SHE-RA (2018) E A DESCONSTRUÇÃO DO MASCULINO E FEMININO

She-Ra e as Princesas do Poder: masculino, feminino e por que nenhum dos dois existe

Retomando a marca de She-Ra, a Princesa do Poder, animação de sucesso em meados da década de 1980, She-Ra e as Princesas do Poder, disponível agora pelo serviço de streaming Netflix, traz à contemporaneidade personagens já conhecidos. Seguindo a narrativa clássica onde She-Ra – a jovem Adora quando em sua forma humana – deve combater as forças malignas da Horda com a ajuda de sua magia e amigos, a nova animação, assinada por Noelle Stevenson e o estúdio Dreamworks, fomentou expectativas desde seu anúncio.

Com seus traços e cores o desenho remete a outros trabalhos atuais como Steven Universe e Hora da Aventura, aproximando-se da estética que garantiu às outras duas produções as atenções do público e da crítica. O que também se assemelha entre as animações é a lente através da qual o material é idealizado, conceituado e executado. Numa nova década de cenário midiático – e social – diferente ao de sua primeira encarnação, a roupagem de She-Ra e as Princesas do Poder valeu-se de mais do que trajes e uma espada brilhante… e acabou por instaurar certo desconforto.

She-Ra netflix artigo representatividade padrão animação desenho original netflix

Preocupado em construir a partir do material já existente, o trabalho traça novas possibilidades e complexidades para o enredo e para as figuras atuantes dentro do mesmo. A primeira diferença percebida (entre as armaduras original e re-imaginada) despertou críticas prematuras de uma parcela de consumidores da franquia e de cultura pop em geral. A parcela – majoritariamente masculina – que passou a rudemente perseguir Noelle em suas redes sociais, reivindicava, por exemplo, a re-feminilização da personagem principal, alegando que seu “apelo inicial” fora apagado em prol de novos traços, e traços que, segundo a parcela em questão, “esvaziam” todo o potencial de She-Ra.

Os incômodos, entretanto, em nada inviabilizaram a estreia de sucesso da animação, que logo em seus primeiros episódios permanece com sua proposta de reencarnação dos icônicos personagens. She-Ra, em 1980 mantida como aliada da Horda por magia, aqui toma consciência por si mesma, decidida e perspicaz, do mal que defende sem saber; Cintilante, antes acompanhando o padrão de curvas e destaques de She-Ra e das demais personagens femininas da série, hoje é uma jovem ambiciosa e corajosa, de corpo reconhecível e real, portadora de uma personalidade forte; e as relações femininas, antes tão simplistas e extremas, agora se desenvolvem como as interações entre pessoas distintas que de fato são.

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A lista de mudanças narrativas e estéticas é considerável, e entre elas, o masculino na animação passou também pela lente contemporânea de sua produção. O amigo Arqueiro (Bow, no inglês original), em 1980 branco, ruivo e de músculos protuberantes, aqui é um rapaz negro, doce, e que desponta dentre mesmices masculinas com sua personalidade própria, desafia parâmetros de masculinidade seguidos a risca por seu antecessor. Arqueiro, aqui representado não somente por sua destreza física e habilidade em combate, se expande para além da caracterização recorrente do gênero masculino, estilhaçando o frágil arquétipo.

O gênero, enquanto classificação humana a partir dos genitais, repercute diretamente no modo como o indivíduo deve – ou não – se portar em meio a sua sociedade, instruindo-o a expressar-se e comunicar-se através de balizas referentes ao que pertence – ou não – ao gênero que lhe é designado. Aqui não falo sobre transexualidade (por mais que pudesse, e devemos), mas sim sobre papéis de gênero. Na animação, tal padrão se depara com um freio. A virilidade, a implacabilidade e a resposta brusca são alguns dos termômetros centrais do quão homem um homem é, e Arqueiro, a flechadas, desmonta a masculinidade tóxica em tempos onde a mesma vem sendo finalmente reconhecida.

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Ao propor vulnerabilidade e sensibilidade enquanto aspectos de uma figura masculina, Arqueiro abre portas – e olhos. O personagem se torna então um menino possível, dotado de empatia e humor, preocupado em ser quem é, e não em “ser homem” – ou melhor, parecer ser. O “ser homem” corrói e destrói outros homens, os corta e mutila desde idades prematuras, condicionando o corpo e a mente a se enxergarem e a se expressarem através de muros e filtros, semeando brutalidade em infantes que colhem frustração quando adultos: limitar o menino é intoxicar o homem.

O que Arqueiro desmonta é um papel de gênero nocivo, automaticamente herdado por corpos que já possuem obrigações e restrições antes mesmo de se entenderem enquanto corpos. Os frutos da alternativa masculina apresentada podem ser identificados ainda na série, quando a recorrente dinâmica de desejo e posse entre masculino e feminino é substituída por relações de companheirismo, respeito e reciprocidade. A amizade entre homens e mulheres é não apenas possível como necessária, e quando representada na animação se torna um exemplo prático, para que se entenda a importância do desmonte e os reais efeitos da toxicidade genérica.

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Kyle, personagem integrante da Horda, força antagônica da série, é também exemplo prático das consequências do “ser homem” como nos é familiar. Participante da mesma dinâmica de treinamento e servidão na qual Adora estava inserida antes de desvencilhar-se, Kyle não se encaixa nos padrões que lhe foram instruídos. O “crescer na Horda” se assemelha ao “crescer homem” e a socialização que o ato implica.

Reprimido e rechaçado, Kyle é soterrado por uma comunidade que o exige características específicas através das quais, e somente as portando, ele alcançará aceitação. Encorajado constantemente a reagir e violentar, o rapaz não encontra espaço para sua personalidade visivelmente diferente – dócil, introspectiva – e acaba por tornar-se pária, o “outro” num ambiente que o torna prisioneiro, não participante. Kyle é o masculino tóxico em ação, extremo oposto de Arqueiro, retrato animado de uma realidade dominante.

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She-Ra e as demais princesas igualmente expandem o feminino para além de sua carga idealizada. Dentre as expectativas oriundas do papel de gênero que recebe sobre si, a mulher deve incorporar valores abstratos de teor emocional e psicológico: amor, amizade, ternura, empatia, perdão, compreensão. Por qual razão mulheres são instruídas e representadas de modo a obrigatoriamente exercerem tais valores… e por qual razão os homens estão isentos dos mesmos? O gênero, quando pautado em pressupostos e máximas, interrompe liberdades e boicota futuros afetivos, pessoais e sociais.

A massiva lógica dos papéis de gênero agiu inclusive sobre a própria criação da personagem, décadas atrás. Criada pela Mattel como uma “aliada” que estenderia a linha de brinquedos de um personagem masculino (He-Man), She-Ra nascia quase como estepe, vista como mais um degrau para a ascensão continuada de seu colega, o másculo herói mágico que conquistara as prateleiras e afeições de milhões de meninos – meninos esses que, visivelmente, dada a escolha feita pela Mattel, não habitavam o mesmo mundo das meninas, e vice-versa. Tal separação, além de irreal, é cruel.

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She-Ra e as Princesas do Poder equilibra em si o passado e o contemporâneo, expandindo o conteúdo original para o alcance de seu máximo potencial – o impulsiona para um novo horizonte possível, e não o subtrai. Por meninos que sintam e meninas que escolham, Adora empunha sua espada.


Sobre o Autor

Gabriel Folena
Vinte e três voltas ao redor do sol, e metade delas muito bem gastas por entre páginas, letras e telas. Das verdades que carrego, destaco que: 1) dinossauros clonados, poderes mágicos e a Matrix são reais, e 2) Daisy Buchanan não fez nada de errado.

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