NASCE UMA ESTRELA (2018) – CRÍTICA

Nasce uma Estrela: a arte da queda e da ascensão

Seguindo a trilha de suas duas versões homônimas anteriores, estreladas por Judy Garland (1954) e Barbra Streisand (1976), o mais recente “Nasce uma Estrela” é um encontro de estreias. Lady Gaga, bem-sucedida artista que domina a cultura pop desde sua introdução na mesma em 2008, e Bradley Cooper, o carismático ator de “O Lado Bom da Vida”, Guardiões da Galáxia, e Phill na franquia “Se Beber Não Case”, pela primeira vez exercem na grande tela seus papéis de atriz e diretor, respectivamente. Gaga e Bradley, que também contracena com a atriz além de dirigi-la, aqui brindam a arte numa intensa jornada de criação e sucesso, ambos executando com ares de surpreendente experiência a missão da qual se encarregam.

Nasce uma estrela crítica

Acompanhamos Jackson Maine e Ally. Ele, um cantor e compositor de carreira estável e vícios persistentes; ela, uma aspirante com imenso talento e personalidade forte. Uma vez em contato, ambos experimentaram a arte em suas múltiplas formas: a arte do canto, a arte da melodia, a arte do encontro e a arte de se fazer ouvir. Entre palcos, quartos, holofotes e álcool, somos espectadores de uma indústria incerta e daqueles que nela galgam um percurso próprio, apostando suor, lágrimas e vida.

Nasce uma estrela crítica

Enquanto mais um passo numa trilha previamente percorrida, a filmografia de Cooper se destaca de seus predecessores, competentemente agregando em sua narrativa a contemporaneidade na qual está inserido. Sequências no popular programa noturno norte-americano “Saturday Night Live” e a presença da premiação do Grammy, assim como a do festival Coachella, internacionalmente conhecido, trazem proximidade a plausibilidade – Ally e Jackson Maine podem estar hoje mesmo em sua televisão, ou em turnê, ou se apresentando numa arena próxima de você. Dessa forma, a obra é datada de maneira fluida, e tais elementos somam à proposta da produção: a estrela a nascer é atual, moderna e reconhecível ao público presente.

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Ally, vivida por Gaga, é simpática aos olhos – e aos ouvidos. A personagem brilha como fora escrita para fazê-lo, beneficiando-se imensamente da competência da atriz que a encarna. Gaga mais uma vez se mostra versátil, munida de sua voz potente e de uma atuação capaz. Não se engane achando que ela está vivendo ela mesma, como muitas vezes foi dito sobre seu papel televisivo em “American Horror Story” como a extravagante Condessa – papel que, ainda assim, a garantiu um Globo de Ouro. O personagem de Cooper, por sua vez, não se mantém atrás em complexidade e substância. Cooper já nos provou, no supracitado “O Lado Bom da Vida” e em “Sniper Americano”, que seu lado dramático funciona tão bem quanto o seu humorístico, e junto à Lady Gaga isso nos é apresentado mais uma vez com maestria.

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Através do comportamento instável e da personalidade introspectiva de Jackson (Cooper), é explorada uma narrativa que constantemente retorna às telas, páginas e instiga debates: a arte, o artista, e a sanidade que precariamente se equilibra entre ambos. O arquétipo apresentado – o artista abatido e quimicamente dependente, presente inclusive na versão de 1976 – traz consigo a possibilidade de discussão sobre saúde mental, criatividade e a dúbia caracterização do “gênio ferido”, “atormentado”. Em figuras artísticas reais como Amy Winehouse, Kurt Cobain e Janis Joplin, assim como em figuras históricas igualmente do meio criativo, como Van Gogh, observamos a pré-disposição à “romantização” de seus demônios pessoais em prol de sua relevância artística por parte de admiradores e da mídia.

Nasce uma estrela crítica

Estaria toda mente criativa, então, fadada à loucura? Seria toda arte fruto de um trauma, e seria seu destino eventualmente tomar para si o próprio artista que a produz? A linha é ténue, e a cautela em sua representação não apenas é válida, como necessária. A partir dos vícios de Jackson, então, Nasce uma Estrela ilustra tal relação. Em um ano onde tivemos tantos artistas em momentos de imensa vulnerabilidade, variando entre mortes, overdoses e internações, é importante debater como a indústria da música afeta a saúde mental dos que nela estão inseridos, e a partir da reflexão, vislumbrar quais são as medidas necessárias para que isso acabe.

Nasce uma estrela crítica

A indústria em si não sai ilesa de questionamentos. Ao longo de Nasce uma Estrela, indagações perpassam a vivência artística de seus personagens: seria essa pessoa alguém real que possui algo a dizer, ou apenas um produto moldado para consumo? E como isso a afeta? “Nasce uma Estrela” se demonstra ciente do meio que aborda.

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Apesar de algumas falhas resultantes de quebras de ritmo, há de se destacar as cenas musicais incríveis, todas gravadas ao vivo e com jogos de câmera que nos apresentam uma bela química entre os dois atores, além de um dinamismo entre o palco e os personagens. Dentre os números musicais, atente para “Black Eyes”, “The Shallow” e “I Will Never Love Again”.

CRÍTICA EM COLABORAÇÃO COM LUISA RODRIGUES