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OS RESPIROS DE SOFIA COPPOLA

Sofia Coppola é uma adicta por comunicação. Ou, pelo menos, é o que concluí depois de ver algumas de suas obras mais importantes, especialmente seus dois primeiros filmes: The Virgin Suicides (1999) e Lost in Translation (2003). Apesar de não contarem histórias parecidas, existem detalhes na forma em que elas são contadas que denunciam o fascínio de sua idealizadora pelo tema.  Percebendo o potencial de transição entre texto e imagens num livro que havia acabado de ler, Coppola, em 1999, decidiu tornar “The Virgin Suicides”, seu primeiro longa, decisão determinante para a consolidação de sua carreira como diretora.

 

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E assim começou o projeto de adaptar a história das cinco irmãs, filhas do casal Lisbon, que viviam numa pequena cidade americana nos anos 70. A narrativa consiste em descrever os pensamentos de outrem sobre as garotas e o que as levou ao suicídio; Ela não tem intenções de explicar os detalhes da vida cotidiana dessa família, ou sequer de construir um drama sobre os problemas da adolescência. O objetivo aqui é transmitir, através de uma estranha e nebulosa atmosfera na qual as intenções não são muito claras, as falhas de comunicação entre as 5 irmãs e o universo que as circunda.

Num dos primeiros diálogos do filme, entre um médico e a mais nova das irmãs que acabou de tentar suicídio, essa sensação fica clara:

“- O que você está fazendo, querida? Você sequer tem idade o suficiente para saber o quão ruim a vida fica. 

– Obviamente, doutor, você nunca foi uma garota de 13 anos.”

É claro que essa crise tem raízes profundamente estabelecidas no cenário familiar, ambiente no qual são separadas do mundo pela rígida e controladora mãe. Lux, a irmã que pode ser considerada a “protagonista” do filme, é uma síntese muito clara de uma personagem que existe apenas como projeção, sem vida própria. Tudo que se sabe acerca da real Lux é que ela tem vários relacionamentos e que aprecia rock’n roll e cigarros. Mas qualquer coisa sobre suas ambições, ideias e sentimentos são meras especulações, tanto do expectador quanto dos garotos da vizinhança que observam as irmãs quase que como entidades divinas, num típico fascínio pré-adolescente pelas garotas mais bonitas do bairro. No entanto, eles parecem ser os únicos interessados em descobrir quem elas são de fato.

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Dessa forma, ao descrever o doloroso processo de desconexão entre as garotas e o mundo, Coppola constrói um pouco do que viria a ser sua assinatura estética como cineasta através de sua sensibilidade e sutileza ao comunicar suas intenções, fazendo uso quase que exclusivamente de imagens características, como takes das expressões fantasmagóricas das garotas, chegando a desmaterializá-las na tela em alguns momentos, assim como “dreamscapes” – cenas em que elas simplesmente fogem da realidade e devaneiam uma viagem de carro durante o nascer do sol numa manhã de verão, por exemplo, além das diversas passagens contemplativas que mostram a paisagem ao redor nos seus mínimos detalhes.

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Esse ímpeto por filmar tanto as expressões dos personagens quanto suas visões do mundo que os cercam é muito interessante, especialmente se analisarmos suas intenções por trás da obra – É uma história sobre personagens cujos desejos e ambições divergem em muito das pessoas que os cercam, e quanto mais eles perdem suas essências, maior é sua aproximação com o mundo físico; a paisagem se molda de acordo com as nossas necessidades e interpretações, recepcionando a todos de maneira igual e livre de julgamentos, sendo assim infinitas as possibilidades através de sua imensidão. É onde podemos imprimir nossas identidades e ser livres.

Algum tempo após seu primeiro trabalho, Coppola decidiu utilizar suas próprias experiências numa viagem recente a Tóquio como base para seu próximo projeto, assim como seu desejo de filmar com Billy Murray, ator que sempre foi fã. É interessante observar, nesses primeiros momentos de sua carreira, o tipo de história escolhida nos seus filmes e a forma como elas são contadas. Utilizando um livro cujo conteúdo parecia se adequar perfeitamente a uma transposição mais introspectiva, seu próximo passo foi tentar comunicar sua própria experiência pessoal através da mesma linguagem que desenvolveu no seu trabalho anterior; de maneira ainda mais refinada.

Assim, em 2003 foi lançado seu próximo filme: Lost in Translation. Dessa vez a história, de roteiro original da própria Coppola, consiste em descrever o período em que Bob Harris e Charlotte se conhecem, dois americanos que coincidentemente viajam no mesmo período para Tóquio e se encontram numa sensação em comum de desconforto, não apenas com a estranha cultura que estão interagindo, mas com suas próprias vidas. Charlotte é a jovem esposa de um fotógrafo que está a trabalho em algumas cidades do Japão, deixando-a num hotel em Tóquio durante sua estadia. Bob é um ator de meia-idade que viajou para gravar um comercial de bebidas.

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Coppola escancara com a câmera desde as primeiras cenas o tipo de história que pretende contar, com um plano nas costas de Charlotte, que não nos deixa ver seu rosto imediatamente, acompanhando-a enquanto acorda e se dirige até a enorme janela do quarto de hotel onde senta e contempla a vista panorâmica da cidade de Tóquio. Essa cena cria um emolduramento que deixa claro seu estado de espírito, embora só tomemos consciência disso no decorrer do filme, através de sua contínua aparição em momentos chaves: ela está perdida de si mesma, tentando se conectar com o mundo.

Bob nos é inserido na história por outro viés: vivendo seus dias sem conseguir levar nada a sério, sejam os costumes locais do país em que se encontra, seu trabalho como ator e, principalmente, as interações vazias com sua família, sua figura surge de uma perspectiva mais cômica, sempre debochando dos acontecimentos de seu cotidiano.

As duas perspectivas são perfeitamente adequadas às suas condições existenciais: vivido tanto do ponto de vista profissional quanto pessoal, Bob é um homem com uma relação familiar deteriorada que corrompeu sua visão de mundo, enxergando atores sociais por todos os lados. Charlotte, por outro lado, é uma jovem recém-formada em filosofia, intelectualizada, com uma visão sensível das coisas, repleta de incertezas sobre seu futuro, tanto em relação a realizações profissionais quanto sobre seu casamento. Dessa forma, embora os dois personagens existam em mundos distintos, suas necessidades em acreditar em suas interações, decisões, e até mesmo no mundo que os rodeiam, acabaram tornando suas incumbências complementares entre si. Enquanto Charlotte encontra no sarcasmo e irreverência do ator uma autoconsciência que parece faltar às pessoas que a rodeiam (sejam os amigos do marido e até o próprio), o que o torna, ironicamente, uma pessoa de verdade em meio aos atores sociais, Bob encontra na sensibilidade e perspicácia da estudante uma vivacidade que já não existia em sua vida. Sempre curiosa sobre o mundo ao seu redor, ela acaba por inseri-lo nas suas peripécias pela cidade, trazendo uma perspectiva sobre aquela cultura que Bob até então encarava com desdém. É claro que essa interação é facilitada pelo fato de serem dois americanos num país estranho, mas a diferença de localização é apenas o catalisador da desestabilização; são, de fato, estrangeiros em suas próprias vidas, e Tóquio se torna o cenário da construção de uma nova atmosfera construída pela interação de ambos.


Acompanhando o desenvolvimento dessa interação, somos expostos mais ao que os personagens veem e fazem do que o que ao que eles dizem. Os seguimos através de idas a festas, karaokês, longas corridas através das ruas movimentadas da cidade, visitas a templos antigos, casas de massagem; vemos suas trocas de olhares, os detalhes de pequenas ações como uma frase que não é audível ao expectador, mas somente aos que participam daquela atmosfera particular, ou o caminhar pelas ruas com um guarda-chuva transparente; e quase que numa síntese temática, viajamos através dos distintos e ainda harmônicos elementos que compõem uma metrópole contemporânea. Desenhando a narrativa através desses pilares, se em seu projeto anterior ela já havia impressionado em comunicar muito através de recursos minimalistas, aqui ela cria um universo de detalhes e insinuações estéticas que respira as próprias intenções: é uma crônica sobre as nuances da comunicação humana no século XXI, que existe de maneira subjetiva, atendendo as necessidades cada vez mais distintas de um mundo cada vez mais conectado, cujas diferenças, às vezes, se tornam sua legitimidade em meio à massa de seres vivos, ou se tornam um problema – como eu disse, subjetividade. E que embora a necessidade de se reinventar seja uma tarefa que possa se tornar cansativa ao longo do tempo, o caráter mutável da vida, do ser humano, e especialmente da contemporaneidade, também pode ser encarado como uma nova oportunidade de um recomeço através de microuniversos coexistindo no mundo globalizado.

Assim, compreendendo profundamente a delicada natureza da comunicação humana, essas ideias a respeito da transição introspectiva de sentimentos que já haviam surgido no início de sua carreira foram extrapoladas ao aparecerem praticamente como uma ferramenta metalinguística nesse filme, não somente por criar um universo puramente através de detalhes e sensações, mas pela discussão proposta em cima de sua própria vivência. Sofia Coppola, além de compreender a natureza do ser humano contemporâneo e suas diferenças necessidades e expectativas, tenta comunicar ao mundo, através da arte, suas impressões a cerca do que experiencia, com uma imagem de cada vez, pois ela, provando o próprio ponto, não precisa comunicar nada além de sua sensibilidade para conquistar seu lugar no mundo. Nada além de si mesma.

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Sobre o Autor

Gustavo
Estudante de Arquitetura. Grande apreciador de cinema, literatura e artes em geral, tendo interesse por crítica cinematográfica em específico, escrevendo textos em páginas e blogs pessoais desde então.

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