AMERICAN HONEY (2016) – DICA ATM

AMERICAN HONEY: LIBERDADE, PRIVILÉGIO E AUTOESTRADAS

Com carros, pastos e fumaça de cigarro, Andrea Arnold tece American Honey (“Docinho da América”, no português), de 2016. A diretora e roteirista narra um conto de velocidade e asfalto, fronteiras e aqueles que as atravessam. Protagonizado por Shia Labeouf e a então estreante – e revelação – Sasha Lane (presente no recente O Mau Exemplo de Cameron Post), o filme acompanha jovens cuja ocupação é viajar pelas vastas estradas do interior dos Estados Unidos, vendendo revistas enquanto se afastam de quaisquer que tenham sido suas vidas prévias.

O formato itinerante de seu roteiro, cinematografia e personagens remete American Honey a outras obras. On the Road, de Walter Salles, adaptação do livro homônimo escrito por Jack Kerouac, e Into the Wild, narrativa baseada na vivência real do jovem Chris McCandless, trazem também viagens extensas e personagens contemplativos, submetidos às incertezas da estrada – literal e metaforicamente. American Honey, entretanto, quando observado a partir da real experiência estadunidense, se assemelha aos filmes supracitados somente em premissa e estética.

American Honey crítica cinema Docinho da America

A proposta, ainda que exibida como a é em seus colegas do gênero, carrega em seu âmago uma diferença notável: a motivação de seus personagens. O combustível das ações e decisões de Star (Sasha Lane) e de seus companheiros viajantes vem da falta. O desamparo, como quer que tenha se apresentado na história dos integrantes da “trupe”, movimenta suas escolhas rumo à uma liberdade que não necessariamente surge da liberdade de escolha em si.

Enquanto On the Road exibe um protagonista que voluntariamente se põe a viajar almejando inspiração e vivência para seu trabalho literário, e Into the Wild acompanha a trajetória de um estudante exemplar que opta por abandonar suas conquistas e conforto doméstico para viver humilde e nômade, American Honey mostra indivíduos que veem na liberdade a única escolha possível – “opção” infere múltiplas possibilidades, e abundância não faz parte da parcela aqui retratada.

American Honey crítica cinema Docinho da America

O que não ocorre em American Honey é o privilégio de optar pela liberdade. O “wanderlust”, como popularmente é denominado o anseio por explorar, descobrir terras que não as suas e participar de rotinas-outras, possui raízes privilegiadas quase meritocráticas onde o desejo por se expandir para além do “sistema” que se vive só pode, de fato, ser nutrido por aqueles que de alguma forma possuem capacidades para negá-lo e “burlá-lo”. Onde observamos uma  progressiva consciência de classe atuar em Chris McCandless, que a partir da mesma renega o modo de vida confortável que possui, em Star observamos sua sintomática ausência.

Nativa de um lar abusivo – cuja rotina predatória nos é cruamente mostrada nos momentos iniciais do filme – e integrante de uma comunidade às margens do conforto urbano e doméstico, Star encontra na trupe o espaço que lhe é negado em diversas frentes, do social ao pessoal. O grupo a qual Star se une, que objetiva dinheiro e liberdade, vive a essência norte-americana às avessas, precariamente se valendo da promessa de sucesso que alimenta o sistema estadunidense: sistema que mantém eles próprios às margens. O “wanderlust” de Star e seus companheiros é primal: não há zona de conforto a ser superada pela liberdade de explorar, pois não há conforto em lugar algum.

American Honey crítica cinema Docinho da America

O grupo faz parte de uma parcela populacional estadunidense invisibilidade pela massiva manutenção do “sonho americano”, pilar da nação em que vivem, e sua representação em produtos cinematográficos recentes não se limita a American Honey. O aclamado The Florida Project acaba por exibir, ainda que através de seus particulares protagonistas infantis, a vida de Star e seus colegas quando não em movimento sobre quatro rodas. Em “Florida”, onde acompanhamos moradores de um complexo habitacional na periferia de Orlando vivendo a quilômetros dos suntuosos parques da Disney, se percebe o mesmo relacionamento tóxico entre habitante e cidade, cidadão e nação que observamos em American Honey: ejetados, os personagens vivem como rêmoras.

Para Star e Chris McCandless, não é a mesma estrada que se estende a frente. A jovem, que assume o lugar de outro até mesmo entre seus desafortunados semelhantes enquanto única negra num círculo branco, percorre o asfalto em outros passos.