TIM BURTON, FANTASIA E EDWARD’S – ENSAIO:

 A celebração ao macabro de Tim Burton!

Tim Burton é um dos diretores mais emblemáticos e excêntricos que a sétima arte possui, assistir a um filme do diretor e não reconhecer que a obra tem a mão dele é praticamente impossível, visto a originalidade em que imprime sua forma de enxergar a vida nas suas produções.

O diretor, que também é roteirista, produtor e se aventura em participações como ator nos seus projetos, alimenta desde muito novo o seu fascínio pelo macabro e pelo mórbido e expressa isso de forma única, principalmente em suas  produções nas décadas de 1980 e 1990, como Os Fantasmas se Divertem (Beetlejuice, 1987), Edward, mãos de tesoura (Edward Scissorhands, 1990) e O Estranho Mundo de Jack (Tim Burton’s The Nightmare Before Christmas, 1992).

Tim Burton

Em Edward, mãos de tesoura, Tim Burton nos apresenta a história do jovem Edward, (Johnny Depp), criado por um inventor, (Vincent Price), que morre antes de completar sua obra, deixando Edward com tesouras no lugar das mãos e completamente solitário.

O filme parte do momento em que a vendedora de cosméticos, Peg Boggs (Dianne Wiest), com o intuito de aumentar suas vendas vai parar na sombria propriedade de Edward nas montanhas e decide levá-lo para casa.

Assim acompanhamos a tentativa de Edward de se encaixar na vizinhança, tendo de aprender a lidar com o convívio social que nunca havia tido e com o sentimento do primeiro amor que desenvolve por Kim, (Winona Ryder).

Tim Burton

O Frankestein de Tim Burton é tímido, assustado, não distingue muito bem o certo do errado e tem dificuldade em se conectar com as pessoas.

As tesouras podem ser vistas como um tipo de simbolismo que ajuda a compor o personagem, a falta de habilidade em se conectar com as pessoas é complementada pela presença das tesouras que  impedem qualquer toque.

O próprio Tim Burton ressalta isso em um relato contido no livro “ O Estranho Mundo de Tim Burton” de Paul A. Woods: “ As tesouras causam certo efeito que me agrada, pois impedem o toque. Eu só queria um personagem que, visualmente, fosse ele mesmo, interna e externamente. É uma representação visual do que tem lá dentro”.

Tim Burton

O personagem de Edward é ao mesmo tempo simples e complexo e ao analisarmos podemos encontrar muito do próprio diretor em sua concepção.

Tim Burton era um menino tímido, dado como esquisito e que tinha como hobby assistir filmes de terror, cresceu com os filmes de Vicent Prince, tendo sido seu primeiro curta (Vicente, 1982), uma animação sobre um menino fascinado pelo macabro que desejava ser Vicent Price.

Ainda no livro de Paul A. Woods, Burton relata “Houve um longo período no qual simplesmente não conseguia me conectar com ninguém ou ter algum tipo de relação. Todos passam por um período assim, quando há uma sensação de que você não pode se conectar, não pode tocar”.

Além do personagem principal, temos diversos personagens pitorescos que complementam a narrativa da vida no subúrbio da Flórida. Temos a religiosa fanática, a madame, o menino rico e valentão que tem problemas com os pais, a típica família norte americana.

A relação que o protagonista começa a construir com a vizinhança hipócrita e fofoqueira é um claro retrato de como o diferente é tratado na sociedade. Edward, primeiramente, é recebido de forma aberta por todos. Conforme seus dons com as tesouras vão sendo explorados pelas pessoas. Primeiro nos jardins, depois nos cachorros e cabelos das mulheres do bairro. Ele teoricamente vai ganhando cada vez mais a afeição das pessoas. Porém, quando comete o primeiro erro, esse mesmo círculo de pessoas não demora a julga-lo. Principalmente por sua aparência.

Todos nós podemos nos identificar com Edward nessa busca por ser aceito em meio a uma sociedade que julga todos os nossos passos.

A construção da vizinhança suburbana que Tim Burton apresenta é bastante emblemática e feita de maneira a contrastar com o protagonista. As casas pintadas em cores pasteis, as ruas sinuosas, os jardins. Fica claro, por exemplo, o contraste entre as casas e a propriedade onde vivia Edward, do sombrio ao alegre.

A produção se empenha em deixar tudo harmoniosamente encaixado. Até as cores das comidas casam perfeitamente com os tons dos cenários. Vemos isso claramente na cena do churrasco em que Edward é apresentado a vizinhança. Outro acerto é a trilha sonora de Danny Elfman: triste, bonita e delicada. Inesquecível para todos que assistem à produção, inevitavelmente.

A magia singular de Tim Burton tem sua melhor performance em Edward, mãos de tesoura, um roteiro singelo, mas que carrega diversos simbolismos. Aqui vemos todas as excentricidades que fazem Burton ser quem ele é.

Como fã da filmografia do diretor considero esse um dos ápices da sua carreira. É como ver uma de suas animações stop motion ganhar vida. E se você, assim como eu, cresceu nas décadas de 1980 e 1990, com toda certeza carrega com carinho na memória a história do menino com mãos de tesoura.

Curiosidades

Esse foi o último filme do ator Vincent Price antes de falecer.

Tim Burton

O filme marca o começo da longa parceria do ator Johnny Depp com o diretor. Podemos vê-los juntos em  Ed Wood, A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça, A Fantástica Fábrica de Chocolate, A Noiva Cadáver, Sweeney Todd, Alice no País das Maravilhas e Sombras da Noite.

UMA MANHÃ GLORIOSA – DICA ATM:

UMA MANHÃ GLORIOSA – O lada nada glorioso do jornalismo

Sempre quis ver Uma Manhã Gloriosa, mas por algum motivo nunca tinha parado para assistir de fato. Aproveitei uma folguinha que tive essa semana e resolvi riscar esse filme da longa lista do que assistir e tive uma grande surpresa ao me divertir de fato com o filme!

Uma Manhã Gloriosa

Com roteiro de Aline Brosh McKenna (O Diabo Veste Prada) e dirigido por Roger Michell (Um Lugar Chamado Nothing Hill), o filme inverte a ordem típica dos acontecimentos e depois de estrear na tela do cinema, vira um livro escrito por Diana Peterfreund, que romantiza o roteiro da comédia.

Contando a história de Becky Fuller (Rachel McAdams), uma proeminente produtora de tv que sonha em trabalhar no Today Show, mas que começa a carreira como produtora do programa local Good Morning New Jersey, até ser despedida e se vê obrigada a conseguir um emprego no decadente DayBreak.

Uma Manhã Gloriosa

Fuller é a típica protagonista workaholic que coloca seu emprego à frente de tudo em sua vida, e quer provar a todos que seu sonho de ser uma produtora de tv não é uma loucura. Logo no primeiro dia como produtora executiva do programa, Becky Fuller agita as coisas e demite o âncora, fazendo com que comece uma busca para um novo âncora à altura e que possa fazer com que o programa não seja cancelado.

Bebendo da água de filmes como Nos Bastidores da Fama (1987) e Como Perder Um Homem em Dez Dias (2003), o longa conta de forma fácil e leve os dramas e perrengues enfrentados por quem trabalha no meio jornalístico, onde o que importa são números e mais números, as vezes muito mais do que a informação.

Uma Manhã Gloriosa

Mesmo esse não sendo o tema central do filme, a crítica é clara para aqueles que querem enxergar – muitas vezes para chegar a esse resultado os programas jornalísticos se distanciam de sua forma primária de transmissores de notícias para serem programas de entretenimento. E tudo bem. Mas por que não ser os dois?

Com um elenco super carismático e um time de peso completado por Harrison Ford – que faz as vezes do vilão (será?) e Diane Keaton como a estrela pomposa do jornal, Uma Manhã Gloriosa é uma comédia feel-good que apesar da sua bilheteria decepcionante faz com que aqueles que o assistam sintam uma pontinha de esperança de que no final todos os perrengues que a gente passa nessa vida não são em vão quando se tem um sonho.