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CRÍTICA: PROJETO FLÓRIDA (2018)

Sean Baker + Willem Dafoe + Brooklynn Prince: pronto, essa é a combinação que resulta no melhor filme americano do ano. Projeto Flórida é o novo trabalho do diretor Sean Baker e que, se você não o conhece, dirigiu o superlativo Tangerine de 2015, todo rodado em iPhone 5s e que recomendo sem nenhuma ressalva. Aqui, ele reitera seu trato com atores de pouca experiência – a exceção aqui é o Dafoe -, muitos deles na sua primeira experiência de atuação profissional, mas que entregam um trabalho lindo. Não só isso, ele volta a explorar temas que são constantes em sua filmografia e que vêm sendo intensamente explorados por outros filmes importantes (Três Anúncios e Eu, Tonya). Ele faz desse filme, assim como em Tangerine, um trabalho próximo do etnográfico sobre grupos marginalizados da sociedade norte-americana, ele fala dos “white trash”, que significa literalmente “lixo branco”, que faz referência a todos aqueles americanos brancos que enfrentam problemas relacionados à pobreza, baixa instrução, subemprego e violência doméstica e de outros grupos já comumente representados nas telonas: negros e imigrantes. Ou seja, temos aqui um retrato do americano pobre; dos cidadãos estadunidenses que vivem à margem do “American Way of Life”.

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Em Projeto Flórida, acompanhamos uma garotinha, a Moonee, brilhantemente interpretada pela Brooklynn Prince, e seu grupo de amigos (todos crianças) enquanto moradores de hotéis que estão localizados nos arredores de Orlando. Ao mesmo tempo em que acompanhamos esse grupo de crianças (eu diria que o termo mais adequado para descrever esse grupo é “gangue de pestinhas”) que literalmente colocam essas habitações abaixo com suas brincadeiras (ora infantis, ora nem tanto), que evoluem de simples momentos de implicância com os demais moradores ao ateamento de fogo a locais abandonados, acompanhamos outras relações que são, se não mais, fundamentais na vida destas crianças, como das relações entre pais e filhos, fechando o foco para a Moonie: entre ela e sua mãe Halley (interpretada por uma atriz novata que impressiona, Bria Vinaite) e entre o gerente de um dos hotéis, interpretado primorosamente pelo Willem Dafoe, e estas crianças.

Projeto Flórida é um filme retratado dentro de uma corrente que se poderia falar naturalista-realista. Os atores atuam com total liberdade e num nível de realidade impressionante, deixando uma impressão de espontaneidade onde se faz difícil de precisar se estamos de fato assistindo a um filme ou a um relato documental da vida real.

Sean Baker trilha um caminho semelhante ao de Tangerine ao retratar realidades de grupos marginalizados que, para sobreviverem, enfrentam uma espécie de batalha campal dia a dia. Enquanto em Tangerine Baker trata de prostitutas e travestis (e uma união destas duas espécies) e dos imigrantes, em Projeto Flórida ele explora os brancos, negros e imigrantes incapazes de manter sustento, que para terem onde morar habitam hotéis. Estes são os projetos dos quais o título do filme faz referência: são hotéis com formato de conjuntos habitacionais onde os pobres se dispõe a pagar semanalmente uma certa quantia (abaixo da média, geralmente) para alugar um quarto e estabelecer moradia.

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Baker pontua em Tangerine e Projeto Flórida, uma dualidade em comum que pode ser entendida através da fama e da infâmia: enquanto em Tangerine fala-se de um contraponto cuja visão dos grupos à mercê despertam na famosa Los Angeles, em Projeto Flórida, os hotéis habitados pelos pobres, situados em Orlando, ferem a fama da Disney e sua reputação. Enquanto em um ponto de Orlando temos um mundo vendido como mágico (claramente consumista), a poucos quilômetros dali, temos projetos com hotéis desprezados pelos turistas, mas disputados pelos pobres, de nomes que remetem à lembrança do parque ao lado: Magic Castle e Futureland.

Projeto Flórida é um filme brilhante enquanto arte e super relevante enquanto dispositivo de transmissão de mensagens sociais. Apesar de tratar de vidas diariamente marteladas pelas dificuldades, o filme é eficaz em transmitir algum sinal de esperança e as crianças são partes fundamentais deste entendimento, especialmente aquela interpretada pelo fenômeno Brooklynn Prince. O filme, misteriosamente, foi indicado a apenas uma categoria no Oscar 2018 que reconheceu o trabalho de um grande ator em uma grande interpretação, o Willem Dafoe como Melhor Ator Coadjuvante.

CRÍTICA DO NOSSO COLABORADOR: PATRICK

Sobre o Autor

Dandara Aryadne
Pseudo escritora, artista plástica nas horas vagas. Criadora e colunista principal do site Cinema ATM.

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