cinema

CRÍTICA: SONG TO SONG (2017) – Sobre a poética que existe no paraíso infernal de Terrence Malick

Voltar ao mito é uma prática recorrente nas artes. É através do mito que todos os sacrilégios são perdoados, ao reconciliar o momento passageiro com a eternidade. A validação dos dilemas carnais, do presente, do desejo, do desespero. É através da mitologia que a rebeldia de Prometeu e Lúcifer são sempre revisitadas. Foi Milton quem disse: “É melhor governar no inferno do que servir nos céus”, assim como Stephen Dedalus também proferiu as seguintes palavras no leito de morte de sua mãe: “Non serviam.” Todas são comumente associadas ao anjo caído, no entanto. 

Foi o Renascimento que ministrou o casamento entre as práticas de seu período com a sacralidade da cultura greco-romana. Seja através de Caymmi e suas canções sobre orixás que estabeleceram o imaginário soterapolitano como um receptáculo da cultura africana, batizando-a nos nossos litorais, ou do imaginário urbano que James Joyce criou através de seus irlandeses-gregos, o retorno ao mito que não se deixa afundar em maneirismos estéreis tem a capacidade de imortalizar qualquer cosmologia.

 

 

O que Terrence Malick vem mostrando em suas obras mais recentes, desde que voltou do retiro espiritual de mais de uma década, é que ele anda impregnado por este espírito de garoto de interior que anseia por levar suas raízes até a capital. Seus trabalhos iniciais, Badlands (1973) e Days of Heaven (1978) demonstram seu fascínio pelo mito norte americano, entretanto, um mito de outrora. Se tratando ambos de filmes de época, ambas as obras apostam no poder autônomo das imagens, esvaziando o julgamento moral sobre as ações de seus personagens e apostando todas as fichas na contemplação da gênese do mito por excelência. O que seria um serial killer sob uma perspectiva de senso comum acaba por incorporar todo o vigor de um herói do “amerian way of life”, com toda sua glória eternizada pelo infinito da paisagem e da própria narração em off da personagem de Sissy Spacek, que evoca a pureza primitiva das coisas, a descoberta de um mundo através de olhos virgens. Um crônica sobre morte e destruição disfarçada de parábola bíblica. As duas obras se tratam de viagens temporais, no entanto. São o fascínio pelo mito e sua potência primitiva que o interessavam, não o uso do mesmo enquanto iconografia na elaboração de uma cosmologia atual.

 

 

Desde Tree of Life (2011), isso mudou muito. Seus filmes adquiriram não só uma estética composicional completamente diferente, (a sacralidade aqui evocada é completamente diferente do que víamos nas paisagens campestres de seus primeiros filmes: através de composições que são quase igrejas bizantinas, com luzes divinas que se precipitam através de redomas circulares (elipses que evidenciam ainda mais essa noção), todo o aspecto sagrado tem uma conformação muito mais cristã, a glória que vem dos céus, não a que está bem debaixo de seus narizes.) como também possuem objetivos distintos: ao invés de investigar o mito durante sua própria formação, transporta seus arquétipos para conciliá-los à uma mitologia americana extremamente atual. Lares burgueses em meio a vegetações densas, Adão, Eva, Dionísio, Mãe Natureza, Lúcifer, nomeie a entidade que preferir, a imersão em simbolismos é vasta. Se essa mudança de approach não bastasse como uma completa subversão em seus interesses, ainda existe um imediatismo muito maior nessas obras. Abandonando quase que completamente o caráter contemplativo, existe um drama que depende de conexões emocionais mais diretas entre as partes para que o conjunto opere com eficácia. Dessa forma, interessado em tratar dos ícones americanos do século XXI ao retratá-los sobrepostos às mitologias ocidentais, Malick tá praticamente perseguindo o fantasma do Joyce em alguma casa modernista caríssima dessas que anda filmando. Tarefa complicada.

 

 

Tão complicada que não estou certo em dizer exatamente o quanto ele tem sido eficaz ao realizá-la. Em seu filme mais recente, Song to Song (2017), Malick talvez tenha chegado em seu filme mais fragmentado numa tentativa de realizar um processo que deve funcionar com muita naturalidade. Escolhendo seus atores no que eu imagino que tenha sido praticamente um concurso de beleza (Rooney Mara tá um negócio sério nesse filme), o filme narra a história de um triângulo amoroso composto por gente branca e rica cheia de sofrência, núcleo esse ocasionalmente flanqueado por uma moça “camponesa” raptada pelo próprio deus do vinho até seu reino. Com o filme inteiramente montado através de pequenos fragmentos dessas relações, existe um mix muito grande de vários elementos no decorrer desse processo: transições entre mitos a medida com que os sentimentos vão se moldando, seja o sentimento de culpa por estar entregue a uma carnalidade insípida, ou o regojizo de um amor puro que não existe apenas – essa, aliás talvez seja a palavra chave nessa Torre de Babel: nada existe apenas. Como é dito pela própria personagem da Rooney Mara no começo do filme, qualquer experiência é melhor do que nenhuma.

 

 

Toda essa descrição parece fascinante, mas não é atoa que tem muita gente por aí categorizando essa joça como “Instagram stories por Terrence Mallick”: o produto final consiste essencialmente num amontoado de gente burguesa se pegando e chorando miséria, com momentos mais genuínos de química entre a personagem da Rooney Mara e o de Ryan Gosling. Fassbender se tornou o diabo e parece ter gostado do resultado, e Natalie Portman… Não sei se já deu pra sacar, mas o filme parece um ensaio fotográfico da revista Vogue. Se os elementos justapostos (luz de igreja descendo pela clarabóia da casa modernista, haxixe, narração em off, mitos vivos e fragmentação narrativa a base de muita cocaína) geram uma riqueza de debate, simplesmente parecem ter sido estrangulados numa racionalização formalista praticamente desumana. É uma redenção dessa iconografia americanizada ou uma ode ao hedonismo podre de rico?

Talvez eu não esteja preparado pra encarar esse filme da forma certa. Talvez ele precise “me atravessar”, tanto quanto um clipe novo da Britney, uma vez que seja abandonado qualquer posicionamento pessoal. Ou talvez esteja faltando mais verdade nessas imagens, um pouquinho de preciosismo e umas pausas pra respirar. Se o lance é fazer o escarceu no inferno com ocasionais aparições angelicais em profundo lamento, talvez falte um pouco de Verhoeven nessa farofa. Injetar um pouco de sangue e energia animal nessa joça aí e amar o mundo como ele é. Abraçar as próprias potencialidades também evoca Deus. Também dá pra chegar no paraíso pelo inferno, basta virar cobra e sussurrar meia dúzias de obscenidades nos ouvidos da humanidade.

Sobre o Autor

Gustavo
Estudante de Arquitetura. Grande apreciador de cinema, literatura e artes em geral, tendo interesse por crítica cinematográfica em específico, escrevendo textos em páginas e blogs pessoais desde então.

Deixe seu comentário

One thought on “CRÍTICA: SONG TO SONG (2017) – Sobre a poética que existe no paraíso infernal de Terrence Malick


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *