RAFIKI E PARIAH – ARTIGO ESPECIAL

Rafiki e Pariah – A representação de mulheres lésbicas negras dentro da cinematografia

De vez enquanto queremos assistir filmes em temática LGBT pelas quais os personagens aparecem sendo felizes e vivendo uma vida de amor. Pois enredos em que pauta o sofrimento como um tema central dentro desta categoria cinematográfica se tornou desgastante.

Mesmo fazendo esses apontamentos, entendo que esse enredo ainda é necessário dentro do nosso cenário social, pois a opressão infelizmente faz parte do processo de aceitação do ser LGBT na sociedade. Já que a mesma sociedade não o aceita devido sua orientação sexual ou de gênero.

Por isso reforço que, esse tipo de discussão mesmo que por um momento possa se tornar cansativo, de fato é uma realidade social. E que deve ser bastante debatida dentre os meios de comunicação, em que abrange em si o cinema. E é aqui que entra Rafiki e Pariah

Rafiki Pariah

Apesar de sofrermos um pouco com esses filmes, também encontramos os alívios como Rafiki e Pariah Nas quais podemos observar como o amor se manifesta na forma de compreensão e empatia. E que podemos encontrar apoio dentro de amizade ou aquela pessoa que faz você tomar decisões para estar junto com ela. Dessa forma, Rafiki e Pariah se manifestam assim, mas em contextos diferentes.

Pariah (2011) contém um enredo rico que demonstra um longo debate sobre aceitação de uma lesbianidade, pelas quais Alike (Adepero Oduye) sendo protagonista do filme quer se relacionar e ser amada. A personagem também esconde da família sua orientação sexual e lógico, nesse aspecto da família a religião tem um papel fundamental sendo demonstrado de forma minuciosa no filme, em que você entende melhor essa questão no final do longa.

Alike demonstra como é ser uma jovem que muita das vezes age na inocência (até mesmo por falta de experiência e tá vivenciando um pouco da sua orientação no presente) para lidar com a própria orientação sexual. Você já se depara com a inocência e introversão da personagem no início do filme no momento em que a jovem se encontra em uma boate lésbica e sua amiga Laura (Pernell Walker) que já tem mais experiências que ela, tenta ajudar a personagem a ficar com alguém na boate. 

Falando na figura de Laura, ela é a que mais apoia Alike, pelas quais acaba desenvolvendo um amor além da amizade que tem com a protagonista. Na obra cinematográfica, do início ao fim encontra-se como as duas tem uma relação fiel de amizade. Mesmo que em um dado momento o amor de Laura por Alike acaba levando em algumas atitudes um pouco problemáticas, pelo fato da protagonista errar com sua amiga ao desenvolver um romance por uma outra pessoa que é a personagem Bina (Aasha Davis).

Outra cena que é mostrada nos primeiros minutos do filme acaba sendo a volta de Alike para casa após a boate. A personagem sentada dentro de um ônibus começa a feminizar a sua imagem pelo fato de não ser assumida para família que é conservadora.

Ela que não performa feminilidade, acaba tendo que se obrigar a tentar ser o mais próximo de uma imagem padrão do que seria o feminino. Para que sua família não desconfie. Além disso, o filme aborda aspectos sobre sua relação familiar de uma forma bem precisa. Mostrando como é a vida daquele que se encontra dentro de uma “caixa”. Que por sinal essa caixa se abre no final da obra em uma cena extremamente marcante e repleta de dor.

Rafiki Pariah

Contudo, além desses pontos apresentados no longa metragem, também encontramos Alike escrevendo poemas. Nas quais a mesma expressa toda sua vivência na escrita, tornando assim um filme que vai de início ao fim tomando sua figuração poética com o real. Enfim, eu poderia escrever mais sobre Pariah, mas é aquilo, só assistindo para entender o tamanho e dimensão do que essa obra representa.

Rafiki nos apresenta outras questões. Pontos mais específicos do que o longa dirigido por Dee Rees. A linguagem que Wanuri Kahiu desenvolve é inspirado no conto “Jambula Tree”. Rafiki acaba sendo um pouco mais diferenciado. Logo nos seis primeiro minutos da obra somos surpreendidos com a troca de olhares entre Kena (Samantha Mugatsia) e Ziki (Sheila Munyiva).

Rafiki Pariah

Em um jogo de tons entre o laranja e o rosa na direção de arte e fotografia, encontramos o fascínio e o romantismo, crescendo em suas primeiras cenas. Além disso, a obra é impecável também nesse quesito das tonalidades vivas e estampas que representam a cultura local.

Outro aspecto importante é que o filme vai apresentando a relação que Kena tem com a mãe e o pai, que são divorciados. Kena mora sozinha com a mãe, e o pai é dono de um mercado local, além de concorrer às eleições para um cargo político, além de morar com outra mulher. Sobre o pai de Kena fazer parte da política, isso acaba baseando um pouco o percurso do filme. Pois o pai de Ziki também está concorrendo às eleições para esse mesmo cargo, e as duas famílias acabam sendo “rivais”.

Rafiki Pariah

Mesmo diante dessa rivalidade, as duas protagonistas do filme acabam se aproximando, e se aproximam de uma maneira profunda ao ponto de desafiarem o meio no qual fazem parte. Por mais que elas não assumam de forma exposta a relação, ambas fazem de tudo para viver aquilo, viver uma amizade e um romance que só cresce em cada cena. Mas é claro, o medo também é presente e ainda é mais presente para Kenia que acaba sendo mais racional do que Ziki na questão sobre não darem brecha para que as pessoas descubram o que elas vivem.

De uma maneira delicada, Rafiki debruça-se sobre esse ponto, pois para além das duas terem uma família conservadora e não assumirem sua orientação sexual, a sociedade como um todo é preconceituosa. No Quênia é crime ter relações homossexuais, então o filme acaba sendo um desafio para criticar abertamente o país. Mostrando cenas que só vendo para entender o porquê precisamos debater sobre um mundo que ainda rejeita pessoas LGBTs, em que torna-se mais complexo quando se trata de pessoas negras.

Rafiki Pariah

A partir disso, obras como Pariah e Rafiki, são importantes para nos fazer lembrar que a arte tem seu papel fundamental para criticar uma sociedade. Um sociedade que precisa refletir sobre os erros nas quais a mesma comete durante séculos, através de uma perseguição moralista, preconceituosa e conservadora sobre pessoas que vão de contra ao que é definido como cis, hétero, normativo, padrão e branco por exemplo.

É através do cinema feito por mulheres negras que produzem esses tipos de filmes que essa temática tem tido relevância. E é ai que precisamos parar para dar mais visibilidade a potência que elas apresentam.

CAROL ( 2015 ) – CRÍTICA :

CAROL: Emocionante, sensual e romântico

Por mais que para alguns a trama de Carol possa parecer um tanto simples e com um final até previsível. Entender a profundidade desses personagens está longe de ser algo tão fácil assim.

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Uma mulher extremamente sedutora, misteriosa, que carrega em seu ar de superioridade aquele misticismo agridoce que nos deixa hipnotizados. Seria difícil encontrar uma outra atriz que não fosse Cate Blanchet para interpretar Carol Aird. Esse filme poderia ter corrido o sério risco de ser algo clichê ou até previsível. A personagem carrega todos os mesmismos de filmes de temática próxima – foi assim em Blue Jasmine, trabalhamos do senso irônico até o máximo do drama, sem deixar a peteca cair de mostrar que Jasmine não é a boa moça do filme, e que seu ar dramático esconde uma personalidade egoísta, nada prática e fora da realidade.

Mas ao contrário de Jasmine, conseguimos sair da superficialidade e entender melhor essa personagem que tinha tudo para ser a coadjuvante e se torna o elo principal. Entender a mulher, mãe, esposa, que vive uma vida presa na conveniência pelo amor de sua filha e não pela sua necessidade de ser feliz. O que se transforma na complexidade, já que, assim como Therese, temos essa sensação de que Ela poderia ir embora a qualquer momento, nos deixar nessa descoberta das nossas vidas e por isso só, também acabamos por idealizar Carol. – Cate Blanchet é como… Nem dá pra explicar. 

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É essa áurea enigmática o redor dessa mulher, sua transformação, seu apelo, é como finalmente entender uma pintura que já estava pendurada na parede por anos. Olhar de verdade para uma personagem que foi construída ao longo dos anos e alcançar sua verdadeira forma, verdadeira plenitude. Todd Haynes, me deixou exausta com essa atmosfera cheia de emoções pesadas, é uma montanha russa com drama, tesão, o mais intimo do meu eu. É ter Todd Haynes como agulha e a trilha sonora de  Carter Burwell como tinta. É tatuar Carol na pele. 

Eu tenho algumas reservas sobre o talento e a abordagem da carreira da irmas Mara. Não que Kate ou Rooney tenham algum problema de atuação – talvez seja a escolha de terminados personagens que não casem bem com os estilos individuais delas como atrizes. Therese Belivet tem esse quê sonoro de irritação e imaturidade que não sustenta tanto sua personagem como uma querida. Mas ao longo do filme, a interpretação de Rooney garante o lugar de Therese e buscamos entender mais o que acontece na cabeça e no coração dessa mulher, que se descobre apaixonada por outra mulher, mais velha, mais experiente e muito mais problemática.

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E é nisso que o filme poderia ter se tornado o clichê. Therese é jovem, imatura, não sabe o que quer da vida, tem um namorado, mora em um apartamento não tão bom assim, tem um emprego que ela considera abaixo de seus padrões e é medrosa. Então, essa mulher, com batão vermelho e esse olhar hipnotizante chega e transforma Therese, transporta ela para fora de sua concha e ela finalmente vê o mundo com outros olhos, mas acabam tendo que por um fim no relacionamento. Therese muda, mas Carol poderia continuar a mesma e o filme servir apenas como uma lição simples de autoconhecimento.

Aqui, isso não acontece assim tão facilmente. Therese tem o alto de seus defeitos como essa jovem mimada e arrogante, que não encontra o seu lugar no mundo. Enquanto nós, junto com ela, idealizamos Carol ao máximo de nossos sentimentos. E até esquecemos que ela tem seus problemas, pensamos apenas no”tudo vai dar certo, felizes para sempre”. Então, quando elas se separam e passamos pela mudança de Therese, pela mudança de Carol, saímos da idealização, entramos na realidade, de que um relacionamento assim, só poderia ser cheio de conturbações e que exigiria algum sacrifício de algum dos lados.

Somos um público egoísta. Nunca pensamos no sacrifício.

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É um filme sobre amor, responsabilidade. Os direitos da mulher em uma época ainda muito pensada para o homem, preconceito, e a relação dessas duas mulheres que estão se descobrindo juntas. Sarah Paulson é sempre um tiro de talento e com Cate Blanchet formam a dupla perfeita. E foi refrescante ver Kyle Chandler em um bom papel, para variar.

A palheta mate, escura e séria de Edward Lachman, criou o clima pessoal, introspectivo, certeiro para focar na apresentação dessas personagens fortes,. A fotografia não é algo tão impactante de primeira. É suave, é sutil em sua dinâmica, não é atrapalhada ou rápida, tudo toma seu tempo, em conjunto com essas cores opacas fortes. Principalmente quando entendemos o vermelho. Não como se referindo a sedução, mas se referindo a mudança, a coragem, e isso casa perfeitamente com o tom que o filme segue. Fora que todo o roteiro de Phyllis Nagy e Patricia Highsmith se transforma na apresentação perfeita para o trabalho da dupla desses diretores- A cena em que elas fazem amor ainda está na minha cabeça –

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Para conclusão? O longa mereceu cada indicação ao Oscar, cada prêmio recebido. Cate Blanchet, ainda é a Rainha de todos nós e vai ser difícil superar Carol.