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O êxtase virtual de “Her” (2014)

How would you touch me?”

Eu tinha uma ideia bem exata para esse texto quando eu pensei nele. Eu estava re-assistindo “Her” (2014 — Spike Jonze) esses dias atrás e justo na cena quando Theodore e Samantha fazem amor pela primeira vez o meu coração parou. O choque inicial não existe mais, agora é considerado um filme repetido. Não. Longe disso. Meu coração parou porque eu entendi. Eu entendi quem era quem naquela cena. Eu entendi o peso que as palavras possuem em nossas vidas. Eu entendi como atingimos o ápice onde não existe mais lados, mas sim um ciclo. Muitos compararam a utopia romântica de “Her” com “500 Dias Com Ela” de (Mark Webb, 2009), mas eu discordo.“500 Dias Com Ela” é a idealização do real. “Her” é a idealização do virtual.

Na cena de sete minutos em que eles fazem amor, meu coração parou porque aquilo foi real. Eu senti todo o peso da minha utopia virtual e isso é o que deixa o expectador excitado dentro de cena. Mil aplicativos depois e você ainda está ai, não é?

O engraçado é que o virtual nunca consegue acompanhar a realidade. Será que se Samantha fosse “real” a cena seria tão concreta e sincera? Tinder, Happn, Whatsapp, Facebook… Tantos e tantas redes sociais, tantos e tantos aplicativos, tantas e tantas pessoas, presas a fantasias virtuais que nunca irão se concretizar.

É fácil desconstruir o personagem dentro do celular, é fácil se construir dentro de um aparelho, colocar isso no âmbito real, ai já é outra história. A decepção com a realidade é brutal e cômica. Aquela pessoa será muito mais intensa, louca, tipo ou não tipo, terá todos os maneirismos, valores familiares, construções sociais… Você não quer isso. Você não precisa disso. Você quer aquela que você conheceu no aplicativo. Engraçada, inteligente, linda, sexy, esperta, disposta a qualquer parada, de bom humor, otimista… Mas você esquece que por trás de todas essas qualidades os defeitos estão lado a lado, mas não queremos enxergar isso. E quando encontramos a dura realidade, ficamos frustrados. Mas aceitamos essa frustração, como se já estivéssemos acostumados a nos decepcionar com as expectativas que criamos pelo outro em nosso lugar. Engraçado, não é?

Mais uma vez, se Samantha fosse “real”, a cena seria tão concreta e sincera quanto?. Eu vou responder essa pergunta para você. Não. Não seria. A cena dói, marca presença e encontra sentido porque ela é real. Simples assim. Um homem e uma mulher, que juntos em uma conversa entregam seus medos, suas fantasias, sonhos e excitação. Não param. A respiração começa a ficar pesada, o corpo começa a ficar quente. Eles só precisam um do outro, em qualquer plano, de qualquer forma, não importa onde ele irá tocá-la, não importa como ela irá gemer, é pesado, é intenso. É real. A chave da excitação não está em como eles se conectam, mas do porque eles se conectam. E o êxtase virtual está justamente ai, preso na vida real. Certo?

Seremos idosos frustrados com nossas fantasias sentimentais que nunca foram realizadas pelo nosso medo de sofrer. Presos a um aparelho eletrônico, esperando a liberação de uma onda de vontades e sonhos que nunca realmente saíram do papel.

Her” carrega um otimismo triste que acompanha nossa geração sem percebermos. O otimismo está em um estranho nos entender e completar, ao mesmo tempo que é triste pelo fato de ser um completo e total estranho. Não queremos que essa pessoa nos conheça. Não queremos que essa pessoa faça parte da loucura do nosso dia a dia. Queremos mantê-la assim, como um completo e total estranho, nos doando 100% presos em uma construção que não existe. Isso é tão bizarramente complexo que me assusta, você não?

Nós somos o Theodore. Igual a um zumbi, desesperado por uma conexão, desesperado por alguém que possa nos dar as respostas. Desesperados por alguém que nos complete. Precisamos daquela outra metade invisível para nos sentirmos bem. Estamos caçando, cheirando, buscando, lutando por uma mísera gama do brilho da atenção. Ao mesmo tempo que somos a Samantha, temos medo de nos entregarmos, temos medo de criar laços reais e ficarmos presos a ele. Queremos a concretização, mas queremos a distância, com mil capas protetoras, para se caso cairmos no chão teremos no que se apoiar.Queremos a liberdade de pensar, descobrir o que estamos sentindo, descobrir se queremos sentir e então largar de mão, como se nada daquilo realmente tivesse existido. Viu? Não é sobre lados, é sim um ciclo. Estamos presos entre dois personagens fictícios que brincam com a nossa realidade.

Sete minutos. A cena dura sete minutos completos. Sete minutos onde ele entrega tudo o que tem, sete minutos onde ela entrega tudo o que tem. Sem restrições, vínculos ou vícios. Parceiros para uma vida dentre em segundos, libertos pela distância de um êxtase virtual.

Como sairemos disso? Como iremos expor a nossa sinceridade para a realidade? Como iremos deixar de lado essa paixão utopia que nos desequilibra, mas nos segura ao mesmo tempo? Quando que iremos criar coragem para assistir o pôr do sol sem nos preocuparmos entre o frio da madrugada e o calor da manhã? Como iremos abandonar essa filosofia existencial doentia que acompanha nossa geração? Eu não sei resposta. E sinceramente, não sei se quero saber.

 

Anagrama da cena em questão:

“As vezes eu penso que já senti tudo o que tinha que sentir, é que daqui pra frente eu não vou sentir nada novo. Apenas versões menores daquilo que já senti… E ai eu estava pensando sobre as outras coisas que eu estava sentindo e eu me peguei orgulhosa disso, de ter meus próprios sentimentos… E ai, eu tive esse pensamento horrível, será que esses sentimentos são reais ou são apenas projeções? E a ideia realmente doeu.”

Sobre o Autor

Dandara Aryadne
Pseudo escritora, artista plástica nas horas vagas. Criadora e colunista principal do site Cinema ATM.

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