critica

IT — A celebração do terror de Stephen King!

A primeira metade do filme se deu como uma experiência espantosa, aterrorizante, grotescamente linda e profundamente genuína. 
Se existe uma vaga noção de desapontamento sobre esse filme, se deve ao fato de que a primeira metade da visão de Muschietti, em relação a um dos livros mais famosos de King, foi tão incrivelmente perfeita que a segunda parte ficou solta e sem real conexão com os personagens, mas calma, eu irei explicar o quanto esse filme se tornou precioso para esse ano de 2017. Há alguns problemas, serei honesta, mas os apontamentos são pequenos e não estragam a magia do resultado final. 
O livro de King tem mais de mil páginas e, embora seja principalmente uma obra-prima, ele segue um ritmo pesado e lento, como se nos puxasse para a inócua Derry no passo a passo de cada página. Em comparação a adaptação de Muschietti, o ritmo do longa acompanha a referência literária com maestria dentro da tela. Somos apresentados aos nossos sete personagens de forma intima, desde a primeira cena com Bill fazendo um barco de papel para o seu irmãozinho Georgie ao mesmo tempo que em um corte brutal somos levados por uma corrente constante de eventos que incluem cenas intensamente assustadoras. Aqui, a morte de Georgie por Pennywise é vivida em três dimensões. Saímos da experiência imaginária, para sentir o gosto do sangue em nossas bocas. 
Ansiosamente esperei por esse filme por conta de um único elemento, Bill Skarsgård. Seu trabalho com Pennywise tem sido aguardado desde que se foi feito o anuncio sobre este personagem, já que muitos conferiram a sua voracidade na série adaptada Hemlock Grove. 
Incrivelmente revoltante. Engraçado de forma profundamente doentia e simplesmente hipnotizante por sua horrivel psicopatia. Seu Pennywise chegou para realmente assombrar as crianças de Derry, das profundezas de uma paisagem inesquecível. Desde o primeiro momento em que o encontramos com Georgie, seu olhar morto se infiltra em nossos poros, insinuando a imundice de suas origens. Uma coisa é imaginar um palhaço maligno dentro de um livro (não estou contando com a adaptação de 1990) e outra coisa completamente diferente é tentar encarar Skarsgård com coragem. Uma vez que você o conhece, você nunca irá esquecê-lo. Hoje em dia é preciso muito de um filme de terror para me assustar. (o gênero terror está falhando no elemento mais importante: o clima) Para quem já assistiu tudo sobre o terror ou já conhece tudo sobre o gênero, ainda assim vai ser impossível negar que esta encarnação de Pennywise é maravilhosamente assustadora. E no entanto ele tem esse charme doentio que eu não posso negar, perverso de uma forma atraente até, uma qualidade tão essencial para Pennywise, que quase não percebi necessária até assistir a esta interpretação de Skarsgård.
Ele se contorce, sorri de forma silenciosa, com o terror em seus olhos, chega a uivar, gemer de antecipação, ele segue de forma suave e sutil até Ben no porão da biblioteca, com pés incrivelmente rápidos, ele surge nas águas ranças do porão de Bill, ele assombra a escuridão do Açougue, seus olhos brilham para Mike, ele sorri de forma intima – ainda pavorosa – para Eddie, que o encara com um terror paralisante. É fácil dizer que não se tem medo de palhaços quando você está em uma festa, numa sala iluminada, cercado por amigos, musica e crianças. Mas na escuridão, sozinho, em Derry no Maine, há sempre aquela sombra na sua cabeça, lhe dizendo que você não está sozinho, te desafiando a olhar para trás. Pennywise conhece seu medo – e também Skarsgård. 
Do mesmo modo, o elenco de crianças que eles montaram como o icônico Losers Club é tão preciso e sensível quanto eu já testemunhei. Dar espaço para que sete protagonistas diferentes tenham a sua própria voz e suas caractéristicas serem ressaltadas na tela, não é uma tarefa fácil, mas aqui, Muschietti consegue manusear isso com precisão assim como King em seu material original. Cada um brilha em seus próprios momentos, o elenco deu a Bill, Bev, Eddie, Mike, Ben, Richie e Stan uma luz e vida que foram surpreendentes. Muitas vezes as crianças não parecem reais nos filmes, mas essas crianças conseguem com toda a sua energia alegre, suja, vulgar, transmitir emoções reias, humanas. Quando eles falam um com o outro, eles falam como verdadeiros amigos e você se apaixona por eles. Eles conseguem mostrar que o amor é profundamente essencial para essa história e sem nunca poderia ter funcionado. Os Losers surgem triunfante.
O design da produção e a atenção aos detalhes são realmente algo especial. Raramente conseguimos uma adaptação de um trabalho de King que não só pertence tão completamente em seu universo, mas parece que realmente conhece e adora seu trabalho – em vez de usar o diálogo expositivo para nos contar sobre Derry e seus moradores, ou pequenas coisas sobre Os próprios Perdedores, o filme de Muschietti cria uma experiência sensorial com seus elementos. Isso é o cinema.
Nos aproxima das emoções de forma visual, mais que as palavras jamais poderiam fazer. Mas, além dos pequenos detalhes o horror do filme é rígido e criativo, fresco e chocante como qualquer coisa que eu já vi há anos. O final de Pennywise vai contra o final do livro – alguns fãs ficarão decepcionados – mas não é algo que fuja completamente da forma como o filme abordou a adaptação, o que faz com que muitas das formas que Pennywise assume no climax deste filme se tornem particularmente inesquecíveis. O terror que faz parte integrante dessa história aparece desde o começo e mal nos da tempo de respirar, exceto quando estamos com os Losers, protegidos pelo intenso amor que compartilham um com o outro, mas quando estão sozinhos e estamos sozinhos com eles, aprendemos rapidamente que qualquer coisa pode acontecer e isso nos faz saltar da cadeira. 
Deixarei essa crítica livre de spoilers, mas já devo avisar que o arco final de Bev ficou um tanto quanto decepcionante para mim. A melhor personagem dos sete ter perdido sentido no final, foi o ponto alto dos problemas comentados. Mas, no final de tudo, damos de ombros – diretores homens, ainda precisam percorrer um longo caminho sobre como adaptar ou escrever personagens femininas – Embora os períodos tenham sido trocados (a primeira parte do filme de Muschietti ocorre em 1989, mas no livro ocorre em grande parte em 1958), não prejudica em nada o núcleo emocional do material original de King.
Muschietti criou a versão definitiva de It. E se King é o criador de terror do nosso tempo, o filme de Muschietti é uma carta de amor ao seu mestre.

Sobre o Autor

Dandara Aryadne
Pseudo escritora, artista plástica nas horas vagas. Criadora e colunista principal do site Cinema ATM.

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