VERGEL (2017) – CRÍTICA

Em Vergel, Kris Niklison dirige um breve conto brasileiro-argentino, ambientado num apartamento no qual cabem duas mulheres, pedaços de mata, e um luto inteiro. A personagem protagonista, interpretada por Camila Morgado, sofre com a repentina morte de seu marido durante as férias do casal, e agora ilhada num local estrangeiro, é necessário que as burocracias do morrer sejam resolvidas por ela mesma, sozinha.

Vergel

A personagem, Ana Clara, lida com a dor e o tédio, alternando entre cômodos o peso que carrega solitariamente. Entretanto, a também inesperada presença de uma vizinha, interpretada por Maricel Álvarez, incrementa a dinâmica de seu processo. Da negação à aceitação, Camila encarna com apatia e voracidade os estágios do deixar ir, e quando a recém-chegada companhia colide com seu torpor, o processo se catalisa.

A relação criada é rápida e intensa, tal como as sensações vividas pela protagonista, sem uma lógica aparente aos olhos de quem não as sente. Embebidas no dia-a-dia quente e letárgico, as personagens descobrem entre si uma camaradagem que rapidamente se traduz em desejo, mas quaisquer que sejam suas motivações, ambas não se harmonizam. Visivelmente desestabilizada por sua perda e ainda a processando, Ana opta pelo consolo breve do toque alheio, enquanto sua vizinha, desconhecendo as razões da solidão de sua parceira, a acompanha com entusiasmo. O resultado é uma relação incerta, propensa a um novo luto, criado por aquela que desejava abandonar um outro – não há certeza de vida.

Vergel

A ambientação é claustrofóbica, apesar do extenso jardim – quase babilônico – que ocupa a varanda sob o sol. O luto, como o jardim, é visitado em diferentes momentos, e o cenário lentamente se expande com o próprio processo. A visão limitada pela dor retoma suas proporções ao passar dos dias, revelando o bairro a medida que o luto se cura. Passamos, então, a ter flashes de uma rotina ao redor, janelas abertas para outras vidas, enquanto a protagonista reabre as suas próprias.

Vergel

Ainda que esteticamente interessante, Vergel acaba por incorporar, em alguns momentos, mais afundo o tédio que representa devido ao ritmo marasmático. Contudo, ainda assim nos deparamos com uma narrativa de temática clara através de seus personagens. Vergel chega ao circuito brasileiro no dia 7 de Fevereiro.

CRÍTICA REALIZADA POR GABRIEL FOLENA