CRÍTICA: LONGE DESTE INSENSATO MUNDO (2015) – O melhor do romance britânico!

Longe Deste Insensato Mundo possui certos ingredientes secretos que te hipnotizam e te prendem, em uma narrativa tão pessoal de Thomas Hardy, que, mordendo a minha língua, Jane Austen não conseguiria atingir.  David Nicholls trabalha lado a lado com a obra de Hardy e nos contempla com um roteiro um tanto audaz para uma adaptação complexa em sua simplicidade. Temos tanto “Senhor, senhorita” quanto “nós, eles e você”. A adaptação de David carregou um ponto a mais para a obra de Hardy e acentuou os pontos mais fortes. Um dos melhores roteiros adaptados que já vi.

far-from-the-madding-crowd-2

 

 

 

 

Claro que todo o trabalho de direção de Thomas Vinterberg carrega nas costas a responsabilidade de representar uma obra famosa em sua literatura, contando já com uma adaptação para o cinema e uma para tv. Vinterberg, se distancia de seu trabalho em The Hunt, mas sutilmente sua narrativa está ali, em cada canto, cada frame, em cada close em Miss Everdine ou em Oak que nos sustenta até o final, nossa sede eterna por algo que nos prenda em mais uma história de amor.

Bathsheba Everdine seria a nossa Elizabeth Bennet, no caso. Mas, diferente de Bennet, que ainda carrega aquela centelha infantil e seu amadurecimento vem de ideias e não de experiências. Miss Everdine é tanto uma personagem que nos é apresentada nessa fase, quanto ainda acompanhamos seu amadurecimento como mulher, líder, empresária, esposa e por todas as suas decepções. Sua personalidade mimada, é ultrapassada por seu jeito espontâneo e independente, sempre em busca do melhor para si e para sua fazenda.

FAR FROM THE MADDING CROWD (2015)

 

 

 

 

 

 

Claro, que tudo isso se deve ao talento de Carey Mulligan. Imaginar Everdine de outra forma não seria possível. Seria como se Thomas Hardy, em 1874 estive pensando em um futuro onde Mulligan existisse, e assim escrito Bathsheba Everdine. Não que Julie Christie da adaptação de 1967 ou Paloma Baeza de 1998 – não tivessem alcançado sua glória com a personagem. Mas Carey carrega essa áurea, esse encanto, quase étereo de uma Inglaterra vitoriana. Perfeita para o papel.

download (2)

 

 

 

 

 

 

 

A sinopse do filme se diz “uma mulher se envolve com 3 homens”, mas é justamente o contrário. Três homens se veem envolvidos por essa mulher forte, atraente, decidida e independente e querem conquistá-lá, querem tê-la para si e protege-la. Mas primeiro, eles precisam entender que ela não quer ser protegida e sim lutar o lado de seu amado escolhido.

O ano de 2015 foi também o ano de Matthias Schoenaerts – ele trabalhou não só neste longa como também em Suite Francesa ao lado de Michelle Williams, A Little Chaos, ao lado de Kate Winslet e ainda em Garota Dinamarquesa como coadjuvante. Ele é um ator que poderíamos dizer, inexperiente, ao caso, comparado com a própria Mulligan. Ele também poderia não ser o mocinho que todos escolheriam, afinal, estamos falando de uma versão pastoral de Sr. Darcy, mas Gabriel Oak não poderia ter sido melhor na pele de outro ator. Seu olhar doce e sempre cheio de coisas a dizer, cercam a mente de Everdine,  seu trabalho duro como personagem, realmente é uma surpresa a entrega do ator, tanto quanto a nossa e torcemos por cada segundo para que os dois terminem juntos.

 

 

 

 

 

 

Michael Sheen – um ator ao qual gosto tanto, que ainda precisa se redimir por Crepúsculo, mas trabalho é trabalho, né? – aqui, do núcleo principal, é o mais velho, um veterano em meio a comédias românticas inglesas e dramas de época. William Boldwood é um homem sozinho, amargurado pela solidão, que encontra essa esperança de ter alguém para amar na bondade de Miss Everdine. Devo dizer que é um dos melhores papéis de Sheen – ele consegue passar sua desolação com classe e talento – só queria que ele fosse mais aproveitado pela industria.  

Tom Sturridge (Waiting for Forever) é o nosso atraente e insensível Sargento Frank Troy. É como se no final de tudo, Elizabeth Bennet tivesse casado com o Capitão Wickham – essa analogia faz muito sentido – Troy é superficial, mimado, sexy, o estilo bad boy vitoriano e ainda assim, pela sua ousadia, conquista a nossa personagem principal. Tom Sturridge consegue passar todos esses estilos com seu sorriso torto e sua lábia e por um instante, apenas por um instante, até chegamos a cogitar que ele seria sim um bom moço. Como adendo, os trabalhos coadjuvantes de Juno Temple sempre se elevam ao nível de um núcleo principal, excelência, sempre!

0511-LRAINER-MADDING

 

 

 

 

 

 

Longe Deste Insensato MundoFar, para quem não está acostumado, pode parecer maçante e até mesmo com um final previsível e cheio de personagens aleatórios. Mas, nada mais é, do que mais uma obra prima de Thomas VinterbergO ar fica pesado com a tensão entre Everdine e Oak, a forma sutil da teimosia de um sentimento que poderia se perder pelas convenções ou até mesmo os próprios limites dos personagens, em enxergar a verdade. Um clássico que mal acabou de estrear.