BLADE (1998) E UNDERWORLD (2003) – CRÍTICA

“BLADE” E “UNDERWORLD”: UM ESTUDO EM VERMELHO — OU, POR QUE NÃO ME IMPORTO COM O SEU FAZ-DE-CONTA?

O irreal atrai. A Fantasia, enquanto gênero, revela suas múltiplas possibilidades do épico ao urbano, e movimenta estúdios em suas diferentes formas ao longo dos anos: o faz-de-conta vende. O gênero fantástico provou-se enquanto investimento rentável em diversas das maiores franquias do audiovisual – “Harry Potter”, “O Senhor dos Anéis”, “As Crônicas de Nárnia”, “A Saga Crepúsculo”, e fenômenos televisivos como “Buffy: A caça-vampiros”, “Game of Thrones” e “True Blood”, ambos os últimos da rede HBO – e permanece em proeminência, não raramente ocupando as telas em novos corpos estranhos. Blade e Underwold fantasia

Blade & Underwold fantasia artigo crítica

Entre os anos finais da década de 1990 e o início dos anos 2000, a fantasia tomou, nas telas, a forma de dois seres noturnos, distintos em gênero e mundo, mas semelhantes em propósito e apelo. Blade e Underworld, respectivamente protagonizados por Wesley Snipes e Kate Beckinsale, foram os capítulos iniciais de franquias que se estenderiam para além de suas primeiras estreias.

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Em “Blade”, acompanhamos o caçador de vampiros homônimo – ele mesmo sendo um híbrido, parcialmente pertencente à raça que caça – adaptado dos quadrinhos Marvel; em “Underworld”, seguimos Selene, uma vampira treinada nas mais letais artes da morte e do combate físico, explorando o sombrio e traiçoeiro mundo o qual jurou proteger. Ainda que semelhantes, ambas as produções se distanciam no que tange sua execução. Ao olho atento que consome o gênero, se revelam escolhas narrativas e estruturais tomadas de modos muito distintos em cada um dos respectivos cenários, e ao olhar que busca apenas entreter-se por uma hora e meia ou duas, tais diferenças podem representar a frustração das leves intenções escapistas do espectador.

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“Blade”, de 1998, é o primeiro grande investimento adaptado da Marvel Comics, originado do personagem original que não muito possuía de popularidade em meio ao público geral antes de sua estreia cinematográfica. Dirigido por Stephen Norrington e escrito por David S. Goyer, o filme é divertido, atraente e dinâmico, o que não pesa sua duração de duas horas. Em Wesley Snipes vemos um personagem carismático, de pose estoica e munido de um humor frio, sarcástico, trazendo riso em meio ao sangue com seus trejeitos e faces bem-humoradas.

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Em seus aspectos visuais, “Blade” também encontra sucesso. A visão de Norrington é noturna e polida, enquadrando a cidade e o submundo que a infesta em shots amplos que elevam a seriedade com a qual o filme é desenvolvido, na época incomum para uma obra do gênero. Sonoramente, “Blade” povoa seu cenário sangrento com synth e techno, modernizando criaturas cuja ascendência medieval prevalecia em grande parte de suas representações, o que também denota a diligência de toda a produção. A solidez técnica e o enredo, competentemente equilibrado entre entretenimento e estrutura narrativa, tornam envolvente a irreal realidade de Blade e seus demônios.

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A “suspensão de descrença”, termo técnico comum aos gêneros ficcionais, se refere ao público que voluntariamente abre mão de preceitos reais e plausíveis para entreter-se numa narrativa imaginada, onde as regras e leis físicas, naturais e morais regentes da realidade do espectador não se aplicam. Em “Blade”, a suspensão é possibilitada pela coesão estética e narrativa da produção, executada com maestria num gênero inesperado. A personalidade da obra, aqui, prevalece sobre os limites do possível.  Narrativas fantasiosas são espetáculo para um público real, e a realidade possui suas demandas – demandas essas que “Blade” supre… enquanto “Underworld” cambaleia.

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Em 2003, um ano após o lançamento da primeira sequência de “Blade” (“Blade II”, em 2002), chega às telas “Underworld”, primeiro de uma franquia que até recentemente, em 2016, ainda acompanhava seu enredo e personagens. Dirigido por Len Wiseman, que também se encontra entre os roteiristas da produção, o primeiro dos filmes acompanha a assassina Selene, uma vampira imersa numa eterna guerra entre sua própria raça e os lycans, nomenclatura própria da mitologia da franquia referente aos lobisomens – tão populares no imaginário popular e na cultura pop quanto seus colegas noturnos, e aqui rivais.

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A proposta é simples: um confronto sobrenatural, uma personagem feminina forte e armada aos moldes de “Lara Croft” e “Resident Evil” – ambas as franquias já introduzidas nas telas em 2001 e 2002, respectivamente – e o tempero primordial do entretenimento popular: violência. Entretanto, “simples” é, de fato, o termo a melhor descrever a execução do projeto em si. Onde “Blade” expõe uma proposta simples e a concretiza enquanto uma aventura inventiva e pulsante, “Underworld” nos transporta para um mundo tão frio quanto seus próprios habitantes.

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Tendo a mesma duração de seu colega de gênero, “Underworld” torna suas duas horas um enfado. Acompanhamos uma personagem aparentemente invencível, cujos obstáculos não se demonstram capazes de pará-la ou oferecer qualquer grau significativo de ameaça, e que roboticamente nos presenteia – contra nossa própria vontade – com constantes confrontos físicos, minimamente espaçados entre uma sequência e outra, a ponto de uma luta mesclar-se com a seguinte, e assim por diante, tornando o enredo um único grande conforto corporal onde disparos, espadas e punhos tornam-se um só marasmo.

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Construindo ação, é necessário que a mesma possua um propósito. “Punho por punho” não soma à construção de uma narrativa, ou desenvolve a personalidade e nem sequer as habilidades de um personagem, que ao demonstrar possuir um número infinito das mesmas, torna-se desinteressante e inacessível – e de nada adianta um salto acrobático enquanto cabeças rolam pela lâmina de sua espada se o espectador não lembra o motivo de cabeças estarem voando, em primeiro lugar.

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Blade, ainda que possuidor de todas as forças vampiras e detentor de nenhuma das suas fraquezas, não passa imune por seus conflitos. Capturado, enfraquecido, emocionalmente marcado, incapacitado pelos antagonistas que enfrenta, detentor de seus próprios dilemas pessoais: constantemente, Blade é posto abaixo da invencibilidade.

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Selene, interpretada por Beckinsale, é prejudicada pelas grandiosamente falhas intenções de seus roteiristas e de seu diretor, se tornando uma personagem oca, visivelmente controlada pela imagem estabelecida por protagonistas anteriores – Lara Croft em Tomb Raider e Projeto Alice em “Resident Evil” – e consequentemente incapaz de fomentar um apelo sequer próximo ao das personagens femininas que a inspiram. Lara e Alice, em seus respectivos mundos e narrativas, possuíam características e origens que evocavam personalidade, enquanto Selene, com suas presas e lentes azul-pálido, nos evoca apenas vazio.

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Blade, por sua vez, também possuidor de uma origem devidamente explorada que lhe garante acessibilidade e possibilidades emocionais, assim se torna humano como o espectador que o consome, mostrando-se mais do que uma criatura a ser meramente assistida – Blade é uma criatura a ser acompanhada. Raramente parte de diálogos interessantes e inteiramente destituída de qualquer tipo de humor, Selene também falha ao não evocar simpatia naqueles que a assistem, o que exalta seu colega mais uma vez.

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De qualquer forma, Kate Beckinsale batalha com o material que lhe é entregue, e por carrega-lo ao longo de quatro filmes – que gradativamente diminuem suas durações, quem sabe se percebendo não tão sérios quanto inicialmente se acharam… – a atriz merece certo crédito.

Blade & Underwold fantasia artigo crítica

A proposta de um sobrenatural bélico e em guerra poderia, sim, ter elevado “Underworld” e sua protagonista a uma nova posição no gênero, conquistando um espaço cativo e original como fizera “Blade”, mas por pobres escolhas o projeto se rebaixa ao entretenimento raso de um filme descartável.

Entre Blade e Underwold, o faz-de-conta oscila entre o fantástico… e o ilusório.