PRIMEIRO ANO (2019) – CRÍTICA:

PRIMEIRO ANO – A REALIZAÇÃO ATUAL DO CINEMA FRANCÊS

O cinema francês tem a grande e maravilhosa, responsabilidade e característica, de conseguir criar histórias que conversam intimamente com o nosso senso pessoal de enxergar as coisas. Neste novo filme de Thomas Lilti, Primeiro Ano, as margens dos meus 30, recém formada, esse pessoal foi como um tiro no estômago. Mas no bom sentido! 
Primeiro Ano, cinema filme francês crítica resenha
Em Primeiro Ano acompanhamos a história de Benjamin e Antoine com uma certa distância, no começo. Não associamos nossas características as suas primeiras experiências. É como pegar uma peça teatral pela metade. Mas conforme o primeiro ato segue e conseguimos construir um senso empático a favor de Benjamin e Antoine, enxergamos, tal como um espelho, nossa realidade acadêmica nestes personagens. 
É muito importante perceber a mensagem que Thomas Lilti quis passar com Primeiro Ano. O sistema é falho, decadente e sem esperanças de melhorar. Falo isso de uma perspectiva de recém formada. Não existe oportunidade para todos. Estar dentro de uma universidade lhe permite conhecer uma outra faceta de si mesmo, mas em troca, é necessário abrir mão do que realmente somos. 
Primeiro Ano, cinema filme francês crítica resenha
Está é a premissa de Antoine. Tudo o que ele mais deseja neste mundo é ser médico. Seu sonho em exercer medicina lhe priva da oportunidade de viver. Sua família soa como estranhos entrando na sala, pela tarde. Mal os conhecemos, mal os esperamos. Mas não importa o quanto ele estude, o quanto ele se esforce. Ele ainda continua “chegando quase lá”, mas nunca passa da linha de chegada. 
A interpretação de Vicente Lacoste conseguiu retratar bem essa ansiedade pesada que o sistema nos coloca. Seu Antoine é caracteristicamente real. Consegui me assistir aos olhos de Antoine e suas cenas me tocaram de uma maneira muito introspectiva. Quase como se me lembrando das coisas que vivi dentro da universidade. 
Primeiro Ano, cinema filme francês crítica resenha
Em contra peso, encontramos Benjamin, em seu devido Primeiro Ano. E o personagem de William Lebghil é outro lado desta mesma moeda de identificação. Em entrevista, Lilt declarou: 

“A violência social é inicialmente cultural” 

E isso é indubitavelmente real. Benjamin, não é preguiçoso ou sortudo. Não. Ele é intelectualmente privilegiado. Seu ambiente de criação, sua base de valores, lhe deu a oportunidade de expandir sua linha de conhecimento. Lhe garantindo uma facilidade em abrir portas. O que é completamente relacionável a minha visão pessoal da vida universitária. Nunca precisei “estudar”, pois tive o privilégio de crescer em um ambiente ricamente acadêmico. 
Primeiro Ano, cinema filme francês crítica resenha
Eu apenas precisava garantir, entender. E essa é a diferença de Antoine e Benjamin em Primeiro Ano. Um não é mais inteligente do que o outro. Um não é mais aberto do que o outro. O Outro só teve mais vantagens em sua herança cultural. E o sistema se aproveita disso. O que cria uma separação cultural e social muito grande entre as castas universitárias, entre verbas para os cursos, entre busca e contratações em empregos…  Essa separação deliberada é algo racionalizado dentro do sistema, ou pessoal? 

O que separa o intelecto, do saber? 

Em Primeiro Ano, a direção inteligente de Thomas Lilti, lhe coloca na ponta da cadeira, em meio a piadas, um comichão dramático que não lhe deixa em paz. O mesmo comichão que lhe incomoda gradativamente ao você perceber que: Este filme não é leve, mas sim uma busca empática sobre nossa própria natureza e até onde buscamos compreender o próximo. 
Primeiro Ano, vale cada centavo do ingresso e é necessário reassisti-lo. Ao menos uma vez no ano. Para nos lembrarmos até onde chegamos e pegarmos impulso para seguir em frente. 

DE CARONA PARA O AMOR – CRÍTICA:

DE CARONA PARA O AMOR – A receita da comédia romântica francesa

Como pessoa apaixonada por cinema, eu tenho um grande defeito: não sou a maior fã de cinema francês. Eu sei, muita gente ama, mas pessoalmente os filmes nunca conversaram muito comigo. Mas acabou surgindo a oportunidade de ir assistir a cabine de De Carona Para o Amor e pensei: por que não dar uma chance?

De Carona Para o Amor

Dirigido, escrito e protagonizado por Franck DuboscDe Carona Para o Amor conta a história de Jocelyn. um quarentão mulherengo e mentiroso patológico. A primeira sequência do filme mostra o personagem usando todas as características descritas, não deixando margem nenhuma para dúvidas. 

A trama se desenrola com Jocelyn conhecendo Julie (Caroline Anglade), a lindíssima vizinha de sua falecida mãe e mentindo para ela sobre o fato de ser cadeirante. O que ele não esperava é que Julie tivesse uma irmã que também é cadeirante, e tivesse tido a ideia de juntá-los. O que antes era apenas uma “brincadeira” passa a ter um valor muito maior para inúmeras outras pessoas, e o resto do filme se dá com o desenrolar de como Jocelyn sairia dessa.

De Carona Para o Amor

O filme tem muitos pontos que fogem do humor politicamente correto, muitas vezes fazendo com que o telespectador sentisse raiva do personagem, tornando difícil como mulher não pensar e refletir sobre a objetificação de todas as mulheres do filme, e de como eram claros os usos de recursos de câmera para isso.

Apesar desse desconforto, vendo o filme podemos perceber que no fundo o intencional é que esse desconforto estivesse presente. Apesar do tom de humor sobre, existe uma crítica na maneira como tudo se desenrola, em certo ponto o próprio Jocelyn começa a enxergar as coisas de maneira diferente e pensar o que ele estava fazendo da vida.

De Carona Para o Amor

O preconceito com pessoas com deficiência também está muito presente, suas dificuldades como cadeirantes e a intensidade de seus sentimentos. Gostei que nesse ponto o roteiro foge do típico papel de “coitado” atribuído a todos que possuem alguma deficiência. Pelo contrário, a personagem de Alexandra Lamy leva a vida de forma singular. Seja tocando o violino na orquestra depois de passar 20 horas sentava em um ônibus ou sendo tenista profissional.

A atriz estava muito bem no papel, e suas últimas cenas para mim são as melhores. Podemos comentar o fato de não terem escolhido uma atriz cadeirante para o papel, mas aí seria uma discussão para um outro momento.

De Carona Para o Amor

Contando com uma boa fotografia que rendem momentos lindíssimos na tela, e uma direção de arte que pensou em detalhes que fizeram toda a diferença, o filme possui seus momentos. O humor apesar de certas vezes problemático, convence. Seu final não é dos mais originais, mas também não é algo que se espere em filmes do gênero. Acho que ele cumpre seu propósito, e acabei saindo do cinema com o coração aquecido. No final acho que ainda acredito na mudança das pessoas.

De Carona Para o Amor fez parte do Festival Varilux de Cinema Francês e está na média dos filmes românticos, com uma receita que não foge do convencional, mas funciona dentro de seus padrões.