PRAIA DO FUTURO (2014) – CRÍTICA:

Praia do Futuro – Ou o mar de nostalgia criado por Karim Aïnouz

Um salva-vidas cearense, seu irmão e um caso de amor com um turista alemão. Na superfície esses são os protagonistas de Praia do Futuro, o filme dirigido por Karim Aïnouz e escrito por Felipe Bragança, Karim Aïnouz e Marco Dutra. Conforme assistimos, percebemos que os protagonistas na verdade são as relações humanas e os sentimentos que nutrimos.

Praia do Futuro

Admito que escrever essa crítica foi duro. Assistir também foi. E não acredito que esta tenha sido uma obra para ser fácil de ver. Há alguma coisa, tanto nas performances, quanto na narrativa e no visual, que pesam. O azul é uma cor muito presente, o tempo todo. E a escolha não é em vão. O azul é a cor que simboliza a frieza, a monotonia, a depressão. Sentimentos difíceis de carregar que ficam palpáveis na narrativa de  Praia do Futuro.

Enquanto conhecemos a vida de Donato (Wagner Moura), um salva-vidas que enfrenta sua primeira perda no mar. Conhecemos também Konrad (Clemens Schick), um alemão amigo da vítima. Os dois se envolvem em um momento particularmente difícil. As emoções apresentadas a partir dessa perda, do medo da morte, da dificuldade em continuar, são o que levam o filme adiante. 

Praia do Futuro

Donato resolve então seguir para Berlin com Konrado, em meio a tentativa de se entender. A dualidade entre seguir por aquele caminho, ou voltar à sua antiga vida. As incertezas sobre seus sentimentos, e suas escolhas. O espectador fica preso em meio à um misto de perguntas sem respostas que segue até o final do filme. Mas a vida precisa de respostas? Não há uma correta.

A passagem do tempo trás de volta Ayrton, divinamente interpretado por Jesuíta Barbosa. Irmão de Donato, vai atrás do irmão que some e se isola da família. Há muita dor no personagem. Um luto por perdas que não foram possíveis de superar. Um jovem que carrega em si a busca por entender porquê do abandono. O reencontro pesa no peito da gente. 

Praia do Futuro

De certa maneira me senti presa na narrativa de Praia do Futuro. Mas não de uma forma agradável, como um filme que não conseguimos parar de assistir. Senti um peso, um desconforto, um desagrado. É sem dúvidas um filme de emoções. Não sei se foi a intenção do diretor Karim Aïnouz, mas foi o que me passou. E talvez isso não seja ruim. Talvez esteja justamente no fato de criar um ambiente tão rico emocionalmente que esteja o melhor de A Praia do Futuro. Criar uma obra que atinja de maneira tão direta quem assiste não é a tarefa mais fácil do mundo, mas ele consegue de forma primorosa.

A edição de Isabela Monteiro de Castro é um ponto a ser exaltado. Os cortes secos, as escolhas visuais, montam e enriquecem o filme. Peca um pouco na sonoplastia, senti que era um filme muito silencioso, quieto. Talvez esse tenha sido o objetivo, mas me incomodou. Saber então que Heroes do David Bowie era a música tema, me desagradou ainda mais. A obra passa longe do clima geral da música. 

Praia do Futuro teve sua estreia no prestigiado Festival de Berlim em 2014, onde concorreu ao Urso de Ouro, perdendo para o chinês Bai Ri Yan Huo, do diretor Diau Yinan.

CINDERELA POP (2019) – CRÍTICA:

Cinderela Pop – Uma divertida releitura do clássico conto

A leva de filmes com roteiros adaptados de livros teen têm crescido no Brasil nos últimos anos. Só de 2015 para cá tivemos Tudo Por Um Popstar; Fala Sério, Mãe; É Fada e Meus 15 anos. Mais e mais autoras nacionais fazem sucesso entre os adolescentes. E o mercado audiovisual acompanha o ritmo. Lançado em fevereiro, Cinderela Pop segue portanto essa linha e faz uma engraçada e divertida releitura do clássico conto de fadas.

Cinderela Pop

O filme segue a história de Cíntia (Maísa), uma adolescente que sonha em se tornar DJ profissional. Com a separação de seus pais, ela ganha uma madrasta malvada (Fernanda Paes Leme) e duas irmãs postiças (Letícia Pedro e Kiria Malheiros). Elas fazem de tudo para atrapalhar seus objetivos. Diferente do original, em que as doze badaladas marcavam o fim do baile, a meia noite aqui marca o fim do seu set como DJ. E a volta a sua realidade como adolescente normal.

O mais divertido para mim foi ver a maneira como Cinderela Pop se conectou com a realidade dos adolescentes de um jeito inteligente e fora do comum. A protagonista é dona de si. Forte e moderninha, como podemos dizer. Diferente da releitura da Disney nos anos 2000, imortalizada no clássico, A Nova Cinderela com Hilary Duff como a principal. Não senti um peso tão grande na parte dramática. Sobretudo gostei que os pais não estivessem mortos, como geralmente é contada a história. Eles na verdade têm um papel central, e a relação de Cíntia com sua mãe é muito bem explorada.

Cinderela Pop

As atuações são boas e convincentes. Para quem conhece e acompanha o trabalho da Maísa, pode rolar a impressão de que ela interpretava a si mesma. O que não é um super problema afinal complementa a personagem. O príncipe Freddy Prince foi interpretado por Felipe Bragança (Eu Fico Loko) e sua prima e fiel companheira ficou a cargo de Giogava Grigio (Eu Fico Loko, Chiquititas).

Com direção de Bruno Garotti (Tudo Por um Popstar), Cinderela Pop tem o roteiro assinado por Bruno Garotti, Flávia Lins Marcelo Saback. Paula Pimenta, autora do livro homônimo que inspirou a obra também faz participa da criação. Recentemente inserido no catálogo da Netflix, já está disponível no Brasil e em diversos países.