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CRÍTICA: A VISITA – 2015

Os fãs mais devotos do senhor M. Night Shyamalan defendem piamente que o diretor nunca se perdeu de seu caminho como cineasta e de qualidade autoral em cima que seus grandes filmes demonstraram ter. Mas é inegável dizer que seus últimos projetos estavam um tanto (muito) aquém de seus primeiros grandes e marcantes filmes que os nomes nem precisam ser mencionados para já reconhecerem. E pra muitos, um artista perdido para sempre, decide realmente voltar aqui às raízes primárias do cinema recorrendo ao baixo orçamento tirado de seu próprio bolso e realizar tudo como um filme found footage. E o que parecia ser apenas uma desventura do diretor “fracassado” num gênero já desgastado e inflado de filmes falsos e bobos apenas para angariar dinheiro fácil do público alvo do gênero de terror, acaba se tornando na verdade uma VERDADEIRA amostra do antigo excelente diretor que realizou “O Sexto Sentido” em 1999, e está aqui mais vivo do que nunca! 

E Shyamalan talvez está mais autoral aqui do que esteve em anos (ainda mais depois de dois sofríveis blockbusters que também não precisam ser mencionados…). O baixo orçamento talvez lhe permita ter uma liberdade que o diretor a tempos parecia não ter em cima de seus roteiros, e brinca aqui livre leve e solto com tudo em que lhe é permitido. Não que o found footage seja isento de bons filmes, mas o desgaste que já se tomou incontáveis e cansativos fracos e bobos filmes de terror que parecia que nada de bom ou original e inteligente poderia voltar a sair dali. E é exatamente o que Shyamalan consegue fazer com louvor! 

 

Uma digna subversão original, ímpia e horas brilhante do gênero, que sim remexe em alguns clichês básicos como os falsos jump scares e o uso oras recorrente da shaky cam e pouca luz para provocar o “falso medo”. Mas o diretor parece ser tão ciente disso e os usa para exatamente manipular as antecipações do público e a possível previsibilidade de alguns desenlaces e resultado final, que são totalmente desmitificados quando chegamos na reviravolta final, tal e qual já fez com louvor no passado. Onde até ali o diretor parecia que nos convidar a entrar numa versão mais realista do conto João e Maria na casa dos velhinhos misteriosos com segredos sombrios, onde pareciam estar prestes a por um pé no místico e sobrenatural a qualquer altura, e acabamos por ser atirados dentro de uma doentia, assombrosa, violenta e perturbadora realidade. 

Mas mesmo dentro das supostas limitações cinematográficas do gênero, o diretor ainda consegue demonstrar um inteligente uso e manejo na edição e uso dinâmico nas trocas de câmeras sem nunca perder a coesão e realmente emular mesmo o significado do found footage e fazer parecer que estamos mesmo vendo um filme amador feito por crianças visitando os avós (no melhor sentido de qualidade possível), com Shyamalan ainda não deixando de polir seu filme e fazendo um bom proveito de uma ótima fotografia de Maryse Alberti. E mesmo com um grande acerto no suspense e no terror que o filme evoca para sim em seus horripilantes momentos, Shyamalan encontra espaço para um inesperado senso de humor. Não que o diretor já não o tenha demonstrado ter em ótima forma em seus filmes passados, mas talvez nunca com a leveza, cinismo e até uso satírico e metalinguístico do mesmo aqui. Conseguindo criar o perfeito casal entre o terror e o humor aqui com louvor! 

E isso graças ao seu ÓTIMO elenco com os componentes necessários para tal mistura funcionar tão bem! Com Olivia De Longe como a jovem protagonista que quase serve como uma possível alter-ego de Shyamalan graças à sua paixão e fixação por técnicas experimentais de filmagem e até com seus profundos sentimentos de ressentimento familiares, ao lado do HILÁRIO Ed Oxenbould como o irritante irmão mais novo que vai ser o personagem ame ou odeie, mas que se garante com grande carisma e presença em cena. E ambos Deanna Dunagan e Peter McRobbie se revelam como as presenças misteriosas e sombrias da história com louvor! Até uma curta Kathryn Hahn se mostra verdadeiramente ótima e ainda demonstra ser o grande elo e coração dramático do filme que  se alia exatamente com os ressentimentos profundos que a personagem Becca de Olivia de Longe carrega em si que abre o forte e deveras tocante e emocionante subtexto sobre rejeição e amor familiar que Shyamalan lida e entrega com grande maturidade e um genuíno apego emocional no meio de todo o terror e o humor construído no filme, sem nenhum quebrar ou afetar o outro. 

 

Talvez pelo preconceito (justificável) com o gênero e a contínua implicância com o diretor fez com que muitos ainda virassem os narizes e até desmerecessem o sim ótimo trabalho que Shyamalan realiza aqui. Claro que está longe de ser uma obra-prima como seus triunfos passados, mas estamos perante o mesmo diretor daqueles filmes tão amados e reverenciados aqui firme e forte realizando o seu bom cinema da forma exímia que sabe fazer tão bem, e foi apenas um aperitivo delicioso do que ele ainda é capaz de fazer!

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