O MAU EXEMPLO DE CAMERON POST (2018) – CRÍTICA

Menina conhece menina. Menina se apaixona por menina. Menina tem sua sexualidade exposta forçadamente e é matriculada em um acampamento de terapia de conversão sexual. O Mau Exemplo de Cameron Post, adaptação do livro homônimo e ganhador do prêmio do júri no último Festival Sundance, explora a realidade imediata de centenas e centenas de LGBT+ ao redor do mundo: a descrença em um final feliz enquanto Deus estiver por perto.

Dirigido por Desiree Akhavan, O Mau Exemplo de Cameron Post nos traz a dualidade sexo-religião em moldes jovens e reconhecíveis, através de personagens carismáticos cujas personalidades genuínas e cativantes não são o suficiente para mantê-los a salvo num mundo de negação, trauma e privação.  O boicote do “eu”, presente ao longo do filme, se desmembra em múltiplas agressões, internas e externas, que gradualmente corroem a identidade natural daqueles que, sob os “cuidados” do acampamento, são encorajados a castrarem-se emocional e psicologicamente.

O Mau Exemplo de Cameron Post filme crítica

Chloë Grace Moretz, reconhecida como a emblemática Hitgirl em “Kick-Ass”, aqui atua com quietude, interpretando a jovem Cameron e sua introspecção. Moretz se vale de olhares longos, diálogos certeiros e contemplações silenciosas, mas não apáticas. Muito existe na maneira vaga através da qual a jovem interage com o mundo a sua volta, e numa narrativa real onde o silêncio é a certeza da perda de si mesmo, Cameron o utiliza com coragem: observa e conhece, a si mesma e aos outros, tomando o tempo – que ainda possui – em  entender o que desejam fazê-la esquecer.

Em sua estadia no acampamento, entretanto, Cameron convive com diferentes processos. Sob o peso de intenções tóxicas e alimentados por expectativas irreais – majoritariamente de origem parental – demais participantes da terapia sucumbem à injusta e violenta afirmação de que seu corpo é um pecado, e seus desejos e amores, uma ofensa. O trauma é profundo e constante, renovado a cada dia, e na tela estão suas sequelas: ansiedade, depressão, dismorfia corporal, discursos de ignorância e ódio partindo de quem deveria sentir-se ofendido – os absurdos da terapia de cura sexual (quase humorísticos para uma audiência que desconhece a real dor da vivência e dos fatos, angariando risadas aqui e ali) não são amenizados durante o filme.

O Mau Exemplo de Cameron Post filme crítica

A ocasional interpretação equivocada do espectador não diz respeito, contudo, aos momentos que de fato evocam humor. O roteiro de O Mau Exemplo de Cameron Post se equilibra entre o peso da culpa e a leveza jovial da faixa etária retratada, e falas espirituosas e instigantes estão sabiamente distribuídas em meio a brutalidade de exibição necessária. Jane Fonda, personagem interpretada por Sasha Lane (“American Honey”, de 2016, conta com sua cativante atuação), é um agradável destaque, perspicaz e carismática. O elenco, como um todo, compreende tal equilíbrio, e trabalha em prol de uma execução balanceada e atenta.

Visualmente, o filme traduz-se introspectivo como sua protagonista. Em cores terrosas e aéreas, não há imagens ocupadas, saturadas ou sequências ruidosas e abruptas. O Mau Exemplo de Cameron Post passa fluidamente frente aos olhos, refletindo o silêncio e a frieza de um mundo quase secreto, uma realidade cruel de proporções ainda palpáveis e existentes, mas que, de alguma forma, se mantém retirada do tempo: um limbo de brancos, marrons, verdes e azuis. Da cinematografia, destacam-se também os momentos escuros nos quais Cameron vivencia sua sexualidade. Indo contra a objetificação do corpo feminino e desinteressada na erotização do desejo lésbico, a imagem limita o espectador às expressões e sensações das personagens em detrimento de explicitar suas ações. Espontaneidade e naturalidade são as balizas pelas quais Akhavan retrata as experiências da mulher, da LGBT, e da adolescente: incorporadas em Cameron e nas demais personagens femininas, todas as facetas encontram respeito.

O Mau Exemplo de Cameron Post filme crítica

Em uma era de verdades extremas, O Mau Exemplo de Cameron Post questiona, se assumindo presente em tempos de apagamento. A adaptação não está sendo a única a se impor nas grandes telas em 2018, e Boy Erased, cuja narrativa também expõe a cultura da conversão sexual ainda presente em escala alarmante nos Estados Unidos, juntamente galga um circuito de representatividade e resistência, somando às vozes dos muitos que diariamente permanecem, e clamando por deuses que reconheçam a bela diversidade de sua criação.

CRÍTICA ESCRITA EM COLABORAÇÃO COM PAULA CARVALHO 


Sobre o Autor

Gabriel Folena
Vinte e três voltas ao redor do sol, e metade delas muito bem gastas por entre páginas, letras e telas. Das verdades que carrego, destaco que: 1) dinossauros clonados, poderes mágicos e a Matrix são reais, e 2) Daisy Buchanan não fez nada de errado.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *