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CRÍTICA: THE BIG LEBOWSKI (1998)

Ele amarra o cadarço, estica as meias e aquece as mãos. Usa vários anéis diferentes e a unha do mindinho se destaca das outras. Ele pega a bola e a lambe no topo, lentamente. A câmera evidencia todos seus movimentos com a graciosidade de um ritual. Afinal de contas, é um ritual, a importante preparação para um jogo de boliche. Ele se veste com grande extravagância. Ele parece ser um pervertido. Lentamente o nome escrito no seu uniforme é revelado: Jesus. A trilha é uma versão espanhola de Hotel Califórnia.

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Esse é o tipo de coisa que você vai achar aqui. Significados e significantes não parecem se encaixar direito. Personagens de caráter moralmente duvidoso vivem sob bandeiras com significados esquecidos pelo tempo, e eles acreditam nas próprias ações. Um ex combatente do Vietnã, aficionado por boliche, acredita fidedignamente em sua duvidosa origem judáica, e segue seus princípios religiosos até as últimas consequências. Até as últimas. Essa, aliás, é a principal constante entre os personagens: princípios. Eles os possuem em excesso. E apenas parecem loucos por isso.

Mas não todos. Entre eles, existe o Dude, ou Jeffrey Lebowski, que coincide de ser o protagonista da porra toda. Um hedonista por natureza que quer apenas recuperar seu tapete roubado e preparar um White Russian onde quer que esteja, Dude apenas aceita as propensões completamente insanas das pessoas por seus valores. Ele lida com o fato de ter sido apenas usado como um portador de sêmen por uma mulher. Ele lida com sua triste condição de derrotado perante a sociedade. Não importa. Ele é um guerreiro do boliche, um líder de equipe. Um grande apreciador da vida.

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Outras pessoas se sentiriam ultrajadas com tantas atitudes negativas contra suas integridades, mas não o Dude. Ele, assim como os irmãos Coen, enxerga a piada por trás da coisa toda. Conhecidos pelo sarcasmo incisivo por trás de situações que evidenciam as consequências do comportamento destrutivo do ser humano – com os outros ou consigo mesmo, em função da neurose coletiva em torno de suas próprias imagens e dos grandes significados da vida, em The Big Lebowski eles consolidam sua obra-prima, na qual, em vez de rirem apenas no subtexto, a piada ganha vida. Esse é um dos filmes mais divertidos de todos os tempos, com algumas das situações mais sarcasticamente ultrajantes já filmadas. Tudo é muito vívido, independente do contexto. Uma alucinação sobre um roubo de tapete se torna uma das sequências mais reconfortantes já feitas, sobre um homem sendo engolido pelo próprio mundo ao som de Bob Dylan.

E por que é tão reconfortante? Por que num mundo de pessoas tão absortas com seus valores de tempos esquecidos, enxergá-lo pelos olhos de um homem que só quer aproveitar sua estadia é um imenso prazer. Mais do que isso, encontrar um filme que não está preocupado com morais obsoletas ou segundas intenções, mas apenas em filmar uma maravilhosa e infinitamente inventiva experiência sensorial é uma afirmação do cinema enquanto arte, aquela religião da lucidez que resiste à morais, culturas e ao tempo. Assim como o Dude, esse é um filme adequado para o seu tempo.

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Sobre o Autor

Gustavo
Estudante de Arquitetura. Grande apreciador de cinema, literatura e artes em geral, tendo interesse por crítica cinematográfica em específico, escrevendo textos em páginas e blogs pessoais desde então.

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