O ÓDIO QUE VOCÊ SEMEIA (2018) – CRÍTICA

“O ódio que você semeia” é talvez, o filme mais importante do ano!

Eu precisei de um tempo depois de ver O Ódio Que Você Semeia para assentar em mim todas as ideias e sentimentos que tive. Cheguei em casa, resolvi as coisas da vida, trabalhei, vivi um dia meio louco no meio dessa loucura que é mudar de estado. Agora, horas depois, sentei em frente ao computador, coloquei a soundtrack do filme para tocar e comecei a escrever. Assim. Porque o principal desse filme é a experiência de sentidos. De emoção. De empatia. De se colocar no lugar do outro. Eu precisei de um tempo porque não foi uma experiência fácil. Muito pelo contrário, foi difícil. Mas necessária.

O Ódio Que Você Semeia cinema crítica

O Ódio Que Você Semeia segue a história de Estrella, uma adolescente que nasceu e cresceu em Garden Height, bairro de maioria negra. Quando um incidente com sua amiga de 10 anos acontece, Estrella e seus irmãos passam a frequentar a escola Williamson, de maioria branca. A sua vida é dividia entre a Estrella versão 1 e versão 2. É claro que na escola ela não pode agir como age em casa, e no seu bairro. “Gírias tornam eles legais. Gírias me tornam delinquente”, como  a personagem mesmo diz em uma das cenas do filme. 

Em um final de semana ela vai a uma festa em seu bairro, onde encontra um amigo de infância, Khalil, a quem não vê há tempos. Eles conversam, e após uma confusão, Khalil oferece à Estrella uma carona para casa. É ai que as coisas começam a dar errado. O carro é parado pela polícia, e Khalil acaba morto depois do policial confundir sua escova de cabelo com uma arma. Khalil, como várias pessoas negras ao redor do mundo, acaba morrendo vítima de violência policial.

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Então Estrella se vê em uma posição complicada. Ela pode se expor, falar o que realmente aconteceu com a morte de seu amigo, ou ficar calada e protegida. A partir dai a narrativa fica densa, em todo momento você é posto a pensar em como a personagem está sentindo, e passa a se questionar sobre toda a sociedade e sobre como o racismo está presente em todas as pequenas coisas do dia a dia. Pode ser no seu tio negro, que é obrigado a pensar como seus companheiros brancos, ou sua melhor amiga, de quem você nunca desconfiaria.

O longa é baseado na obra homônima de Angie Thomas, que escreveu o livro após a morte de Oscar Grant, morto por policiais horas depois do ano novo de 2009, enquanto estava desarmado. Grant foi forçado a se deitar no chão da plataforma de trem onde se encontrava, e levou um tiro nas costas. O livro é um grito, a busca pela voz de uma população que não estava sendo escutada. Não está sendo escutada. Mesmo com o movimento do Black Lives Matter (Jovem Negro Vivo aqui no Brasil), a voz desse povo continua toda vez sendo silenciada.

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“O ódio que você passa para as criancinhas fode com todo mundo”, disse TUPAC. E essa frase é repetida várias e várias vezes ao longo do filme. É forte, e poderosa. É a verdade. A vida é dura com pessoas da periferia. É muito fácil falar do lugar do privilegiado que nunca teve que se preocupar com a comida no final do dia que você precisa trabalhar para conseguir o que quer. Mas todos tem a mesma oportunidade? Todos tem o mesmo acesso à educação, à cultura? Qual a imagem do negro que você tem? Você segura forte a sua bolsa quando um homem negro passa ao seu lado? Ri do cabelo afro da sua amiga?

Em tempos tão difíceis, O Ódio Que Você Semeia aborda de forma forte um tema que precisa ser discutido, colocado em pauta. No Brasil a taxa de homicídio de pessoas negras cresceu 23% nos últimos 10 anos. As políticas públicas não funcionam mais, e ao invés de repensar, nossos governantes querem armar a população.

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Eu não sou uma pessoa negra, não vivi na favela, apesar de ter tido amigos ao longo dos meus anos de estudo em escolas públicas do Rio de Janeiro que eram. Vi amigos relatarem casos e mais casos de racismo, de como faziam coleções de capsulas de balas que encontravam no chão. Ouvi por eles o quão difícil é a vida do outro lado, uma vez inclusive ouvindo um tiroteio no meio de uma ligação a um deles. As vezes tudo que você precisa fazer é ouvir. Ouvir de verdade. Sair do seu pedestal e escutar o que eles passam. Ver o que passam. E usar a voz que você tem para ajudar a voz deles a ser escutada. Esse filme é importante por isso. Ele é uma plataforma na qual você vai passar duas horas da sua vida ouvindo. E se isso não te fizer refletir de fato sobre o que acontece ao seu redor, seria melhor você reconsiderar seus valores.

Amandla Stenberg está magnífica no filme. Sua atuação é poderosa, tocante, envolvente. Você conseguia ver como ela estava envolvida na personagem, como aquilo era importante para ela. Amandla é uma das novas atrizes da geração, e que tem tido destaque por esse e outros filmes como Jogos Vorazes e Tudo e Todas as Coisas. Recentemente foi capa da Times, e só tem a crescer nos próximos anos! O filme foi dirigido por George Tilmann Jr (Uma Longa Jornada) e adaptado por Audrey Wells (Sob o Sol da Toscana).

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Eu poderia não fazer um texto político sobre o filme, mas ai não estaria falando de fato sobre ele. Não tem como ser de outra forma. O mundo, e em específico o Brasil, precisa parar, repensar, e dar ao mundo amor, liberdade, justiça. Não podemos mais ficar calados contra as pequenas violências do dia a dia, muito menos quanto às mortes que acontecem injustamente TODOS OS DIAS. Que lutemos todos os dias pelo direito à vida, pela segurança dos que voltam da escola, ou do trabalho com um guarda-chuva na mão. Assistam a O Ódio Que Você Semeia.


Sobre o Autor

Juliana Catalão
Estudou cinema no ensino médio, onde foi técnica comunicação social. É a maior fã de Harry Potter e de cantores que ninguém conhece. Recentemente fã de filmes de super herói, mãe do Midoryia de BNHA, editora de livros nas horas vagas.

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