cinema

CRÍTICA: PARA TER ONDE IR – Roteiro raso, fotografia profunda

São muito poucas as vezes em que eu assisto algo sem ter conhecimento de absolutamente nada de sua sinopse ou equipe de produção. Eu fui praticamente pego de surpresa quando tive a oportunidade de ver o filme Para Ter Onde Ir, com atuação e direção da paraense, Jorane Castro, pois a mesma possuía uma filmografia praticamente em branco até então, com exceção de um curta de 25 minutos chamado “Ribeirinhos do Asfalto“, que fiquei sabendo da existência logo após pesquisar a respeito da diretora. Em geral, minha experiência com o filme me fez gostar bastante de certos métodos da diretora e ao mesmo tempo odiar a estrutura pela qual foi montado o roteiro de sua obra.
 
Para Ter Onde Ir narra a história de três mulheres com personalidades e visões distintas sobre o amor, que partem em uma viagem não esclarecida para o telespectador, onde buscam resolver problemas pessoais ligados ao passado de cada uma, partindo de um ambiente urbano até um cenário quase que totalmente livre de elementos da cidade. Eva (Lorena Lobato) pode ser vista como a protagonista do filme, uma vez que possui uma pressa bem maior do que as outras duas enquanto conduz o carro, dando uma visão de liderança, seriedade e maturidade. Melina (Ane Oliveira) possui maior sexualidade e aparenta ter tido uma vida amorosa menos problemática que suas duas companheiras. Por último, Keithylennye (Keila Gentil), que sofre pelos problemas familiares de ter se distanciado do pai de sua filha e lamenta o abandono de sua carreira de cantora e dançarina de música tecnobrega.
 
O filme possui um visual deslumbrante, com uma fotografia que valoriza minuciosamente o cenário natural que é colocado em exposição para nós durante boa parte do filme, contrastando intensamente com o  ambiente eletrônico e moderno que se vê ligado à história e personalidade de Melina e Keithylennye. Além da grande contemplação que o filme tem pela enorme paisagem livre do ambiente urbano, Jorane Castro faz questão de efetuar cortes com grande extensão de tempo, mantendo o telespectador a visualizar a mesma cena em um intervalo de tempo que faz com que ele se adapte a cena, trazendo uma experiência incomum para a tela do cinema.
 
Ao mesmo tempo que temos uma fotografia de tirar o fôlego durante todo o tempo de filme, infelizmente existe uma carência muito grande na construção do roteiro e das personagens.  Essa escassez no desenvolvimento das personagens se dá pelo fato de que o público fica privado durante uma grande parte do filme de elementos que possam o ajudar a se identificar com as personagens, pois nada é explicado a princípio, fazendo com que o roteiro e a gênese das personagens fique obstruído até um tempo angustiante de filme, o que torna a ausência de informações e a grande qualidade visual, os únicos estímulos que a platéia tem de continuar analisando o filme. Pode parecer que é uma inconsistência simples, mas em uma história que se estabelece predominantemente na ação de misturar ferramentas audiovisuais com a carga emocional vivida por determinada pessoa, a falta de atenção para o desenvolvimento das protagonistas e a atuação por vezes sem sal das mesmas, são ocorrências sérias que afetam o impacto resultado no final do filme, deixando a impressão que foi uma volta imensa de emoções que no final não levaram a nada.
 
Resumindo um pouco minha opinião quanto ao filme, o fato de eu ter dado tanta atenção para sua produção me faz pensar que ele possuía grande potencial para maravilhar o público com uma história interessante e dramática, mas existe um buraco enorme na qualidade  do produto geral, ligado diretamente a como o filme se movimenta usando quase que somente os diálogos como engrenagem, não deixando claro para onde o telespectador está sendo levado durante a jornada e não recompensando o mesmo ao ter acompanhado.

Sobre o Autor

Bruno Lucena
Fã de Pink Floyd e pizza. Leitor ávido e nas horas vagas gosto de conversar sobre os filmes que assisto.

Deixe seu comentário