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TERRA SELVAGEM — Um filme que nos relembra a luta pela força feminina.

Eu vou começar essa crítica com alguns dados científicos que talvez você não queira ler.

No Brasil, cerca de 12 mil mulheres são atacadas POR DIA, nos Estados Unidos, o número é de 7 mil mulheres atacadas em uma diferença de dez minutos para cada ataque. DEZ MINUTOS para cada ataque.

Nas Universidades Federais do Brasil, um total de 43% do corpo feminino de estudantes já sofreu algum tipo de abuso físico ou verbal. Nos Estados Unidos, 27% da alunas mulheres estão enfrentando processos contra seus agressores.

Agora, preste atenção. Dentre esses dados que lhe forneci, nenhum deles consta mulheres indígenas. Deixe me dizer novamente. NENHUM.

Jeremy Renmer é Cory Lambert, um agente federal da caça e pesca no estado de Wyoming, onde existe uma reserva indígena. Ele é um homem solitário e com uma rotina. Diferente dos arquétipos de lonely ranger, Cory é um pai presente na vida de seu filho e tem uma história triste de perda com sua ex-mulher. Em um dia de patrulha, seguindo o rastro de três leões, Cory encontra o corpo de Natalie, melhor amiga de sua filha também falecida. Natalie apresenta todos os sinais de um estupro, então, por requerimento, o xerife da reserva chama o FBI para desvendar se foi ou não um assassinato.

A direção e o roteiro de Taylor Sheridan é algo precioso aqui. Com a cinematografia de Ben Richardson trabalhando tons escuros e terrosos, a landscape desse filme apresenta sequências ao ar livre que criam pontuações certas de tensão e suspense. O roteiro trabalha dentro de suas sutilezas. A importância da terra, o quanto o povo indígena que anda vive nos Estados Unidos valoriza a terra. Não pela tradição, mas pelo medo de perdê-la. A força feminina diante de uma tragédia, diante da vontade de viver.

Natalie foi estuprada e correu, no meio de uma nevasca, por 6 km, descalça. Enquanto escrevo essa crítica, minhas mãos tremem de emoção, de tão impactante que teve as sutilizas sobre mim.

Jeremy Renner me lembrou o porque dele ter concorrido ao Oscar de Melhor Ator. Cory não é o típico ermitão da montanha. Está longe disso. Ele é um pai, já foi um marido e sofreu uma grande tragédia ao perder sua filha de dezesseis anos. E ele não tem medo de demonstrar a dor que guarda dentro do coração. Mas ele também é um caçador. Ele também é um agente federal e conhece as montanhas como ninguém. Quando ele descobre o corpo de Natalie, ele se dá um objetivo e o concretiza com determinação. Renner é, sem dúvidas, um de meus atores favoritos da última década. Conheci seu trabalho em SWAT e devo dizer que nunca me decepcionei. Ao contrário, a cada filme, minhas expectativas aumentam (até mesmo em Vingadores e Bourne), ele consegue aplicar o tom certo de emoção em suas performances e dar continuidade a história de seus personagens em nossa imaginação. Quando ele diz a Martin, pai de Natalie, a seguinte frase “seja gentil com os jovens, eles não entendem o sofrimento como nós”, apenas mostra a extensão emocional que ele criou para Cory ao dar vida ao personagem. E isso se chama excelência.

Elizabeth Olsen é Jane, uma jovem agente do FBI que é mandada para o fim do mundo de Wyoming para resolver um caso que ninguém coloca muito crédito. Ela é uma agente novata, sentimos isso. Mas assim como a atriz que a interpreta, Jane aparece em tela para provar sua capacidade acima de qualquer expectativa. Ela segue seu instinto, ela confia em Cory, ela é empática com sua dor e seu desespero e ela entende que seu papel está acima de provar que foi um assassinato, mas lutar a favor dos direitos dessas mulheres que são esquecidas pelo mundo. Nós estamos no papel de Jane. Elizabeth trouxe pra mim a revolta. Eu esqueci, eu deixei passar, essa revolta que existe dentro de cada uma de nós, mulheres. Essa revolta que existe quando descobrimos o massacre diário que acontece com nossas irmãs. Na cena final, quando ela reafirma que Natalie correu 6 km descalça na neve para lutar pela própria vida, ela chora, e é impossível não sentir a dor que existe dentro dela ao reconhecer a força de Natalie. Ela não chora apenas pela tragédia. Ela também chora pelo cansaço que nós mulheres sentimos por termos que, assim como Natalie, enfrentar nossos quilômetros sozinhas, todos os dias, na neve, descalças.

A mensagem do filme é: De onde vem essa raiva que existe dentro dos homens?

Terra Selvagem nos lembra incansavelmente que não deixaremos esse ódio contra as mulheres passar impune. Que não devemos! Um filme impactante, com um roteiro incrível ao qual eu não estaria surpresa se ingressasse na temporada de premiações. Uma trilha sonora que te coloca na ponta da cadeira a cada momento e não te deixa esquecer o objetivo de sua história. Se antes eu havia fechado a minha lista, com Terra Selvagem, meu top10 dos melhores de 2017, ganhou um novo integrante.

Dados da pesquisa: http://www.bbc.com/portuguese/videos_e_fotos/2016/02/160218_video_mulheres_indigenas_my

http://www.brasileiraspelomundo.com/eua-violencia-contra-a-mulher-071638326

Sobre o Autor

Dandara Aryadne
Pseudo escritora, artista plástica nas horas vagas. Criadora e colunista principal do site Cinema ATM.

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