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CRÍTICA: SEM AMOR (LOVELESS – 2017)

O Retorno (2002), O Desterro (2007), Elena (2011) e Leviatã (2014): todos esses filmes, embora muito diferentes entre si, são dramas de retratos familiares dirigidos por Andrey Zvyagintsev (um grande diretor russo contemporâneo) que adora vincular às suas tramas a realidade política e social russa como forma de manifesto. Sem Amor, seu trabalho mais recente, segue essa mesma fórmula, foge de técnicas reiteradas e surge como o grande trabalho da carreira de Zvyagintsev, e isso não é pouco, todos os filmes de Zvyagintsev variam de bons a geniais.

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Em Sem Amor, temos Zhenya (Maryana Spivak) e Boris (Aleksey Rozin), um casal em pleno processo de separação, e Alyosha (Matvey Novikov), o filho do casal. O casal ainda vive sob o mesmo teto, um apartamento que cada um deles não vê a hora de se desfazer. Enquanto eles não consolidam a venda deste apartamento, eles tentam ali estabelecer alguma espécie de convívio, como se isso fosse possível: o casal se odeia. O resultado é a criação de um ambiente tão instável e beligerante que afeta diretamente o meio termo entre eles: o seu filho. Zvyagintsev ilustra esse ambiente pesado em comparação ao ambiente externo, onde o som natural e a ausência de trilha sonora nos trazem a impressão de que o conforto e a calmaria não se fazem presente nesse apartamento onde predominam as discussões e o ódio. Após uma das inúmeras discussões entre Zhenya e Boris, Alyosha foge e o que impressiona é o fato de que eles só se dão conta do desaparecimento do filho após mais de 24 horas.

Sem Amor não é um título que surgiu do acaso, Zvyagintsev cria um clima tão ácido entre Zhenya e Boris, e entre eles e o filho que nos perguntamos como pessoas que se supunha haver algum afeto, amor, há um tempo, foram capazes de modificar os sentimentos de forma tão rápida. A migração de um amor para um sem amor de fato.

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Sem Amor não é apenas um relato da disfuncionalidade familiar, é, antes de tudo, um manifesto sobre a frieza que permeia uma sociedade russa que vive de aparências. A um certo momento, Boris se questiona sobre como um divórcio iminente viria a interferir na sua carreira profissional, uma vez que Boris possui um chefe ortodoxo e tradicional (a aparência do bem casado e do pai de família predomina aqui). Isso indica uma crítica de Zvyagintsev a essa aparência que os russos moldam sobre suas vidas em face de momentos de crises que ultrapassam o ambiente pessoal; fala-se aqui da sociedade russa e do que ela vem enfrentando desde a derrocada soviética (ou antes disso). O mais importante de Sem Amor, contudo, é o seu teor crítico sobre a burocracia russa (que não é pouca). Ainda em Leviatã, Zvyagintsev expôs problemas que abarcam desde a burocracia política até a corrupção policial, aqui não é diferente.

Sem Amor é visualmente maravilhoso (tem muito do cinema contemplativo de Tarkovski) e tem muito a oferecer como reflexão: dispõe de uma excelente mensagem sobre como as coisas saem do controle quando você é sem amor com aqueles que deveria amar. Não é um filme exatamente fácil: tem um final super amargo. A intenção aqui é a de provocar e sentir o que Alyosha sente em uma família que vive em desafeto e desamor.

Sem Amor está indicado ao Oscar 2018 na categoria de Melhor Filme Estrangeiro como candidato russo, e eu não ficaria nem um pouco impressionado (nem triste) caso o filme seja o vencedor.

Crítica realizada pelo nosso colaborador: Patrick

Sobre o Autor

Dandara Aryadne
Pseudo escritora, artista plástica nas horas vagas. Criadora e colunista principal do site Cinema ATM.

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