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Crítica: A condição humana, por David Fincher.

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A idealização de um filme que mostra a imagem dos valores da sociedade, a queda da questão humana nas mãos de um dos maiores diretores de todos os tempos. Um trabalho que começa sem pretensão, mas conforme cresce, intriga e mostra, com seu orgulho, toda a complexidade da degradação humana

David Fincher conseguiu transformar uma história que poderia ser clichê e de fácil solução em uma atmosfera casualmente, de certa forma acolhedora, angustiante, que nos mantem alerta em um estado intenso de nervoso, (em falta de palavra melhor). Como se a obra fosse uma auto analise daquele que assiste, um espelho que reflete nossos pecados mais severos. E por si só, é assustador.

Tudo parte do conjunto da obra. Claro que, quando exploramos a visão de um filme, por mais ou menos complexo que ele seja, a analise de todo o material parte de 50% do roteiro, afinal de contas temos que pensar da onde essa história está surgindo; e então temos a outra parte, a forma como essa história será contada, isso é o que influencia para a análise de um filme, o interior realmente não importa, é tudo uma questão prática.

Estamos vivendo em uma era do cinema roteirizado, onde toda a ideia surge em degradar, de uma maneira irônica, a condição humana por si só, mas surge uma esperança no fim do túnel que une todo o final, transformando os personagens em seres, antes reais e brutais, em humanos idílicos e com incrível potencial a importância da vida. É a moda.

Parando pra pensar sobre a relação dos personagens, a ideia inicial de cada um deles não leva para uma análise tão profunda, já que partimos de um clichê apresentável. O policial veterano que ainda tem muito o que mostrar e o policial novato de bom caráter que ainda tem muito o que aprender, aconteceria alguma coisa para que a relação deles entrasse em jogo e até mesmo para ajudar a solucionar o mistério e então tudo ficaria bem, certo?

Mas a mágica de Seven, é a poesia. Toda a concept parece uma declaração poética influenciada pelo mais profundo som de Edgar Allan Poe, que nos permite romantizar a escuridão sem perceber as trevas dentro de nós mesmos.

Não é algo assim tão simples, é algo mais profundo, uma mensagem que vai muito mais além do que um filme de suspense com algum psicopata louco ou mal entendido. É o silêncio. A mensagem é o silêncio da aceitação em que transformamos a nossa vida, vivendo silenciosamente, sorrindo e acenando, deixando tudo para lá, não dando a verdadeira importância para todas as coisas que existem ao nosso redor.

Tem algo errado e ele vai mostrar isso, pelo roteiro, pela iluminação baixa e a atmosfera parada e tranquila da fotografia, como se tudo estivesse de repente reaprendendo a se movimentar. Uma estranheza familiar que causa um certo enjoo por percebermos onde estamos errando.

 Nos acostumamos com esses personagens, crescemos ao redor deles e vice versa, não temos pressa em exprimir a confiança em Somerset, a insegurança de Mills escondida sobre o orgulho do bom tira, não temos pressa, pois somos apresentados a nós mesmos e esses já conhecemos. A calma e suavidade de Morgan Freeman, o veterano e ousadia, o diamante bruto Brad Pitt, são relacionáveis com seus personagens, é tudo tão limpo e identificável. 

 A visão de uma herança otimista empurrada em uma juventude pessimista, vivendo em um desligamento de valores que se tornou algo completamente normal. Algo sem tempo, sem idade e sem distinção de raça, cor, gênero.

Um crescimento atemporal, a decrepitação da sociedade liderada por falta de vontade, matando tempo entre a morte da ideia até a aposentadoria, somos todos assassinos, matamos nosso espirito com nossos pecados.Mesmo que a esperança de Somerset seja de alguma forma encantadora e sedutora, a aceitação e suspiros cansados do jovem Mills, são mais relacionados a facilidade de uma vida conformada.

Nas palavras de John Doe:

   “Nós vemos um pecado mortal em cada esquina, em cada lar, e o toleramos. Toleramos porque é comum, é trivial.”

 John Doe, um ninguém que poderia ser qualquer um, mais um em um milhão de mentes em pensamentos sobre cada tragédia, psicopatia e antipatia no que se refere a ideia da apatia humana. Somos uma geração sem empatia. A atmosfera em cores frias e neutras, com um simples pôr do sol no final, sem grandes significados ou extravagâncias: Um simples ato, um simples pecado, um simples encerramento.

Não precisamos saber o que irá acontecer com os personagens, o resultado da tragédia não é necessariamente interessante. O interessante é a forma como iremos encarar ou não o senso falso prático da sociedade de nos fazer acreditar que estamos fazendo o bem apenas sorrindo, ou dizendo obrigado, por favor ou se carregamos ou não a bolsa de uma velhinha na rua, enquanto temos o pensamento de que essa é a nossa obrigação, dever e não humanização.

A verdade, dura é também bem simples, será sempre um desconforto para aqueles que enxergam o pecado do próximo e esquecem os próprios.

    

 

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 David Fincher e Gillian Flynn no contam sobre o excruciante sentimento de vingança não completado, que nos dá a sensação inquietante de desejo não cumprido. A concepção da ideia de que algo ruim irá acontecer a qualquer momento, ela sera descoberta ou ele será destruído e ainda assim há o elemento incompleto do sentimento dentro da relação. Parece fácil, depois que se soluciona o mistério parece incrivelmente fácil, mas depois se percebe que a solução para o problema sempre esteve a nossa frente, mas só enxergamos a merda quando já estamos profundamente afundados nela, não é irônico?

O insuportável silêncio. O angustiante silêncio. A existência dela é vivida através de uma intelectualidade quieta e calma. O desespero só aparece na superfície quando é para administrar o outro lado do plano e isso a faz como perfeita psicopata, ou deveria dizer, humana? Já que, afinal de contas, é apenas na hora do desespero que nós encontramos os mecanismos necessários para salvarmos a nós mesmos, certo? 

Ela se viu sem amor, traída, seus sonhos e esperanças, expectativas (criadas por ela mesma), uma realidade que ela escolheu enxergar, que foram depositados em um relacionamento que não tinha mais aquele brilhante futuro, ela se viu perante o desespero e agiu, deixando-o no mesmo barco que ela, desesperado, respondendo com uma ação, a única ação possível. Ficar com ela.

Seria um pensamento aterrorizante dizer que o personagem ao qual nos identificamos não é o marido ingênuo traidor, e no final traído pela vingança, mas sim da esposa? A esposa que é o centro do casamento? A verdadeira chefe da casa que ministra, organiza e governa a vida daqueles que vivem sob seu teto. 

Não dá pra negar o sorriso irônico que surgem em nossos lábios naquele exato momento em que descobrimos a incrível forma de pensamento de Amy. Sorrimos por que nos identificamos com ela. Ela o fez pagar, pela traição, por a obrigar – mesmo que seja apenas uma ilusão esse senso de obrigação com ela mesma, a criar expectativas – a criar sonhos que não existiram, a criar ideias que não se realizariam, a ter que se obrigar a agir em prol de salvar seu casamento, seu casamento, não dele, não deles, não dá Amazing Amy, mas seu e exclusivo casamento, só seu, seu projeto, sua distinção de vida perfeita, ela precisava salvar, ele a obrigou a isso, não?

Duas horas e meia de tique. Um tique que fica martelando na sua cabeça, lá dentro, no canto mais escuro e secreto do seu cérebro, cercando de pouco a pouco cada reflexo de pensamento, sussurrando baixinho, em uma voz suave, calma e sem nunca perder o tom:

 Você faria isso.

Não que todos nós, seres humanos, sejamos psicopatas ou que tenhamos um monstro dentro de nós cavando uma saída, esperando o momento certo. Não, não é isso – será? – Está mais para uma aceitação da realidade. Uma realidade que mostra que, somos e temos dentro de nós o instinto de sobrevivência, se essa sobrevivência está ligado a vida ou morte? Não necessariamente, mas não dá pra definir o que seria a vida de alguém ou morte de alguns. Então isso apenas deixa claro que “we will do what we have to do, to survive”. É a básica, e primordial lei da vida. Não importa por quais motivos sejam.

David Fincher conseguiu chegar ao topo da sua carreira com sucessos sobre serial killers e pressão psicológica que seus filmes, com os finais mais surpreendentes, nos acariciam com o melhor do suspense sobre a condição humana de relacionamento. Esse diretor que nós dá o melhor de sua herança por Hitchock, nos carrega nas costas, de volta a realidade cada – subjetiva ou não – cada vez que resolve focar sua câmera.

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Sobre o Autor

Dandara Aryadne
Pseudo escritora, artista plástica nas horas vagas. Criadora e colunista principal do site Cinema ATM.

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