HEREDITÁRIO – CRÍTICA ( 2018 )

Hereditário – Relações familiares e o terror entre gerações

Após uma grande temporada de filmes jump scares, como Invocação do Mal e Sobrenatural, a época do pós-horror cresce cada vez mais, agradando a crítica e, principalmente, os fãs de filmes mais independentes. Uma das principais responsáveis por esse crescimento é a produtora A24, que nos presenteou com o polêmico ‘’A Bruxa’’ em 2015. Devido ao seu histórico, já era esperado um filme fora do clichê com uma atmosfera obscura e, principalmente, sufocante. Este é o caso de Hereditário.

Hereditário crítica

Em Hereditário, somos apresentados a uma família de classe média-alta americana que lida de forma disfuncional com a perda da avó materna – uma questão que afeta especialmente sua neta mais nova, Charlie, com quem tinha uma relação muito intensa. Conforme o terror na família e na casa aumenta, a relação da caçula com a mãe passa a ser algo muito próximo de uma fobia e, a partir disso, conseguimos notar que há algo podre na relação da família. Não há confiança, não há segurança.

Hereditário crítica

Ari Aster, diretor e roteirista do longa, queria fazer um filme que servisse, primeiramente, como um drama familiar, antes de considerar todos os elementos clássicos de um terror. Em seu roteiro, priorizou o desenvolvimento dos personagens e os sustos e cenas gráficas. E o grande protagonista de Hereditário, segundo ele, é o sofrimento: toda a violência contida na casa e na família, o luto, a dor, todos os sentimentos expostos, ou não, de cada membro da casa. Aster nos preparou para uma jornada que agisse como uma meditação sobre dor e trauma, que geralmente são sentimentos muito presentes, ainda que reprimidos, nas relações familiares.

Hereditário crítica

Em meio ao drama familiar, também há uma narrativa “tradicional” do terror: um caso de misticismo e demonologia. No entanto, esta é tratada como algo secundário, dando abertura para interpretação do público. É como se o próprio diretor não levasse a sério os clichês do gênero, e nos desafiasse a fazer o mesmo.

O tema central da obra é, notavelmente, a relação familiar dos quatro. Muitas vezes, sentimos na pele a claustrofobia de Peter, personagem de Alex Wolf, e o desespero de Annie, interpretada por Toni Collette, que precisa lidar com o fato de não conseguir expressar qualquer emoção pela morte da mãe e ser totalmente alheia com os filhos e o marido.

Hereditário crítica

Com inspirações em O bebê de Rosemary (1968) e seguindo o fluxo de filmes com terror psicológico, como O Babadook (2014) que também procura abordar a importância da saúde mental e sua influência em relações familiares, o filme trabalha diversos elementos que algumas dessas relações podem possuir, principalmente, a sensação de sufocamento: o horror é sentido quase em toda cena, em família ou relacionada a ela.

Hereditário crítica

Em Hereditário, conseguimos ter uma visão muito subjetiva e agoniante do quão desesperador é estar em uma família disfuncional, além do medo comum de que alguma característica que possuímos ou alguma violência que tenhamos sofrido, seja uma herança de nossos próprios ancestrais.