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Crítica: What Happened, Miss Simone?

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Certos filmes nos lembram o porque gostamos de cinema, o porquê que esta forma de arte desperta o nosso interior, por que querendo ou não, temos uma enxurrada de informações e acabamos nos sentido adormecidos e deixando que as coisas passem, que a arte e sua forma de expressão se torne branda, colorida dentro dos seus tons de branco e preto, mas uma vez ou outra, uma vez a cada mil voltas nesse circulo cromático de mil formas, uma cor se destaca, uma voz grita mais alto e uma cena, para. Então, como explicar o que é sentir Nina Simone?

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Uma mulher corajosa, intensa.
A singularidade de não se sentir participante de nenhum dos dois lados, nem do lado branco e muito menos do lado negro – se é que podemos colocar em si como lados. O destaque de alguém que carregava uma escuridão e uma profundidade que se tornaram sua própria. A cantora de Jazz que chora.

Como explicar Nina Simone? Você pode descrever coisas, falar sobre, mas mesmo assim, como explicar bem no fundo aquilo que só você sente quando escuta Nina Simone?

– É arrepiante assistir e sentir a trajetória militante de uma mulher que encontrou sentido na vida, na sua arte e na sua performance, fazendo, incorporando, uma luta que ela poderia ignorar. Ela possuia tudo aquilo que qualquer um desejaria, dinheiro, fama, seu nome como uma só voz pelo mundo inteiro, mas ainda assim, ela sentia que faltava algo dentro dela, que aquela, ainda, não era sua verdadeira voz. E por isso quebrou as correntes – se for uma analogia certa de se fazer – e partiu sua voz em outra direção. É arrepiante.

 

“Como ser artista e não refletir sobre o que está acontecendo?”
Não era mais uma mulher, uma artista que se contentava em cantar blues, jazz, “white people song”, mas uma artista que encontrou o sentido que faltava, a veia que deixou de pulsar no seu amago, lutando a favor dos direitos de seu povo e com fervor!

E isso é de hoje também! É uma luta que ainda não acabou! Adormeceu, ficou quieta no fundo do oceano por muito tempo, mas hoje, hoje tem voz, hoje o povo negro, o povo branco, o povo gay, o povo diferente, que antigamente seria aquele povo “que não é daqui” está voltando a procurar a voz, a gritar uma música que há muito não era cantada! Isso é a força que ela tanto queria empregar, a curiosidade que ela tanto queria fazer florescer! A luta continua, ela nunca vai parar!

 

Mas como separar a artista da mulher? Como julgar o caráter de uma mulher – se é que temos essa margem de julgamento, mas acredito que um documentário nos permita uma brecha – o caráter de uma mulher, que no começo conquistou o que tinha que conquistar, não do jeito que queria, não da visão que queria, mas que de alguma forma deu vazão para sua voz e então perdeu o caminho por isso, perdeu a própria voz, se tornou um produto a ser comercializado e então, por uma luta, por um massacre injusto, o estopim. E sua voz em Selma, encontrou o sentido e ela revolucionou, volta a brilhar! Aquela frágil mulher, de pensamento preso em um relacionamento abusivo, em um trabalho abusivo, se levanta e se torna a voz de uma luta.

Mas ainda assim, como separar a revolucionária da mulher? Como deixar de enxergar Nina Simone e ver a brilhante Eunice Waymon, a criança negra, a mulher negra, a criança frágil vivendo, em mundo em que não pertencia e a mulher negra, com todos os problemas que uma mulher vive, amor, família, instinto, não importa se é branca, negra, amarela ou azul, mulher é mulher, como separar isso, essa essência da artista?

Dá pra fazer? Queremos fazer? Queremos enxergar uma fonte de força, de palavras que mudaram, não só o mundo da música lá pro auge dos anos 60, anos que eram os anos da luta, mas também mudaram o rumo da politica, do que era ser negro em um mundo exclusivamente branco?  Como separar?

Chegou ao momento em que o “eu” pessoal dela se tornou conflituoso, intenso demais pra segurar e foi vista como uma mulher extremamente perturbada, separada da sua realidade, até mesmo distúrbios de personalidade, mas é uma ideia de como a imagem da mulher negra – e principalmente artista! – é passada para e pela mídia em confronto com a realidade.

Muito se esquece, se inventa, e muito se ignora, o que nos dá a pequena margem de interpretação – fora que isso afeta o quê da forma que a artista, o artista, negro, branco, mulher, homem, reage e como se reage, perante os ataques da mera interpretação que a nossa luta pessoal reflete. Mas isso também a levou ao extremismo do seu próprio pensamento, se assim posso dizer.

Depois de toda a luta, só ela ficou, só ela restou em pé por um próposito e tudo foi se deixando para lá, estourando em sua mente até ela ter que ir embora. E ela foi. Deixando tudo para trás. Se sentindo em paz, viva novamente, descansada, mas sozinha, em conflito com suas próprias emoções e perdida…

A dualidade da artista e da mulher, que pra sempre em conflito, não consegue parar, porquê quando para, os dois perdem o completo propósito. Então a carreira que tanto foi lutada pra conquistar, a vida que tanto queria para si mesma, se perdeu, em desgraça, em declínio, até se transformar em nada e ter que refazer, recriar, se reinventar.

Como artista – acredito que, ouso dizer que, sou uma, então posso falar isso – Como artista, chega-se um momento em que você se vê em uma encruzilhada: Ou a sua vida, o seu eu, a sua essência, ou a sua arte, sua forma de encantar e encarar o mundo. Um dos dois vai morrer, um dos dois vai viver – por isso que os artistas permanecem em fio instável de sentimentos – porque quando um morre, o lado que vive, sempre irá sentir saudades do lado que se foi. Nina Simone, escolheu sua arte e não seu coração.

Acabou que, a forma em que começamos a expressar o que é sentir Nina Simone, começamos a expressar o que é o “nós”, artistas. E aqueles que não compreendem essa forma de vida que escolhemos, sentem uma certa antipatia por essa visão, uma forma agressiva de vermos o mundo e seguem o mesmo pensamento “olhe, mas não toque”. E não tem como não ver isso, pensar nisso, escrever, sobre uma mulher tão intensa, ativa e uma artista completa em seu desespero, sem colocar a visão pessoal daquela que vos escreve e conseguir ver que, somos como super-heróis nesse mundo.

Super-heróis que lutam batalhas que ninguém quer lutar, somos amados e recusados na mesma medida. Ninguém nos quer. Mas, ao mesmo tempo, precisam de nós, para lutar as batalhas e as crises que eles não tem coragem de enfrentar, somos os seres livres do medo, mas presos em nós mesmos e é incrivelmente pessoal essa luta, porque querendo ou não, estamos sozinhos.

Então, no fim, depois dos altos e baixos, depois de se explicar, tentar mostrar com muitos exemplos e floreios e fatos de uma vida e época que não vivemos, mas sentimos, pela luta diária, pelo amigo, pelo irmão, pelo amor que ainda ousamos acreditar em mundo como este, através de uma musica que podemos chamar de nossa…

Como sentir Nina Simone?

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Sobre o Autor

Dandara Aryadne
Pseudo escritora, artista plástica nas horas vagas. Criadora e colunista principal do site Cinema ATM.

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