MINHA IRMÃ (2020) – CRÍTICA

“Eu quero morrer antes de você, só para te irritar…”

Existe algo idilicamente próprio, do cinema europeu, que eleva a emoção a uma capacidade fora do nosso comum. Dramas convencionais, se tornam expressões artísticas e performances psicológicas, que transportam a nossa vivência para a tela de cinema. E com “Minha Irmã”, não é diferente.

Nós conhecemos essa história. Não estamos reinventando a roda ou querendo transformar o cinema. Lisa toma como papel responsável ser a salvadora de seu irmão gêmeo, Sven, que está com câncer. Geralmente em histórias como essa, passamos por todo o processo da doença, da recuperação da suposta tragédia ou de como lidamos com a perda ou a transformação. Mas em “Minha Irmã”, o fator da doença é um personagem coadjuvante de poucas falas.

O impacto real é sobre a relação dos personagens em sua fraternidade. É como uma longa, não bem-vinda, mas necessária, sessão de terapia. A dupla Stéphanie Chuat e Véronique Reymond, dirigem o filme com habilidade, em cada nuance subjetiva e o silencioso ataque emocional do roteiro.

Nina Hoss é a condutora desta orquestra. Ela hipnotiza a cada palavra, a cada olhar. O ritmo que ela entrega as emoções que ela representa, é mostrar Lisa com sinceridade. Você a entende, repulsa, respeita e torce por ela, em suas lutas internas, fora os problemas exteriores.

Lars Eidinger, não fica pra trás. Sven apresenta um conforto em seu personagem. É acolhedor assisti-lo, algo que reconhecemos da forma de como ele é brilhante em tela. Os dois atores se apresentam de uma forma segura, que deixa o expectador viver a realidade dessas relações.

A narrativa, apesar de acompanhar o estilo leste europeu, de passos lentos, é bem equilibrada. A cinematografia é excelente e se encaixa diretamente com as situações em cena. Senti algo muito parecido ao assistir “Ferrugem e Osso”, de Jacques Audiard. Um ballet primoroso, ao seu brilho visual de cores frias. Essa é a profundidade extensa da qualidade do cinema europeu.

O que mais funcionou em “Minha Irmã”, foi a recusa da entrega aos problemas ou desafios, de cada um dos personagens. Existe aquele humor irônico e passado, até nas cenas mais tristes ou exageradas.

Lisa e Sven entendem a situação em que suas vidas se encontram, mas eles estão fazendo o melhor possível com o que eles tem em mãos. É como rir desesperadamente de nervoso e tristeza, gargalhar alto, enquanto lágrimas caem por nossos olhos e sentimos o alívio dos nossos sentimentos. Você respira fundo, levanta a cabeça e segue em frente.


Sobre o Autor

Escritora, artista plástica, editora e criadora do ATM - Aqui é o lugarzinho que eu sinto pra escrever sobre os filmes que gosto!

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