VIDA SELVAGEM (2018) – CRÍTICA

Estados Unidos, 1960. Família nuclear, três mundos entre quatro paredes, e o desconforto de não mais se reconhecer no papel designado sob o teto compartilhado. É essa a breve descrição de Vida Selvagem, lançado em 2018 e dirigido por Paul Dano, mais conhecido por seus papéis em Pequena Miss Sunshine e Ruby Sparks. O drama se mostra como uma estreia consistente, afetiva e objetiva do ator em sua posição de direção – consistente exatamente por conseguir expor, com afeto, a realidade direta e cortante do distanciamento familiar.

Vida Selvagem crítica dica de filme

Após uma demissão inesperada, Jerry Brinson (Jake Gyllenhaal) opta por uma oportunidade de emprego distante e arriscada, como auxiliar no apagamento de um grande incêndio florestal. Em casa, Jeanette (Carey Mulligan) e Joe (Ed Oxenbould) permanecem em espera e dúvida, num lar desarranjado pela conturbada maneira com a qual o casal lidou com seus imprevistos. Da questão financeira à relacional, o matrimônio é posto a prova juntamente com os laços materno e paterno. Joe vê na separação induzida de seus pais o primeiro grande obstáculo de uma vida doméstica que, até então, não o inspirava receios. Através do jovem, questionamos: de onde nasce a desunião?

Vida Selvagem crítica dica de filme

É comum enxergarmos famílias enquanto coletivos, e necessários são os momentos nos quais as enxergamos enquanto pessoas. Pessoas que, por escolha, decidiram manter-se juntas em prol de um laço que lhes trouxe satisfação, significado, conforto, propósito. Entretanto, enquanto indivíduos, carregamos histórias próprias cujas páginas e linhas, inevitavelmente, não combinarão em rima com as dos demais, e nenhuma relação humana é isenta de tal ocorrência. O que se faz, e o que se sente, quando é retomada a consciência de si em meio a uma dinâmica onde você não mais encara consequências por si só? A família, enquanto estrutura, se desmantela ao não se ouvir enquanto pessoa.

Em Vida Selvagem, o que acompanhamos é o exato momento da retomada, do voltar a se reconhecer enquanto aquele alguém que existia antes dos votos, antes dos filhos, antes dos empregos. Antes de dividir e compartilhar, você era outro – agora, como você divide e compartilha estando em par, ou em trio? Como você ouve, como você fala? O “você” em meio ao “nós”, numa estrutura acostumada a não considerar as peças que a formam, não se torna soma: é divisão.

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Joe, agora solitário – talvez sempre estivera – reencontra seu espaço numa dinâmica nova, numa família que atingiu um derradeiro momento de empasse em seu convívio. As mais interessantes sequências do filme – e agora entre as mais interessantes que assisti nos últimos tempos – retratam justamente Joe, através de sua recente aproximação com a fotografia, lidando com a perda e a distância através das lentes. Seu olhar, transformado entre quatro paredes, agora vê o mundo diferente, também, e a emoção é muito bem canalizada em tais momentos. Irônica ou coincidentemente, o atestado do sucesso familiar como o imaginamos é sempre o porta-retratos.

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Vida Selvagem, além da cativante estreia de Dano enquanto diretor, traz também mais ótimas performances de Gyllenhaal e Mulligan. Oxenbould, como o inocente Joe, encarna convincentemente o menino perdido no fogo cruzado de identidades a sua volta, e então somos deixados torcendo pela melhor das conclusões: aceitação. Recentemente exibido neo Festival de Cinema do Rio, o filme chega em breve ao grande circuito.

CRÍTICA REALIZADA POR GABRIEL FOLENA