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CRÍTICA: On The Beach At Night Alone (2017)

A magia no cinema é conjurada, por aqueles que nela foram iniciados, das mais variadas formas. Jacques Rivette possuía um talento inigualável como feiticeiro, extraindo sua mágica das fontes mais primárias, fossem os elementos da natureza ou a própria palavra, sendo capaz de invocar uma essência muito primitiva das coisas, seja a do mito narrado ou das entranhas do ocultismo. Geralmente de ambos. A magia no cinema é conjurada, por seus iniciados, das mais variadas formas. Jacques Rivette possuía um talento inigualável como feiticeiro, extraindo sua mágica das fontes mais primárias, fossem os elementos da natureza ou a própria palavra, sendo capaz de invocar uma essência muito primitiva das coisas, seja a do mito narrado ou das entranhas do ocultismo. Geralmente de ambos.

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Através da mágica na obra de David Lynch vamos descobrir um estilo menos conservador, bebendo de outras fontes. Praticamente encarnando o espírito do Juan Rulfo, o processo ritualístico de Lynch se assemelha com a abertura de muitas portas em pontos imprecisos no espaço/tempo. Toda vez que um trauma acontece, uma imagem é criada. Essa imagem, que surge através de sentimentos perenes que se opõem ao fluxo indomável do tempo, constrói seu próprio universo metafísico ao se conectar com outros traumas. As coisas continuam acontecendo, e a única coisa que vai para além desse looping imagético é a própria impossibilidade de romper o ciclo de traumas.

Falando sobre Hong Sang-soo, temos um caso ainda menos conservador, pois se trata de um mágico que trai aquela que talvez seja a regra mais importante no seu ofício: nunca revelar os próprios segredos. Se tem uma coisa que o sul-coreano tornou um hábito em sua obra, uma das mais prolíficas da história do cinema, que em pouco mais de 20 anos já produziu 22 longas-metragens, é o hábito de perseguir a própria obra, num eterno maneirismo de si mesmo, trabalhando sempre em cima do mesmo template, modificando apenas os transeuntes e as locações. Ah, é importante frisar que este ciclo ourobórico também diz respeito ao próprio Sang-soo enquanto pessoa: seus personagens sempre tem conexões com produções artísticas, isto quando não se tratam de diretores de cinema propriamente.

Mas qual o mote principal de sua obra, a tal da magia, você me pergunta? A muito grosso modo, Sang-soo tenta encontrar o cosmos que existe no meio de cada esbarrão com o acaso. Refilmando, cortando de novo, rebobinando uma cena inteira com duas ou três pequenas alterações, dando um novo significado pros 45 minutos inicias de um filme ao transformá-los na verdade em uma filme dentro de outro, usando e abusando da sua capacidade enquanto organizador e moldador da realidade, extraindo tudo que o tempo do cinema possa propiciá-lo, o único tempo com que pode contar, o único tempo real. Pra ser um ilusionista, é necessária uma relação quase sacral com a própria capacidade de criação, afinal de contas, O Mago é o primeiro arcano do Tarot, assim como o portador das energias primitivas: um universo sem metafísica ou onirismos, mas de colisão entre várias energias muito verdadeiras. É assim que é na obra de Hong Sang-soo: o real e o imaginário se dissolveram, e entre encontros e desencontros, a magia nasceu. O dia nasce de novo e voltamos pro momento que queremos, o tempo que guarda dentro de si as coisas que são de verdade e imortaliza o gesto: o que não foi dito, o que teve de melhor e o que poderia ter sido diferente.

Se sua fonte mágica comum é essa instabilidade presente nos encontros, pode-se dizer que em On The Beach At Night Alone, seu mais recente trabalho, Sang-soo utilizou a própria mágica como ponte de conexão com o mundo real, tanto para si quanto para sua cúmplice, Kim Min-hee, a atriz com quem vem trabalhando desde Right Now, Wrong Then (2015), e que eventualmente se tornou seu par romântico, num affair que resultou no divórcio do diretor com sua antiga esposa, assunto que esteve nos holofotes da mídia coreana. É um trabalho profundamente impiedoso, rasgado de ponta a ponta pela própria franqueza e austeridade, o que ganha uma dimensão ainda mais destrutiva e reafirmadora por se tratar da própria vida. Sang-soo filma a própria Kim Min-hee numa personagem que faz clara alusão à situação vivida por ambos, uma atriz que teve um affair com um importante diretor coreano, cuja relação aparentemente se encontra apoiada em incertezas.

A atriz viaja pela Alemanha junto com uma amiga na primeira parte do filme, passeando pelas locações, fazendo preces diante de uma ponte (se sang-soo é o senhor da própria realidade, os recursos alegóricos surgem aqui como se ali sempre estivessem), ouvindo peças infantis compostas por um doente de câncer, jantando com amigos de amigos e fugindo do acaso indesejado até que se deixe levar com ele. Em sua segunda parte (é possível considerá-lo como um filme de duas partes, embora não se trate da mesma estrutura com a qual nos acostumamos nos filmes de Sang-soo. diferente dos anteriores, não existe um “reboot” do ato anterior, embora esteja em contante devir), acompanhamos o retorno da protagonista até a Coréia, e aqui nos aproximamos mais do que normalmente esperamos dum filme de Sang-soo, operando nos seus trilhos mais convencionais, com suas prosas regadas a alcool, carregadas de sentimentos espontâneos e gestos marcantes, nos quais Kim Min-hee, uma atriz que carrega naturalmente uma graciosidade profundamente marcante (que olhos!) entrega uma das (é possível chamar tal relação tão profundamente pessoal de atuação?) performances mais agressivas que já testemunhei. Algumas de suas falas são tão profundamente dolorosas que parecem só ter sido possíveis por terem vindo de alguém que carrega tamanha dor (ou talvez seja só a minha busca pela ordem no meio do caos. maus hábitos):

“Eu posso morrer a qualquer momento. Eu só quero desaparecer graciosamente.

– Não é melhor viver?

Você não consegue amar, então você se apega a vida, certo? Como não pode amar de verdade, ao menos se apega à isto. Estou errada?” 

Se essas palavras soam excessivamente austeras, não são mais do que um complemento adequado para a atmosfera do filme. Se em seus filmes predecessores, cada reboot narrativo era bem recebido, carregado de bom humor e folclore urbano, cada devir aqui testemunhado é sempre recebido com profundo pesar. Cada passo parece caminhar somente em direção à eternidade desoladora, distante de toda a tolice humana. Cada nuance dramática se mostra ainda mais desoladora que a anterior: se deixe levar pelo acaso, retorne ao âmago da dor, confronte-a, se decepcione ao descobrir que não existe chance de reconciliação, caminhe em direção à praia e ao infinito novamente.

Seja por suas composições profundamente desoladoras, onde não é possível distinguir Kim Min-hee de um fantasma engolido pela paisagem, engolida pelas cores frias que a perseguem por toda parte, ou por suas explosões emotivas profundamente sinceras, ou por sabermos o quanto se desnudar publicamente ao assumir a própria canalhice e o próprio egocentrismo (existe ato mais arrogante do que transformar a própria falha em obra de arte e se reconectar com o mundo por tornar seus sentimentos, desta forma, verdadeiros?) significam para pessoas que existem nesse mundo, On The Beach At Night Alone se trata de uma obra que faz jus ao próprio nome em todos seus níveis. Sua perfeição estará subordinada a grandiosidade da tua dor, ou ao tamanho da tua ferida. Rezas diante da ponte pois precisa reconectar-se com o mundo novamente. Vives porque não consegues amar, vives por que tens medo de morrer. A mais poética das artes extraída dos sentimentos mais extremos.

Se Sang-soo sempre foi fascinado por Cezanne, não existe outra obra que consiga expressar tal admiração com mais intensidade, pois acima de tudo, o que se sobrepõe acima de todas as coisas, de todos os desequilíbrios, de todos os por menores desses conflitos humanos (tão reais!), é essa beleza melancólica, inexorável e presente em todas as coisas. A magia que cria a ponte entre o mundo real e o das artes, e reconcilia todas as coisas, até o maior dos patifes, capaz de criar a solidão das mulheres ao seu redor, com a eternidade.

“On the beach at night alone, 
As the old mother sways her to and fro singing her husky song, 
As I watch the bright stars shining, I think a thought of the clef of the universes and of the future. 

A vast similitude interlocks all,
 All spheres, grown, ungrown, small, large, suns, moons, planets, 
All distances of place however wide, 
All distances of time, all inanimate forms,
 All souls, all living bodies though they be ever so different, or in different worlds, 
All gaseous, watery, vegetable, mineral processes, the fishes, the brutes,
 All nations, colors, barbarisms, civilizations, languages, 
All identities that have existed or may exist on this globe, or any globe, 
All lives and deaths, all of the past, present, future, 
This vast similitude spans them, and always has spann’d, 
And shall forever span them and compactly hold and enclose them.”

On The Beach At Night Alone, por Walt Whitman.

 

Crítica pelo nosso colaborador: GUSTAVO

Sobre o Autor

Dandara Aryadne
Pseudo escritora, artista plástica nas horas vagas. Criadora e colunista principal do site Cinema ATM.

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