RETRATO DE UMA JOVEM EM CHAMAS – CRÍTICA:

“O AMOR NARRADO NO OLHAR”
“No regrettz pas. Souvenez-vous.”

As vezes me pergunto se Céline Sciamma não acordou um belo dia e pensou “estou cansada dessa representação meia boca que temos da comunidade lésbica no cinema e se ninguém faz nada sobre isso eu mesma farei” e assim nasceu Retrato de uma Jovem em Chamas.

Retrato de uma Jovem em Chamas

Brincadeiras a parte, a realidade é que, Céline Sciamma (Tomboy/ 2011) nos entrega um filme impecável. Do roteiro a fotografia, da direção as atuações, do figurino a trilha sonora. Tudo em Retrato de uma Jovem em Chamas se encaixa para nos entregar uma verdadeira obra de arte do cinema francês.

Na França do século XVIII acompanhamos a história de amor impossível entre a pintora Marianne (Noémie Merlant) e a aristocrata Héloïse (Adèle Haenel). Marianne, cuja tarefa é fazer um retrato de Héloïse para seu casamento sem que a mesma perceba e Héloïse que rejeita o matrimônio e se recusa a posar.

Retrato de uma Jovem em Chamas

O filme poderia facilmente ser só mais um romance de época e no caso desse ser bem carregado de drama e tristeza (já que estamos falando sobre um filme LGBTQ e finais felizes em produções assim são escaços). Mas aqui não funciona assim, vemos uma ressignificação da tristeza. Sciamma mostra de forma dura e também sensível a história dessas duas mulheres de vidas e destinos completamente diferentes e que possuem na memória o seu maior ato de resistência. “Não se arrependa, lembre-se.”

É impossível dizer o que brilha mais na produção, parece que tudo foi minuciosamente pensado, em todos os detalhes, porém temos três aspectos que fazem toda diferença. O primeiro é, indiscutivelmente, o roteiro (não por menos levou o prêmio de melhor roteiro do Festival de Cannes 2019). Sciamma consegue nos entregar um roteiro certeiro e repleto de conexões e significados que ecoam em quem assiste.

Retrato de uma Jovem em Chamas

Em segundo lugar ficamos com as atuações e a química entre as atrizes Noémie Merlant e Adèle Haenel. Ambas se entregam de tal forma que podemos ver pelo olhar, pelo gesto, pela respiração de cada uma o nascimento do amor entre as duas. Do fascínio que uma sente pela outra até a entendimento do amor. E que incrível é ver a evolução do sentimento. Marianne pelo desconhecido, a descoberta de Héloïse, o rosto oculto. Héloïse pelo diferente, por tudo que ela não viveu visto em Marianne.

Posso citar também a interação das protagonistas com Sophie (Luàna Bajrami), a empregada da família de Héloïse. Junto com a personagem vemos uma das cenas mais poderosas do longa (não direi qual, você saberá quando assistir).

Em terceiro lugar porém não menos importante, temos a fotografia de Claire Mathon. O olhar simples e delicado dos cômodos hora escuros, hora iluminados pelo sol, a praia, as montanhas, a fogueira. Mathon nos entrega um filme admirável.

Retrato de uma Jovem em Chamas vai além de um romance LGBTQ, além de um filme de época, é uma narrativa sobre mulheres, sobre ser mulher na sociedade. Aqui o protagonismo é todo feminino (não há personagens masculinos). As ambições, as abdicações, a força de ir e de deixar ir, a força de não esquecer. Retrato de uma Jovem em Chamas é um filme que vai acompanhar quem o assistir, não importa o tempo que passe.

Curiosidades:

  • A artista por trás das obras do filme se chama Hélène Delmaire, você pode conferir as obras no seu Instagram: AQUI
  • Retrato de Uma Jovem em Chamas além de melhor roteiro em Cannes 2019 também ganhou a Queer Palm 2019, prêmio que contempla o melhor filme LGBTQ do Festival de Cannes.