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MOTHER – Sujo, profundo e desesperadoramente real!

“I gave you everything!”

Para assistir e rever filmes como “Mãe!” é como olhar para as manchas de tinta de um teste de Rorschach. O “problema” não é a falta de significado, mas a abundância e as diferentes possibilidades de análise. O significado que você atribui ao que você vê dirá mais sobre você e sua capacidade de interpretação do que a intenção do diretor em fazer o filme.

Embora Darren Aronofsky tenha dado entrevistas direcionando pessoas para a compreensão de sua proposta (a destruição da mãe natureza), esta é apenas uma das metáforas do filme. Afinal, a partir do momento em que você contempla a arte e dá sentido, a arte se torna sua.

Mas “Mãe!”, em comparação com outros filmes como “Eraserhead”, não é tão difícil entender seus significados. Especialmente se você perceber que existe uma mistura de diferentes problemas abordados e não tenta analisar a trama de forma objetiva ou apenas sob uma única abordagem.

Antes de falar sobre os significados, quero destacar duas impressionantes realizações técnicas/narrativas deste filme.

 

Darren queria orientar a história com uma única emoção: a raiva. Todo o filme é como um vulcão que aquece lentamente sua lava até a erupção de raiva no final, mas para mim, a emoção que o filme conseguiu transmitir (assim como em High-Rise) é o estado constante de alerta gerado pela falta de controle. A câmera que segue as costas de Jennifer Lawrence, girando em torno de seu corpo para intensificar a sensação de falta de controle, falta de apoio em algo concreto, é incessante e extremamente eficaz.

O chamado “25-minutes crescendo”. A espiral alucinógena testemunhada em “Black Swan” é multiplicada por acima da conta. Você sente a aceleração do ritmo, a câmera gira atrás de Lawrence através dos quartos em um balé desesperado. A casa é lindamente construída e filmada com uma sensação de espaço. Você é apresentado aos quartos, mas a velocidade aumenta, é como se o espaço também mudasse e se dissolvesse em salas infinitas sem estrutura sólida confiável. Tudo fruto de um trabalho excepcional de câmera e edição.

Agora falando sobre a minha compreensão das metáforas do filme.

“Mãe!” é a história da humanidade e seus ciclos de destruição e renovação, envolvendo e misturando, de forma alucinante, religiões, questões ambientais e políticas em evidência hoje.

Uma análise lúdica dos pontos mais importantes que compõem a humanidade (religião, família e sociedade) e sua corrupção por vários fatores: ganância, luxúria, inveja, fanatismo religioso, fraqueza em geral, falta de vontade de construir ou reparar algo e concentrar-se apenas no uso e descarto, exemplificado na cena em que a Mulher (Michelle Pfeiffer) pergunta à Mãe (Lawrence) por que ela está reparando a casa velha em vez de comprar outra.

A luta eterna entre o conservadorismo do que é puro, bonito e virtuoso contra a tentação do artista interior de “abrir a mente”, para rever conceitos, adorar e ganhar like e seguidores.

A ganância de se tornar o próprio Criador, simplesmente desconstruindo e reorganizando sua arte já perfeita em algo que atrai os fracos (fãs / seguidores) que transmitem ao falso profeta toda a responsabilidade por suas vidas e que continuam descendo em declive em uma espiral infinita de desconstrução (leia “ destruição”) da perfeição.

A corrupção (de valores) da religião leva à destruição da família e, consequentemente, à destruição da sociedade como é conhecida. Uma reflexão sobre a destruição de sociedades antigas (Roma, Egito…) e sua substituição por um novo modelo nascido das cinzas.

Afinal, é necessário destruir o antigo para poder construir algo novo, simbolizado no filme pelo cristal feito a partir das cinzas do coração da “sociedade” morta que não pode ser criada de outra maneira e não pode ser corrigida, uma vez que já foi corrompido, não retornará ao estado original. A realização final de que o filme pretende oferecer ao público é que: esse é o ciclo da vida.

Enquanto “questionar e desconstruir” destrói a perfeição, também cria vida, cria história. Como o Homem (Javier Bardem) diz, ele está tentando colocar a vida na casa. Não há vida sem morte, assim como perfeição não gera inspiração, não pode avançar, não possui objetivos se já estiver no topo e não pode mais ser analisado se, se decompor indo contra sua natureza.

Algumas referências à Bíblia que encontrei:

— Adão e Eva no Paraíso: Michelle Pfeifer rouba todas as suas cenas como a encarnação perfeita de uma serpente sob a forma de uma mulher que não oferece o fruto proibido, mas sim incita o desejo por isso. Não é apenas crueldade. É apenas o papel dela no ciclo da vida. Ela sabe que ela tem que dar, dar e dar e isso nunca será suficiente. Ao contrário de Mãe, ela abraça a falta de controle;

— Caim e Abel: Inveja e ganância colocando irmão contra o irmão, terminando na morte. Um crime horrível que manuseia permanentemente o Paraíso (representado pela ligação ácida do sangue que corrói a casa e abre o caminho para o mecanismo de total destruição);

— A destruição de Sodoma e Gomorra: a adoração de falsos profetas, a falta total de valores, a perversão sexual, a degradação moral e física levaram à destruição de Sodoma e Gomorra pelo fogo (assim como a destruição da casa);

— A Comunhão: Momento católico sagrado onde o corpo e o sangue de Cristo são oferecidos aos fiéis. “Mãe!” apresenta uma re-criação diabólica e pagã deste ritual, que para mim é o momento mais chocante de tudo;

Este é um filme abrangente que permite que você escolha sobre o que você quer se ofender.

Você pode pensar que é ridicularizar a religião católica ou muçulmana. Você pode pensar que está encorajando a xenofobia, relacionando a invasão de estranhos à destruição da perfeição. Você pode pensar que o filme é misógino porque mostra a mulher como serva do homem que é o Criador e o Destruidor. Você pode pensar que é muito conservador, homofóbico e/ou racista porque mostra a célula principal da sociedade composta por um casal heterossexual branco. Você pode pensar que é muito liberal porque é retratar e distorcer símbolos e ensinamentos religiosos.

Você escolhe seu motivo.

Ou você pode analisar “Mãe!” para o que realmente é: uma obra de arte feita para instigar, ser engolida secamente, para gerar discussões sobre alguns dos temas mais importantes da sociedade que estão novamente evidenciados hoje.

É também um exercício de metalinguagem, assim como o criador/artista /profeta não é responsável pelas ações e problemas de suas criações/ fãs/adeptos, um filme que retrata abstratamente a realidade não é responsável por problemas reais de nossa sociedade.

E, finalmente, independentemente de ter sido bem visto ou odiado, fique feliz por ver um filme que fez você refletir, questionar seus conceitos e que foi capaz de gerar tal reação dentro de você. Afinal, o cinema não é apenas entretenimento, é também reflexão e questionamento.

Sobre o Autor

Dandara Aryadne
Pseudo escritora, artista plástica nas horas vagas. Criadora e colunista principal do site Cinema ATM.

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