PULP FICTION – A CONSTRUÇÃO DE UM RELACIONAMENTO – ARTIGO

Pulp Fiction – A estrutura heteroafetiva com Mia e Vincent  

É indiscutível que a narrativa não linear de Pulp Fiction faça sucesso até hoje. Considerado um dos melhores e maiores filmes de todos os tempos, essa obra de Tarantino habita em seu próprio mundo, com suas insanas teorias e personagens que completam sua ambientação. 
Pulp Fiction Mia Wallace Vincent Vega
Lançado em 1994, Pulp Fiction marcou os fãs com um “casal” átipo, interpretado por Mia Wallace (Uma Thurman) e Vincent Vega (John Travolta). É certo afirmar que eles flertam. E muito bem. Vincent com todo aquele charme de “garoto largadão” e bad boy, para mostrar certa vulnerabilidade, mas ainda estar certo de onde pisa, encontra Mia, sua áurea clássica de Maniac Pixie Dream Girl, mas que ainda persiste em seguir com um tom inocente, apesar de ser esposa de um dos gangster mais influentes de L.A (ao menos umas três vezes ela ironicamente conota tons juvenis dentro da conversa com Vincent, uma visão bem “adolescente” da vida) – Esse par proporciona cenas épicas para o acerto e altos pontos de clímax do filme. 
Mas ao analisar o processo de narrativa entre esses dois personagens, o encontro de suas virgulas, pausas e pontos, é bem clara a construção de um relacionamento heteroafetivo, o retrato do padrão de um relacionamento dentro de poucos segmentos de Pulp Fiction. Não sei se foi essa a intenção de Tarantino, mas ao analisar duas imagens bem claras destes mesmos personagens, essa ideia ficou impertinente em minha mente, então me dei a disposição de assistir novamente ao clássico e estudar essa mesma forma de construção aos olhos de Mia e Vincent. 
Pulp Fiction Mia Wallace Vincent Vega
Vamos a introdução dos personagens, começando por Vincent: homem muito confiante, se considera culto, educado, é respeitoso (tirando o fato de que ele trabalha para um gangster), charmoso, amigo; Aquele tipo de cara que pode falar sobre qualquer coisa, mas que também anda de chinelo no shopping. Nunca chega a falar tão profundamente sobre seu emocional, mas conversa o suficiente para você saber que ele não é frio. 
No caso de Mia, o retrato é diferente: Mia é construída para ser sexy. Sua personagem só tem vez lá pra quase a metade do filme. Quando falam dela, não falam de sua personalidade, mas apenas refletem sobre o efeito que ela causa. Ela foi hollywoodemente pensada como uma clássica, tarantinesca, femme fatale. Mia tem a liberdade de brincar com a figura de Vincent. 
Pulp Fiction Mia Wallace Vincent Vega
Mas como isso funciona na construção de um relacionamento? 
Não é o homem em sua figura e posição de direito à sociedade, livre? E a mulher misteriosa, vazia e um tanto infantil? E não é real que essas duas formas criam um esteriótipo bem padrão para características de um relacionamento heteroafetivo? 
Você consegue entender que, essa romantização de Mia e Vincent, nada passa de uma irônica afirmação de Tarantino sobre esteriótipos?  
Vamos testar a construção desse relacionamento. Chegamos na cena da lanchonete, Jack Rabbit’s Slim. 
Pulp Fiction Mia Wallace Vincent Vega
Mia é likeble. Ela é curta e objetiva, com uma certa dose de humor ácido e otimismo, doce à sua maneira solta e casual, sabe, Maniac Pixie Dream Girl… E ainda tem a sua “inocência” reafirmada pelo garçom (um Steve Buscemi fantasiado de Buddy Holly), ao ser chamada de Peggy Sue, “personagem” dos anos 50 que representa a sagacidade e doçura da juventude. 
Vincent, aqui é o mesmo do mesmo. Sei que vai parecer aquele velho texto sobre machismo, mas eu realmente não me importo, até porque é uma construção machista. Nos primeiros vinte segundos ele faz o tipo, você sabe, aquele tipo: “já desistiu tem anos, mas segue com um sarcasmo afiado, irônico e humor ácido para se fazer presente. Tudo é piada. Difícil de mudar velhos hábitos, conversas que indicam mudança assustam e questiona quando é tudo fora do padrão.” 
Pulp Fiction Mia Wallace Vincent Vega
Vincent Vega, em vinte segundos questiona todas as escolhas de Mia. 
A cena da lanchonete é uma comunhão destes personagens em um relacionamento. 
Ela pergunta sobre a vida dele, ele pergunta sobre a vida dela, os dois fingem se importar com o que eles estão ouvindo, um certo nível de interesse, retóricas, ela mostras as inseguranças dela, ele faz pouco caso… 
A bebida chega. 
Silêncio. 
Ele se sente confortável, ela também. Mesmo que ainda tenha aquela pulguinha atrás da orelha, a cena/relacionamento, cresce, passa. Silêncios confortáveis. 
E ai, a pegadinha solta do roteiro. 
Quando Mia fala sobre “silêncios”, onde sabemos que encontramos A pessoa certa, quando podemos calar a boca e compartilhar o silêncio, eis que Vincent solta: 
Não acho que a gente seja tão intimo assim, mas não se sinta mal, acabamos de nos conhecer…” 
Quer dizer… Se você não pegou essa deixa, eu vou deixar no ar. 
Chega a comida. 
Pulp Fiction Mia Wallace Vincent Vega
Ele reclama, ela contorna, ele continua reclamando, ela tenta outra vez. Ele instiga sobre a intensidade dela em outros “relacionamentos”, para poder ficar com a consciência tranquila sobre a falta de compromisso dele e então o relacionamento procede. Eles dançam, ela está certa do que quer. Ele não. Ela comete erros, ele também. As frustrações aumentam, ritmos diferentes. Conversas sobre lealdade, compromisso, “o que fazer”, liberdade… 
Até que tudo estoura em uma overdose. 
E tudo acaba. Com uma piada sem graça, contada para suavizar o impacto que toda essa relação causou. Um sorriso de “é, talvez… em outro tempo, teria sido engraçado…” 
E ai… Ketchup. 
Não há otimismo final neste artigo.