa, doce, ingênua e verdadeira.  Quando ela conhece David – interpretado por Michael Smiley – ela se apaixona de verdade, ele é seu príncipe encantado nessa história e é impossível não sorrir pela qualidade encantadora de Maria cada vez que ela está com David. Rossy de Palma, a grande musa de Almodóvar é engraçada, com um excelente timing para cada cena, cada expressão. Ela realmente nos entrega sua verdadeira Maria com tudo o que temos de direito, incluindo uma força interior que nos emocionou, mas surpreendeu no ato final. Coragem, a verdadeira chave do amor próprio. 
Anne, a Madame, é o completo oposto de Maria. Mas de alguma forma você consegue entender as motivações da personagem. Ela vive naquele mundo, Maria não. Mesmo que o jogo dela seja sujo, é a forma que ela conhece de sobreviver e se manter no topo. Ela no final quer apenas atenção, valorização pelas coisas que ela precisou abrir mão para ter o que tem agora, mas isso a transforma em uma pessoa mesquinha, ruim, falsa e traidora. É engraçado quando Anne diz a Maria que ela é feia, sendo que quando começou na industria Toni Collette era considerada um rosto átipo de Hollywood  e as duas atrizes carregam traços até mesmo parecidos. 
O filme dirigido e roteirizado pela diretora “novata” Amanda Sthers é americano pelo ritmo, francês pelo encantamento e espanhol pela sua iluminação e enquadramento. A diretora conseguiu reunir o melhor dos três cinemas em um único filme com uma história simples e divertida que carrega de forma sexy uma certa ousadia em ser tão maravilhosamente simples. Cada elemento nos apresenta esse conto de fadas. A brincadeira com os sapatos coloridos de Maria, a ventania que marca o “feitiço” onde ela mesma se transforma… Tudo isso é um acréscimo para o quão certo é o ponto que esse filme atinge. 
De qualquer termos Madame pode não ter atingido um patamar tão grande com os críticos modernos, mas garanto que é um filme encantador, cheio de promessas de uma tarde ensolarada de sábado. Uma boa companhia. 

Sobre o Autor

Dandara Aryadne
Pseudo escritora, artista plástica nas horas vagas. Criadora e colunista principal do site Cinema ATM.

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